quarta-feira, 18 de novembro de 2015

REALIDADE ESPECTRAL

     O sujeito diz uma determinada coisa a fazer, tal como: “marcaria presença”. No dia em que o evento fora indicado, o mesmo elemento palinodiou totalmente, e passou a asseverar: “não irei mais”. Ocorrera, de fato, a ausência. Momento algum tomou a iniciativa quanto ao ato de justificar-se, mesmo de modo embusteiro, engabelando a si próprio e ao outro – que ficou como sendo seu ouvinte!...
     O “X” pode avocar todas as datas, e na última hora, com um cinismo a toda prova, retratar tudo o que se dissera posteriormente, remarcando dia, hora e local. Insinua-se como se fosse capaz de perpetrar o feito. De repente, refuta e revoga a frase que escrevera ou pronunciara – como se não houvera dito: nem na mensagem de texto (acima rubricada), tampouco na mensagem de voz (estropiada de modo cabal), gerando, de maneira concomitante (estropícios e estrupidos).
     Jamais conseguira persuadir o “Y” (em constante estado de sujeito valetudinário enfermiço). As patologias respondiam a gravidade dos males acometedores. Reiterava as ações, sobremodo as maléficas e de amplo espectro deletério.
     Os pregões terapêuticos estavam direcionados à divulgação da droga, recentemente lançada pela “Indústria Farmacêutica”, ainda com a denominação de amostra grátis, o único exemplar infalível, pois se encontra em período de teste corroborativo.
     O elemento “Z” intercomunica-se com o elemento “K”, usando o seguinte pensamento externativo: “De onde falas, que quase não percebo o eco melancólico de tua voz!... Creio que tua boca ainda tenha lábios, para que possas me dizer, em cabal silencio da confissão abscôndita, o que ainda, omericamente pretendes me exarar em surdina, mesmo que eu tenha de me prosternar junto ao telúrico, numa apropinquação abrupta de todas as minhas sensórias coligidas!... Gentilmente, caso seja possível, desidero auscultar o retumbar da tua voz, quase em plena expunção!...”
     As circunstancias despauteriais do hodierno instigam a perquirição: “Estás doente? Tenho telefonado, e não tenho sido atendido. Educadamente aguardo resposta”. Para complementar: “Estou a estranhar a indelicadeza quanto ao ato de responder. Sempre o julguei bastante educado. Fico no aguardo de uma reflexão e uma resposta convincente. O amigo do hesterno, do hodierno e do crástino!...”
     Hoje, de modo estapafúrdio, não se responde mais nem as mensagens de aniversário. A culpa e a desculpa, ambas se restringem na superocupação, que é, também, um tipo de distúrbio obsessivo compulsivo. A pessoa, depois de algumas horas ou dias; ou meses, ou até mesmo ano; após ter visto a mensagem anterior relacionado ao natalício, resolve abrir a seguinte: “Pêsames pela tua desabridez, em decorrência de não teres respondido a mensagem natalícia. De fato, você degeneresceu, e não percebeu a tempo de tentar dissimular a sua demudação abrupta. Dificilmente, você terá o simulacro suficiente para redarguir o que está sendo arguido por possível reconhecimento em cartório – dizia reiteradamente o “Caburé”, apelido dado ao sujeito feio, desengonçado.
     Mui implexo, ouvir-se o seguinte: “Apesar de ter operado o olho esquerdo nesta manhã, não me esqueci da data do seu aniversário! Parabéns, felicidades. Se possível, aguardo acusação de recebimento”. O destinatário pode ser taciturno, ainda que não queira replicar de imediato o que fora reenviado para ele. Sendo assim, amigo não é aquela pessoa que faz alardeamento, mas a que você pode contar mesmo em cabal silencio. O amigo de hesterno, do hodierno e do sempre crástino. A aplicabilidade, de modo contundente, aflora na prostremeira e educacional requisição: “Donairosamente requesto redarguimento premente”.
     A pessoa recebe um telegrama indicando a requisição de um livro. De posse do documento, a criatura desloca-se até à casa do expedidor. Ao abrir-lhe à porta, em meio passo, sendo o esquerdo no encetamento do vestíbulo; enquanto o direito posicionava-se no centro da soleira, sendo guarnecido pelos umbrais laterais e superior. O telegrama ostentava cópia confirmatória. Deveras, simbolizava uma completa deferência, uma vez que o convidado não pudera comparecer ao evento, – para o qual fora convidado –, tendo por natureza basilar o prisma da trilogia centurial: amizade -> amor -> amizade. O abstruso antinômico e heteróclito, em que todos os casos é sobrevir para a adequação do plano de épura.
     A realidade espectral nestes cruentos dias hodiernos, onde as demudações são diárias está alicerçada numa palinódia constante. O ato de retratação passa a ocupar um local primaziado, visto que os dispositivos eletrônicos, sem falta de retorno, aciona-se uma artificialidade a toda prova de complementação.
     É menos doloroso ter a inequívoca presença, somatorizando todas as minudencias existentes, desde o ombro, parte integral da cintura escapular até a prostremeira sentença da missiva, na qual a criança, o adulto, o pré-senescente, e os demais senescentes – 1ª, 2ª, 3ª, 4ª e 5ª etc fases, isto é, sentem-se entre o telúrico, o libratório e o gravitacional.
     Nem mensagens de natividade são penhoradas; somente são respondidas quando palavras extremas vem complementar a protérvia: “Meus pêsames pela tua questão de assunção da terminologia: edudeseducacional em linhas que regulam a convergência, a divergência, o reversível e o irreversível, todos esses parâmetros em amplo espectro verificatório”!...
      Que realidade proterva nos agrilhoa por todos os lados; e, então, ficamos atônitos perante as criaturas. Deveras, as mensagens que evolam dessas bocas, sem lábios, não têm os mesmos caracteres de um pristino recente. Ostentam demudações abruptas incognoscíveis, independente do quadrante referencial a que se posicionam. Após sucessivas cominuições, umas partindo da direitura esquerda, enquanto outras surdem de uma vacuidade inelucidável. Não há como reconstituir essas efigies resseccionadas. A ablação de uma delas, por menor que fosse, não compensaria a outra – em dimensão alguma – ainda que a prostremeira remanescera em algum ponto abscôndito do prisma.
     Não haveria meios de identificá-las, mesmo estando em recintos herméticos, e tendo por perto a presença de testemunhas e testemunhos. Destarte, voltariam em átimos de um crástino recente. Sutilmente, expungiriam os estigmas expenditivos, não deixando sequer laivo capaz de preencher as imanes vacuidades existenciais vigentes.
     Ninguém assinaria o livro de ocorrência: diária, semanal, mensal, trimestral, semestral, anual. É um único compendio cuja divisão em partes, decerto, designará o sujeito ou o objeto, ambos em compasso harmônico, ou cizânico, sendo do tipo binário, terciário, quaternário etc.
     As fraudes são incontáveis em todas as páginas. Sofismas aduzem à vereda de muitas astúcias. Não há como contê-las, pois minam assustadoramente em âmbito semicerrado, e, desse modo, não proporcionando ensanchas ressumbratórias.

     Obliteram-se as sendas postas no crepúsculo ou no dilúculo, uma vez que as esfinges se proliferam em todos os sentidos e direções vetoriais.

                                          Wilson Cerveira

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