Quem seria o Nicolau em meio aos eventos ocorridos nos telhados dos
sobrados, inclinados sobre as ruas históricas das pequenas cidades de Ouro
Preto. As centúrias estigmatizam com seus briófitos, isto é, notadamente os
musgos, que tomam as laterais de pedra, fazendo com que se apoiem os telhados
intrincados de curvas, argamassas de cimento...
Nicolau fazia malabarismos
quando subia nos vértices do casario resvalador. Sabia andar em passos largos;
e, às vezes, experimentava uma leve corrida com as sutilezas dos seus pés ainda
dispostos para retirar as goteiras que surgiam, ocasionalmente, em função das
pisadas espaçosas dos gatos sobre as telhas. Em cada andada, o gato levanta a
telha, tirando-a da posição inicial, e fazendo com isso uma nova goteira.
O pedreiro tirava goteiras
como um ator que toca violino assentados numa cadeira, num palco principal de
um teatro vetusto. O pedreiro Nicolau conseguia retirar as mais implexas
goteiras dos telhados das casas vizinhas. Nenhum outro pedreiro obtinha o
sucesso do Nicolau, nome que lhe era cognominado por todas as pessoas que
residiam nas circunvizinhanças!
De todos os pedreiros residentes
nas discretas cidades de Ouro Preto, era o mais procurado com relação as
goteiras bisonhas, as quais não seriam jamais retiradas por outra mão de
pedreiro, a não ser as de Nicolau – o mais experiente – o mais gabaritado.
Ostentava o trinômio: vivência, experiência e sofrência em todos os âmbitos
vitais. Decerto, via-se livre das goteiras de intricamento maior; e, ao passo
que as simples iam ficando para depois...
As grandes chuvas de março e
abril determinavam a eficiência máxima de Nicolau. Os demais não sabiam tirar
as goteiras crônicas e de persistência avassaladora. Ninguém jamais poderia
saber os pequenos afastamentos de telhas feitos pelos gatos nas madrugadas
chuvosas.
Chamava para si, outros
pedreiros, a fim de que ele mesmo, com astúcia sorrateira perpetrava, logo que
o dia recebesse a escuridão da noite. Vagas e mais vagas eram proliferadas com
o decurso impiedoso do tempo! O tempo é impertérrito com relação a inoxidável
vetustez!...
Nicolau chamava os seus
colegas pedreiros para que pudessem retirar as goteiras simples, as quais
apresentavam afastamentos pequenos, médios e grandes. Os gatos iam pouco a
pouco aumentando os seus números, independentemente de raça, idade e tantos
outros fatores enigmáticos.
Tão logo, Nicolau foi eleito
Mestre de Obra, pois somente ele sabia indicar a posição correta e o número de
goteiras simples localizadas nos vários casarios. Desta maneira, somente a sua
consciência, após uma percuciente letargia... suspiros e mais suspiros no
ranger contrincado dos vários afastamentos de telhas!...
Realmente, o número de
residências correspondia a um milhar de telhas. Nicolau, mestre de obras,
aconselhou os pupilos que colocassem sempre cimento nos beirais das casas. Isto
era um teste de proteção aos inopinados vendavais que ocorriam naquela região
descampada da cidade de Belém do Pará.
Se não fizessem deste modo,
veriam as séries de telhas irem levantando uma após outra, despedaçando-se ao
longe, pois voariam em diversas direções e sentidos! Os vetores dispersivos
distribuir-se-iam quebrando outros telhados adjacentes aos que estavam em voga,
não mais limitando o escancarado número de prejuízos consecutivos...
Nicolau ensinava a todos os
seus alunos operários uma maneira mais segura de como subir e andar com mais
segurança, principalmente nos telhados de maior inclinação. O resvalo dar-se-ia
em função do não adestramento dos pés sobre a ripagem protetora!
