domingo, 23 de outubro de 2022

O OPERÁRIO ATOR

 

    Quem seria o Nicolau em meio aos eventos ocorridos nos telhados dos sobrados, inclinados sobre as ruas históricas das pequenas cidades de Ouro Preto. As centúrias estigmatizam com seus briófitos, isto é, notadamente os musgos, que tomam as laterais de pedra, fazendo com que se apoiem os telhados intrincados de curvas, argamassas de cimento...

     Nicolau fazia malabarismos quando subia nos vértices do casario resvalador. Sabia andar em passos largos; e, às vezes, experimentava uma leve corrida com as sutilezas dos seus pés ainda dispostos para retirar as goteiras que surgiam, ocasionalmente, em função das pisadas espaçosas dos gatos sobre as telhas. Em cada andada, o gato levanta a telha, tirando-a da posição inicial, e fazendo com isso uma nova goteira.

     O pedreiro tirava goteiras como um ator que toca violino assentados numa cadeira, num palco principal de um teatro vetusto. O pedreiro Nicolau conseguia retirar as mais implexas goteiras dos telhados das casas vizinhas. Nenhum outro pedreiro obtinha o sucesso do Nicolau, nome que lhe era cognominado por todas as pessoas que residiam nas circunvizinhanças!

     De todos os pedreiros residentes nas discretas cidades de Ouro Preto, era o mais procurado com relação as goteiras bisonhas, as quais não seriam jamais retiradas por outra mão de pedreiro, a não ser as de Nicolau – o mais experiente – o mais gabaritado. Ostentava o trinômio: vivência, experiência e sofrência em todos os âmbitos vitais. Decerto, via-se livre das goteiras de intricamento maior; e, ao passo que as simples iam ficando para depois...

     As grandes chuvas de março e abril determinavam a eficiência máxima de Nicolau. Os demais não sabiam tirar as goteiras crônicas e de persistência avassaladora. Ninguém jamais poderia saber os pequenos afastamentos de telhas feitos pelos gatos nas madrugadas chuvosas.

     Chamava para si, outros pedreiros, a fim de que ele mesmo, com astúcia sorrateira perpetrava, logo que o dia recebesse a escuridão da noite. Vagas e mais vagas eram proliferadas com o decurso impiedoso do tempo! O tempo é impertérrito com relação a inoxidável vetustez!...

     Nicolau chamava os seus colegas pedreiros para que pudessem retirar as goteiras simples, as quais apresentavam afastamentos pequenos, médios e grandes. Os gatos iam pouco a pouco aumentando os seus números, independentemente de raça, idade e tantos outros fatores enigmáticos.

     Tão logo, Nicolau foi eleito Mestre de Obra, pois somente ele sabia indicar a posição correta e o número de goteiras simples localizadas nos vários casarios. Desta maneira, somente a sua consciência, após uma percuciente letargia... suspiros e mais suspiros no ranger contrincado dos vários afastamentos de telhas!...

     Realmente, o número de residências correspondia a um milhar de telhas. Nicolau, mestre de obras, aconselhou os pupilos que colocassem sempre cimento nos beirais das casas. Isto era um teste de proteção aos inopinados vendavais que ocorriam naquela região descampada da cidade de Belém do Pará.

     Se não fizessem deste modo, veriam as séries de telhas irem levantando uma após outra, despedaçando-se ao longe, pois voariam em diversas direções e sentidos! Os vetores dispersivos distribuir-se-iam quebrando outros telhados adjacentes aos que estavam em voga, não mais limitando o escancarado número de prejuízos consecutivos...

     Nicolau ensinava a todos os seus alunos operários uma maneira mais segura de como subir e andar com mais segurança, principalmente nos telhados de maior inclinação. O resvalo dar-se-ia em função do não adestramento dos pés sobre a ripagem protetora!

     O Tataramelo e o Rizoldo eram os mais eficientes dos pedreiros que trabalhavam em companhia do Mestre de Obra – Nicolau. Procuravam obedecê-lo ao máximo, seguindo todos as diretrizes traçadas. As pequenas e médias goteiras estavam sempre sendo solucionadas, ao passo que as grandes goteiras, indubitavelmente, requeriam as mãos do mais eficiente pedreiro – Nicolau dos Anjos Barbosa Filho.

