quinta-feira, 1 de setembro de 2016

TRABALHOSA OCIOSIDADE

     Maricélia dos Penduricalhos – “de máxima especiosidade” – ressumava uma constante ocupação falaciosa. Quem diria que, mesmo ostentando o passo estugado e ações açodadas, ela, sem perplexidade, viesse a ludibriar os mais solertes indivíduos. Os que se apropinquavam dessa criatura percebiam a recrudescência dos seus sistemas sensoriais e demais anexos.
     Nesse caso, transpirava, além das estremaduras, e aparatava uma respiração ofegante, também exacerbações e arritmias cardíacas acompanhadas – de pressurações descompassadas – ora para mais, ora para menos, sempre que se pudesse avaliar as intermitências verificadas em díspares interregnos.
     Em verdade, essa mocetona propugnava o seu bem estar, notadamente quando se encontrava ladeada por uma população de pacóvios e de lorpas reiterativos!
     Maricélia dos Anjos, ou dos Penduricalhos, – como era conhecida pelos mais íntimos, – chamava a devida atenção das pessoas, mormente nos locais onde costumava ir com mais frequência. Infeliz daquele indivíduo que chegasse no salão de beleza, “minutos depois”, pois, perderia todo o seu tempo. De imediato, haveria exiguidade quanto ao número de manicures e pedicures.
     Urge distinguir o vocacional de Dona Penduricalhos! Ei-lo: duas manicures e duas pedicures estariam ocupadas com seus membros superiores e inferiores: mão direita e esquerda; pé direito e esquerdo, respectivamente.
     O salão de Seu Ptolomeu, avaro desde a protótipa infância, não contratava mais de quatro funcionários, exatamente o número solicitado, concomitantemente, por Dona Maricélia. De fato, os clientes estariam na expectativa de sua chegada. Caso, ainda, ela não tivesse adentrado ao salão de beleza, decerto, estaria nas apropinquações do vidro transparente do salão; ou, possivelmente, já se encontraria no interior do recinto.
     Caso contrário, os frequentadores perderiam a manhã toda, ou mesmo, o dia inteiro, confinados no interior do recinto. Penduricalhos não prescindia a presença de uma das atendentes; pois, queria todas ao redor de si, dando a falaciosa impressão de que se achava toda ocupada – ocupadíssima – por meio da utilização de outras mãos.
     Morbidamente, ela se julgava superocupada, enquanto a veracidade fosse cabalmente antinômica em todos os sentidos e direções plausíveis, sobremaneira em se tratando de síndromes minuciosas – de caráter permanente e percuciente – em todos os quadrantes pormenorizados desde o encetar prodrômico da vida escolar estudantil.
     Por desventura dos frequentadores da casa de embelezamento, era a única que aparatava maiores recursos tecnológicos, mesmo ostentando um número restrito de operários. As manicures e as pedicures eram polivalentes. Realmente, essas criaturas entendiam de tudo um pouco, sem que houvesse parcimônia significativa quanto ao número de tarefas realizadas de modo lesto, sem que existissem adentramentos quanto ao número de execuções perpetradas.
     Reitero em dizer que todas eram polivalentes, pois sabiam executar as tarefas diversificadas: cabelos, sobrancelhas, axilas, região inguinal e, também, a aparagem dos tricomas que se formam nas laterais dos grandes glúteos, monte de Vênus etc.
     Essa senhora se considera “normal”, mas, sem perplexidade, é patológica, mesmo abrangendo vários âmbitos do bizarro e degenerescente comportamento humano. Esses arquétipos, em seu maior número, representam os modelos mais conspurcativos destes agrurosos ou acrimoniosos dias hodiernos!...                                     
     Nada realiza para si própria, e é incapaz de ressumbrar qualquer ação ou reação que a identifique em algum ponto nevrálgico de exótica etologia, mesmo que contenha caracteres de excentricidades recrudescentes. Em sua residência de veraneio há mucamas para a perpetração específica de cada atividade individualizada.
     Marieta e Laculina cuidam de Maricélia dos Penduricalhos e da sua descomunal banheira, contendo a água de banho cheiroso, deixada dentro de um imane recipiente de porcelana, exposto ao rocio da noite brumosa.
     Quem a encontra nos becos e ruelas, tem a impressão de que esta senhora – cognominada de Penduricalhos – queixa-se, hipocondriacamente, de que trabalha bastante, se bem que, sem dubiedade, a realidade é cabalmente díspar: – Os que trabalham e cuidam do seu corpo – da cabeça aos pés – são outras pessoas, independentemente do sexo, – responsáveis por ela em todos os sentidos, já que aparatam assinaturas  em suas devidas carteiras de trabalho, ostentando todos os direitos e deveres dos trabalhadores. Essas cuidadoras e cuidadores cumprem os horários integralmente, revezando com relação aos três turnos – matutino, vespertino e noturno, com rodízio permanente diuturnamente. Esses trabalhadores têm direito a repouso e férias remuneradas!...
     Nalicoli, empregada dos tempos de Antanho, bateu-nos ao portal, quase em prantos, requerendo uma ensancha de serviço, porquanto, há seis meses, estava desempregada, recebendo apenas o pecúlio inerente aos exonerados, – sem  justa causa – ,  consoante as vulneráveis e inequânimes leis trabalhistas, – de um país que se chama Brasil – onde moram os mais facínoras administradores públicos, assim como, sem hesitação, as leis mais tendenciosas, mormente com finalidade precípua para apaziguar políticos bandidos, bandidos políticos!...
     Sinhazinha Maricélia carecia com certa urgência – indubitavelmente, que alguém lhe desse, compassadamente, comida na boca, infligindo-lhe, com ritmo e vagar, as colheradas diretamente no aparelho bucal.
     Maricélia dos Penduricalhos, em cabal silencio sepulcral, deixou-se ficar no interior do recinto – como se estivesse morta –, e nada pudesse redarguir naquele ínterim atinente a um pronunciamento exíguo. A mucama – Nalicélia – batia, mais uma vez, com estentorismo, na aldraba da porta principal, mormente a que dava acesso ao salão notorial de visitas – ostentando tapetes persas e candelabros italianos – de opulência incontestável!...
     Desideraria, segundo a madame, que essas criaturas lha fizessem massagens no corpo inteiro, porquanto padecia, de modo lancinante, ressumbrando as seguintes patologias: fibromialgia, cervicopatia, presença de osteofitoses e outras anomalias no eixo vertebral  etc.
      -- Patroa, a sua solicitação, quase plangente, enche-nos de uma clemência de atendimento invulgar e insofismável em todos os aspectos plausíveis.
     Que chovam os trompetes, os trombones de vara, os saxofones e outros tantos instrumentos musicais – não olvidando o piano e o violino, que são os mais harmoniosos de todos os instrumentos que nós conhecemos.
     A quantia que a senhora nos oferece, com toda generosidade, dá-nos, especiosamente, a sensação primitiva de morrer em decorrência da falta de assentimento do lídimo sentimento.  Então, desidero a minha imediata dispensa. Passe bem! Muito obrigada pela oportunidade não consignada!...  



                                                                       Wilson Cerveira

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