terça-feira, 10 de setembro de 2019

PRAZER PATOLÓGICO

        Esmerindo expungia a remanescência da volúpia do aborrecimento, no exato átimo em que entrava em contato com o prazer que lhe fazia bem; malgrado fosse cabalmente deletério para  si mesmo, e, também, no que concerne a sua própria família acompanhada por vários netos de diferentes faixas etárias.
      Doutor Luzerna compulsou as diferentes nuances do comportamento de Esmerindo. Ao término de tantas pesquisas, chegou a contactar as seguintes ilações: visão, audição, olfato, paladar e tato. O seu prístino cliente expendia somente o regalo do seu prazer patológico. Se estivesse portando o microfone -- uma espécie de tubo cilíndrico -- amarrado  por um cordão, descendo até a altura do esterno torácico. Assim sendo, realizava através de cada sensória a sua permanência definitiva naquela função que não lhe restituía  sequer o bem que praticara assiduamente. Difundia conhecimentos variados por meio daquele fone, que era o seu objeto de natureza mórbida. Deveras, conquanto reconditava a valetudinariedade , exibia para si mesmo a fruição que sentia quando degustava as palavras emitidas sonoramente. Também, associava aos demais órgãos dos sentidos. Aquele objeto, acima descrito, completava -- a cada passo -- os desideratos intrínsecos; e, com a sensória aguçada, ia olfatando os fluidos  promanados!...
      Quem o visse na rua, jamais evagara ser ele o mesmo homem de cabelos encanecidos, e sempre se queixando das suas parcas condições financeiras!...
       As sensórias do Esmerindo não eram utilizadas coligidamente. Preferia perpetrar o seu instinto do prazer mais que patológico, fazendo auto-fruição de cada uma delas,  num interregno imane do devido órgão sensorial.
    Se fôssemos ordenar o sequencial de ação sensória, não saberíamos precisar a orquestração da mais importante no conjunto harmônico de seus deleites fruitórios. Quiçá, pensara no pronunciamento de um maestro perplexo, não sabendo ao certo a lateralidade mais correta em direitura ao âmago regencial dos instrumentos...
       A lascívia mórbida do microfone, sem hesitação, somente  exercia a lubricidade se estivesse com o microfone cilíndrico pendurado ao bel prazer do seu longo e estreito pescoço. Se surgisse colado ao esqueleto do radialista, o valor tornava-se ofuscante de tal maneira -- que realizaria a analgesia  de todo o seu sistema nervoso central e periférico!
       Ninguém até hoje ostenta um comportamento verossimilhante a este homem, cujo heterônimo era Esmeridão. Sendo assim, ele esperava o átimo, a ensancha, o comenos -- para que alguém lhe pusesse o microfone, cerimoniosamente, pendurado ao seu pescoço através  de um calibroso cordão. Esquecia qualquer pecúnia necessária ao sustento diário de sua família e de uns agregados netos, nascidos por meio de uma prenhez da orfandade!... O que importava para ele, única e exclusivamente, era o seu deleite valetudinário!
       Conquanto seu corpo exibia uma estrutura constituída  de pele e ossos aflorantes à superfície epidérmica; ia morrendo pelo orbe afora, com o objetivo de locupletar a carência mórbida, a que determinava o andar em direção a emissora da extorsão cabal. Nunca lhe atribuíram, mesmo por clemência, qualquer ganho --  por mais somítico que pudesse aparatar diante dos inúmeros olhos de invídia crônica e fatídica!...
       Ninguém sabia ao certo o diagnóstico delineado pelo Dr. Luzerna, um dos luminares da Psiquiatria em dias hodiernos. O que mudou, de fato, neste círculo vicioso contínuo foi o próprio tempo oscilatório, abrangendo o trinômio de sua expansibilidade: hesterno, hodierno, crástino.
       Até então,pensava-se que ele, de imediato, fosse chamá-lo. Esmerindo não passa nada bem com relação a síndrome delírio alucinatória que o acometera todas as vezes que o psiquiatra tenta marcar o respectivo dia de sua visita!...
    Mas, desfeita,  a primeira imagem onírica, ainda pôde vislumbrar, através de percucientes levantamentos psicanalíticos, distúrbios etológicos do Esmerindo.
       Ei-los, arrostadamente, -- frente a frente, para que possamos aquilatar as diferenças existentes com relação ao dissimulado comportamento humano, que sofrera afloo em todos os minúsculos questionamentos de um diálogo aberto.
      Ambos assentaram-se de modo frontal, para que, em todo caso, chegassem a um diagnóstico convincente. O médico -- Dr. Luzerna,  com  respaldo, dissera de antemão: "O meu cliente -- Esmerindo -- ressumbra uma psicopatia de natureza obsessiva e compulsiva!...
      Nada está concluído em termos de mente humana; pois, o inacabado estimula o desiderato para prosseguir senda adentro. O que é insânia, hoje, pode ser no porvir um tipo de espairecimento para a terapia de uma outra anomalia verossimilhante!...
       Deveras o prazerismo patológico pode encetar de dentro da casa. Após, alguns meses de, de intensa demanda; -- pode ser restaurado parcialmente e ganhar ruma a fora. Não há mais estremaduras que lhe queiram tolher os movimentos desarmônicos das atitudes combalidas...
       Esmerindo, durante este comenos, prosseguiu em tácito silêncio!... Enquanto, o  Dr. Luzerna providenciava acender o  seu cachimbo, veio-lhe à mente que, apesar de ser o psiquiatra afamado, "não deixava ensancha", para que fosse perturbado por uma série de ideias e pensamentos obsessivos. De fato, considerava-se um psiquiatra psicopata; conquanto, a declinação lhe abstraísse a clientela! A  verdade, pouquíssima dita nos dias hodiernos, transformar-se-ia numa espécie de sânie inevitável em todos os sentidos e direções plausíveis e plangentes...
       O que mais ocorre no orbe é o título de DOUTOR, malgrado  seja um visual vocativo, trazendo no seu intrínseco as lidimidades  que não podem ser declinadas durante o exercício tal profissão... A equivalência disfuncional entre paciente e o profissional rompem qualquer linha de sutura. Realmente, ele tornar-se-ia incompatibilizado quanto ao ato de exercer a sua profissão de médico psiquiatra, após doutorados e pós-doutoramentos!...
       
       
       
       
        

       




       

Um comentário:

  1. O que se vislumbra no texto é que o Esmerindo era doido mas não era louco e que o Doutor Lucerna, como a maioria dos Psiquiatras, não se difere muito dos seus pacientes.

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