sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

UMA CADEIRA VAZIA

     Não há silencio que expunja soledade atroz, e que consiga preencher as vacuidades das horripilantes noites de insônia inclemente! A dor, a preocupação exacerbante, o enternecimento, a consternação daquela a imprevista visita, – de modo açodado –, que fiz à minha sogra, na manhã do dia 19 de dezembro de 2015, em companhia da minha mulher – Maria do Socorro Araújo Cerveira Marques, que, a todo custo, queria, também, vislumbrar os paroxismos palindrômicos que estavam acometendo o organismo da senhora sua mãe, notadamente o sistema cardiovascular de dona Francisca Rodrigues dos Santos, internada provisoriamente no Hospital Djalma Marques, situado na Rua do Passeio, no centro da cidade de São Luís do Maranhão.
      Logo que chegamos à casa nosocomial de pronto atendimento, o atordoamento causado pelo sobejamento adrenalínico, e, também, por falta de melhores dilucidações, não tivemos outra destinação, a não ser partirmos em direitura à porta frontal do “Pronto Socorro – Dr. Djalma Marques”. No entanto, gentilmente, o vigilante de plantão encaminhou-nos para o portão que daria acesso, diametralmente, ao lado oposto correspondente ao fundo da casa de saúde. De fato, de maneira instintiva, corroboramos que ela havia sido transferida para o setor em que os pacientes são submetidos a diversos tipos de exames.
     Quando reexaminei a fisionomia de Socorro, fiquei aturdido, sem saber dirimir os ultimatos que deveriam ser tomados naquele átimo de imane apreensão. Estávamos, de modo arrostado, a um passo do outro vigilante, o que guarnecia a porta do fundo do nosocômio. Devido nosso desiderato quanto ao ato de adentramento, rogou-nos um pouco de paciência, pelo menos que esperássemos pela prolação do transcorrer de três minutos; pois, adentraríamos logo, mesmo que não esvaziasse um pouco. Ao transpormos os umbrais que ladeavam a soleira da porta, assenhoriamo-nos dessa verdade inconfutável!...  Realmente o salão estava superlotado e, com isso, cominava-se a lei inerente à impenetrabilidade da matéria.
     Mesmo assim, – Socorro –, ressumando um estado de percuciente angústia, não se conteve, impulsionou o próprio corpo esgueirando a lateralidade remanescida pelos espaços quase herméticos. Assim sendo, só se sossegou quando pôde entrar em contato direto com a senhora sua mãe, para, então, verificar de perto o seu real estado de saúde.
     Naquele ínterim, a hesitação tomava a cachimônia de quem se encontrava em volta da paciente – Francisca Rodrigues dos Santos. O cardiologista, dentro de sua especialização, atendeu-a de modo desidioso, uma vez que, mesmo orientado pelos resultados dos exames, mormente os triglicerídeos, os quais vaticinavam o risco de infarto, não quis arriscar-se a tomar as providencias prementes que o caso requeria; isto é, um possível cateterismo, conquanto soubesse que a paciente ostentava a faixa etária de oito décadas e um lustro.
      Não houve tempo suficiente, decerto, para que ela suportasse imane incúria do médico cardiologista que a atendeu de modo antiético. Então, para que dona Francisca não sofresse por tempo procrastinativo, a Divina Providencia a vocacionou para junto de si, introduzindo sua alma por algum tempo no espaço etéreo transcendental, a fim de que ela ressumbrasse os oráculos existentes entre o céu e a terra. Ao passo que seu corpo inerme fora estudar a geologia dos campos santos; pois, desde o dilúculo, encontrava-se a um passo da eternidade, que é um oceano sem praias, no exarar do egrégio escritor – Coelho Netto.
     Não há preenchimento que faça obliterar a dimensão remanescida pela descomunal vacuidade proporcionada por sua perpétua ausência, o despeito de estar implicada no cerne de tantas outras! De fato, esta sua cadeira permanecerá vazia, mesmo que esteja sendo ocupada, temporariamente, no imaginário espectral, pelo corpo gerado por uma condição putativa.
     Os objetos, depois de muitos anos, impregnados por uma forma enigmática de energia prístina, afiguram-se de acordo com as características psicossomáticas dos lídimos donos. Ao lobrigarmos a uma certa distância os laivos do pretérito, tivemos a impressão fantasmagórica de que estávamos vendo o senhorio do seu comportamento. Tanto assim, sem dubiedade alardeante, inoculamos no intrínseco de cada uma das peças de museu, decerto, a quantidade de energia necessária, a qual é somatorizada pelo próprio senhor que a utilizava durante um longo período de tempo, correspondendo, sem mitras, ao jubileu que estaria sendo – de há muito – apoteotizado. De repente, sucumbe a pessoa responsável pela relíquia, mas ficará estigmatizada nela, por tempo infinitivo, a quantificação energética que a coalescia ao dono. E, afinal, remanesce o vislumbrar colimador da sua própria efigie, reconditada nos escorços de uma penumbra reminiscente nostálgica!
     As catarses realizadas nos divãs dos melhores especialistas do orbe, ínclitos mestres em psicanálise, não aparatam a condição de exprimir os traços indeléveis, sobretudo os que sobraram no somatorial de muitas presenças repletas por uma ausência, simbolizada pela individualização daquela cadeira vazia. Desse modo, guardemo-la em local secreto, já que ela serve de inspiração para a estesia demonstrada por todos aqueles que a amavam de corpo e alma, para que seja sempre lembrada. Assim sendo, de maneira cabalística, sempre a teremos nos retratos e em nossa retina, e vê-la-emos em vários locais contíguos à casa residencial, independendo do momento que foram definidas, de modo simultâneo, diversas circunstâncias a serem rememoradas na orquestração de segundos, minutos, horas, meses, anos, décadas e centúrias!...
