O tempo não expunge as capciosas
máculas de um facínora, malgrado a sua etiologia genética confute por completo
todos os labéus desolados no meio da senda, remanescendo resquícios de uma
memória sensitiva, intensificada pelos emaranhados existentes nas variegadas
redes neuronais.
Este diminuto pródromo faz reacender aquela manhã soturna do dia quatro
de abril de mil novecentos e sessenta e oito, em que, desde as três horas da
madrugada, a chuva recrudescia em borbotões intermitentes. Um lidimo alardeamento
realçaria a exídria declarativa, desde que as pancadas de chuva ressoassem em
ritmo de tambores – “taróis” e “surdos” – sendo reorquestrados pelo interlúdio
das cornetas. Estas retumbâncias provinham de um prisco que não fremia em
cabalísticos suspensórios. Pelo contrário, progredia sempre, sem óbices, até
alcançar a cadência das agulhadas de chuva, sempre em harmônicos compassos.
A estesia, quando ocorre ao longo da existência consumada, parece exigir
a presença de maestros mais enérgicos capazes de enfatizar a importância
sucessiva das inúmeras gotas d’água sobre os vitrais de janelas e portas; assim
como, sem tartamudeios nas vidraças dos automóveis que iam, pouco a pouco,
perpetrando a ablação dos filetes de H2O, amplamente aglutinados em meio
ao vento frio que assopra a partir do pólo sul. A impressão especiosa surde, de
modo subitâneo, enlevando as situações mais atrozes – através das quais – todos
nós passamos; e, às vezes, despercebidamente.
Em meio a inúmeras laminas d’água, eu e meu pai fizemos com que parasse
junto a nós um automóvel. Não havia condições de chegar ao antigo “Colégio
Maristas”. Logo que adentramos, as portas automaticamente foram sendo cerradas
uma a uma. O que se via e ouvia era o chover a cântaros, como se estivéssemos a
experimentar um dilúvio em menor proporção.
Após várias desmanches, no estabetamento das postremeiras laminas
d’água, o automóvel conseguiu estacionar no átrio do Colégio Maristas, nas
apropinquações da marquise maior, a qual se projetava até o terço medial da
alfombra rociada pela chuva e, também, abrangendo a madidez de brumas
subsequentes.
Antes que descêssemos do carro, meu pai
já havia efetuado o pagamento da corrida – espaço compreendido na distância estabelecida
entre a “Praça do Cemitério”, cognominada de “Praça da Saudade” até o prédio
onde fora localizado o Maristas, isto é, no intermédio superior da própria Rua Grande, antiga “Quinta do Barão” –
sendo um dos mais espaçosos terrenos, estando localizado na área nobre da
cidade de São Luís.
Meu pai estava sentado na frente, ao lado do motorista, enquanto a minha
pessoa estava situada na cadeira subsequente e posterior ao motorista. No ato
de descer do móvel, perquiri ao condutor do veículo, sem maiores hesitações,
como se abria isso – “objeto metálico” da porta. De repente, para estarrecimento
nosso, o motorista boçal estrugiu, sem que desse o testemunho do que fora dito
pelo adolescente: – Como se abre “isso”?, o motorista boçal não tartamudeara em
exarar: “Isso não é palavra que se diga!..., mocinho”. Meu pai, com o objetivo
de calar a ira do motorista, dissera-lhe: “O senhor deve ficar sabendo que o
vocábulo pronunciado pelo meu filho, de modo altissonante, não passa de pronome
demonstrativo neutro, sem que haja conotação diferente. Está longe de ser um
impropério, um vilipêndio, um vitupério, ou algo que venha a suscetibilizar
quaisquer criaturas, por mais que aparatem a estesia do átimo em apreço”.
Decerto, o motorista estaria pronto para ceifar uma vida, caso houvesse
contundência quanto ao hábito de estabelecer quaisquer controvérsias entre a
frase inocente do jovem rapaz, e a protérvia prolatada pela desabridez de um
motorista boçalíssimo.
Wilson Cerveira
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