     Nesse conglomerado de casas retelhadas de cima até em baixo, somente as peripécias de um excelente preceptor solucionaria as diversas avarias reiteradas em todos os invernos reinantes, nos quais a chuva e o vento em ritmo de vendaval. Dessa maneira, os prejuízos com telhados somariam uma avantajada pecúnia peremptória.

     Nicolau deixava sempre a noite cair sobre os inúmeros telhados posicionados em série, para que pudesse vislumbrar as falhas existentes em meio as telhas – usando uma potentíssima lupa agregada ao lado de uma gigante lanterna, portadora de uma luzerna em alto nível de lobrigação reinante!

     Somente o Mestre de Obra seria capaz de detectar as falhas existentes nos intervalos das conexões das telhas! Os demais operários não possuíam esses artifícios visuais usados apenas na escuridão tenebrosa existente nas diversas coberturas das casas dispostas em fileiras continuas. Não haveria entreveros propícios ao ato refutatório, já que as corroborações eram feitas pelas exídrias representadas por chuvas e pancadas recrudescentes de ventos consecutivos.

     Como sabia andar em telhados, não esperava pela luz solar. A luz artificial do objeto cognominado de lanterna de altíssima resolução – representava todas as possibilidades que ele auferia no desalinhar das telhas cujos afastamentos, decerto, não seriam deletérios aos moradores e seus utensílios. As goteiras molhariam apenas os assoalhos confeccionados pela madeira chamada de pau d’arco. Essa tessitura tornava-se resistente. A resiliência se fazia necessária com o passar do tempo invernoso dos anos subsequentes.

     O preceptor tornava-se cada vez mais eficiente. Sabia tirar as mais implexas goteiras; assim como, seria capaz de multiplicar pequenas goteiras, abrangendo ao somatorial das coberturas existentes.

     Certamente, o Nicolau fora abençoado pela Divina Providência. De fato, então, conseguira aprender um pouco. Tinha uma elucubração bastante aguçada. Ao ouvir os protótipos sons do violino, fora armazenando o que lhe chegava aos ouvidos sensitivos... De quando em quando, ia visitar um amigo; por sinal, violinista que alcançara o ápice quanto aos diversos toques executados com harmonia.

     Logo no encetamento deste relato, vinha sendo ressumbrada a mestria do operário – senhor de todos os toques – ao violino – seu instrumento musical de elevadíssima predileção. Sendo assim, fora tomando posicionamento expressivo por si mesmo – na escala musical do violino plangente!

     Numa dessas madrugadas de lua cheia e esplendorosa, resolvera subir até a cumeeira da casa centralizada, para com o violino executar as mais sentimentais melodias. Então as cordas do violino soltavam as mais deslumbrantes notas sonoras!...

     Os seus colegas pedreiros ficaram estarrecidos, quando presenciaram a descomunal habilidade do mestre de obra. Realmente era polivalente, e de uma versatilidade a toda prova regimental. Estava sendo provado – em diversas atividades – a sua competência inigualável – posicionamento impar referente a capacidade de exarar determinada tarefa no âmbito diversificatório.

     Os residentes tomavam a direitura de fazer-lhe muitos panegíricos, haja vista aquilo que aparatava de tão insólito. De fato, ele era perito naquilo que realizava primordialmente, aparatando uma destreza nunca dantes lobrigada!...

 

 

São Luís, MA, 24 de setembro de 2022

Wilson Cerveira

4 comentários:

  1. Anônimo9/11/22

    Mais um conto magistralmente escrito. Parabéns, Wilson Cerveira Marques.

    Carlos H. G. Medeiros

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  2. Anônimo26/11/22

    Há sempre um ar de poesia em seus escritos. Combinação de música, trabalho simples, mas necessário, e ações humanas num toque individual para um coletivo essencial.
    Luís Carvalho.

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  3. Anônimo23/12/22

    Grande narrativa! A Descrição de Nicolau é feita pelo escritor com grande maestria, a qual retrata as habilidades especiais de um personagem, induzindo o leitor a reconhecer que habilidade é sinônimo de talento e inteligência.

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  4. Anônimo18/3/23

    Missiva ao escritor.

    "Mas bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem e os vossos ouvidos, porque ouvem."
    Mateus 13:16. Caríssimo escritor Wilson Cerveira Marques, és um grande homem e grande escritor, sempre pensando positivo e além do tempo, você trás e sempre trará grandes novidades para o público maranhense , espero que o Brasil um dia conheça esse grande escritor maranhense.

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