     O significado atrelado à pessoa, em sua acepção maior, personifica o próprio objeto! Deveras, não era uma cadeira vazia qualquer, e, sim, um espaço ocupado por uma energia apaziguadora, servindo de fanal durante todos os seus anos de existência consumada!
     Todos nós temos preferências – uns mais e outros menos – o que realmente interessa é a estratégia usada para preencher diferentes espaços – menores, regulares ou maiores; trazendo, quase sempre, consigo, a mesma cadeira de plástico duro, aparatando os braços respaldadores. Ostentava uma maneira ímpar de posicionar-se de forma precisa, sem que houvesse necessidade de demover um objeto maior, e, por isso, dava acesso ao referido assento de quatro pernas. São nesses materiais, por pior que sejam, que se vislumbram as melhores reapropinquações de criaturas humanas, uma vez que se desconheçam as lídimas características somatoriais dessas pessoas e dos seus objetos de extrema sentimentalidade.
     Minha sogra, Francisca Rodrigues dos Santos, deixou um vazio merencório em meio aos vários preenchimentos de aparência fugaz. Ninguém conseguiria manipular o mesmo utensílio, tampouco posicioná-lo no seu devido lugar, dando a ensancha de prestar atenção em quem vinha de dentro para fora, ou, então, fazia o inverso enigmático!
     De fato, sentia-se bem quando pesquisava em volta de si mesma, as pessoas com as quais se habituara conversar tanto na calçada de defronte quanto no anteparo de cimento, que é a própria calçada, que dava acesso à soleira próxima ao reposteiro que ladeava os umbrais da porta principal da casa, que já ressumava alguns exícios laborativos do implacável tempo a exercer a sua ação deletéria e irreversível, identificada com a perpetuidade de um percuciente estigma consumativo!
     Dona Francisca Rodrigues dos Santos, mãe da minha mulher – Maria do Socorro Araújo Cerveira Marques, não demonstrou laivos de desiderato quando fora convidada pela sua filha Terezinha Marcolino de Araújo, para que viesse passar o Natal e o Ano Novo, respectivamente, em São Luís do Maranhão. Minha sogra, dona Francisca, preferia, postremeiramente, ficar mais tempo em Santa Inês a vir a São Luís do Maranhão!
     Hoje, à tardinha, neste encetamento de obumbração noturna, mesmo que a calçada de sua casa residencial estivesse repleta de cadeiras preenchidas por outras pessoas, a ausência de minha sogra, com certeza, expungiria no diário de chamadas, de uma só vez, todas as presenças coligidas. Então, reteríamos no imaginário nostálgico uma fortíssima lacuna reminiscencial de sua perene ausência!... E, ao redor da descomunal vacuidade, não lobrigaríamos nenhuma das priscas presenças registradas no arquivo indelével do tempo inexorável, exercendo a sua ação deletéria, numa dimensão vetorial onde sentidos e direções se intercruzam nas horizontais e verticais do vetusto plano de épura!
     Naquela manhã de sábado do dia 19 de dezembro de 2015, partimos em direitura ao Ipase, precisamente ao endereço da casa de seu irmão – José Rodrigues dos Santos. Nesse comenos, tínhamos por finalidade precípua, antes de quaisquer outras averiguações, saber sobre o sindrômico orgânico de dona Francisca, uma vez que, a partir da sua saída de Santa Inês, já vinha se queixando de um certo ofegamento e de uma determinada pressão torácica. Em princípio, o Enfermeiro e, também, seu neto Danilo, sem hesitação, conduziu-a ao hospital situado no bairro do Bequimão, a fim de que ela pudesse tirar um Raio X do tórax, descartando, destarte, quaisquer indícios de uma sorrateira pneumonia.
     Em seguida, sem procrastinação, resolveu levá-la ao Pronto Socorro Central, para que fosse examinada por um médico cardiologista. Antes de quaisquer pronunciamentos, o referido especialista requereu alguns exames atrelados ao sistema cardiovascular. Naquele ínterim, obnubilados estávamos todos nós; pois, não vislumbramos a ensancha probabilística, sem que houvesse muitas hesitações, de ela vir a perecer nas primeiras horas do domingo, exatorialmente, no dia 20/12/2015. De fato, não esperou pela segunda-feira, conforme fora orientada pelo próprio cardiologista desidioso, com o propósito de aventamento de um possível cateterismo...
     Quando o telefone tocou às duas horas da madrugada, vaticinávamos, sem outra alternativa, que seria o Danilo, o seu neto, que trazia a contristada notícia do seu fenecimento! Fomos impulsionados por uma súbita dosagem de adrenalina na corrente sanguínea, e a nossa Socorro não se conteve perante a forte comoção, deixando as lágrimas inundarem a face e o próprio corpo, indicando um percuciente suspiro de tristeza infinita!...
     Ninguém premoniciava que ali, ao redor da casa uma horripilante coruja chamada de rasga-mortalha ensaiava o seu voo rasante sobre a cumeeira da casa. E, no postremeiro adejo, essa ave ominosa deu um pio lôbrego anunciando a morte súbita de dona Francisca Rodrigues dos Santos. E, a partir desse funéreo átimo, todos ouviram o cantochão a ressudar a melancolia de um perpétuo adeus.

                                                       Wilson Cerveira


2 comentários:

  1. Apesar de interessante, traz a leitura do texto, uma angustia um pouco inexplicável. Talvez por termos feito parte desse momento tão triste. Parabéns pela riqueza de detalhes. E espero que a lembrança da cadeira de minha vó possa, com o tempo, trazer a todos nós uma boa lembrança de uma grande matriarca que por muito tempo comandou com pulso forte toda uma família.

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  2. Embora triste. uma bonita homenagem

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