O Tataramelo e o Rizoldo eram
os mais eficientes dos pedreiros que trabalhavam em companhia do Mestre de Obra
– Nicolau. Procuravam obedecê-lo ao máximo, seguindo todos as diretrizes
traçadas. As pequenas e médias goteiras estavam sempre sendo solucionadas, ao
passo que as grandes goteiras, indubitavelmente, requeriam as mãos do mais
eficiente pedreiro – Nicolau dos Anjos Barbosa Filho.
Nesse conglomerado de casas
retelhadas de cima até em baixo, somente as peripécias de um excelente
preceptor solucionaria as diversas avarias reiteradas em todos os invernos
reinantes, nos quais a chuva e o vento em ritmo de vendaval. Dessa maneira, os
prejuízos com telhados somariam uma avantajada pecúnia peremptória.
Nicolau deixava sempre a
noite cair sobre os inúmeros telhados posicionados em série, para que pudesse
vislumbrar as falhas existentes em meio as telhas – usando uma potentíssima
lupa agregada ao lado de uma gigante lanterna, portadora de uma luzerna em alto
nível de lobrigação reinante!
Somente o Mestre de Obra
seria capaz de detectar as falhas existentes nos intervalos das conexões das
telhas! Os demais operários não possuíam esses artifícios visuais usados apenas
na escuridão tenebrosa existente nas diversas coberturas das casas dispostas em
fileiras continuas. Não haveria entreveros propícios ao ato refutatório, já que
as corroborações eram feitas pelas exídrias representadas por chuvas e pancadas
recrudescentes de ventos consecutivos.
Como sabia andar em telhados, não esperava
pela luz solar. A luz artificial do objeto cognominado de lanterna de altíssima
resolução – representava todas as possibilidades que ele auferia no desalinhar
das telhas cujos afastamentos, decerto, não seriam deletérios aos moradores e
seus utensílios. As goteiras molhariam apenas os assoalhos confeccionados pela
madeira chamada de pau d’arco. Essa
tessitura tornava-se resistente. A resiliência se fazia necessária com o passar
do tempo invernoso dos anos subsequentes.
O preceptor tornava-se cada
vez mais eficiente. Sabia tirar as mais implexas goteiras; assim como, seria
capaz de multiplicar pequenas goteiras, abrangendo ao somatorial das coberturas
existentes.
Certamente, o Nicolau fora
abençoado pela Divina Providência. De fato, então, conseguira aprender um
pouco. Tinha uma elucubração bastante aguçada. Ao ouvir os protótipos sons do
violino, fora armazenando o que lhe chegava aos ouvidos sensitivos... De quando
em quando, ia visitar um amigo; por sinal, violinista que alcançara o ápice
quanto aos diversos toques executados com harmonia.
Logo no encetamento deste
relato, vinha sendo ressumbrada a mestria do operário – senhor de todos os
toques – ao violino – seu instrumento musical de elevadíssima predileção. Sendo
assim, fora tomando posicionamento expressivo por si mesmo – na escala musical
do violino plangente!
Numa dessas madrugadas de lua
cheia e esplendorosa, resolvera subir até a cumeeira da casa centralizada, para
com o violino executar as mais sentimentais melodias. Então as cordas do
violino soltavam as mais deslumbrantes notas sonoras!...
Os seus colegas pedreiros
ficaram estarrecidos, quando presenciaram a descomunal habilidade do mestre de
obra. Realmente era polivalente, e de uma versatilidade a toda prova
regimental. Estava sendo provado – em diversas atividades – a sua competência
inigualável – posicionamento impar referente a capacidade de exarar determinada
tarefa no âmbito diversificatório.
Os residentes tomavam a direitura
de fazer-lhe muitos panegíricos, haja vista aquilo que aparatava de tão
insólito. De fato, ele era perito naquilo que realizava primordialmente,
aparatando uma destreza nunca dantes lobrigada!...
São Luís, MA, 24 de setembro de 2022
Wilson Cerveira
Mais um conto magistralmente escrito. Parabéns, Wilson Cerveira Marques.
ResponderExcluirCarlos H. G. Medeiros
Há sempre um ar de poesia em seus escritos. Combinação de música, trabalho simples, mas necessário, e ações humanas num toque individual para um coletivo essencial.
ResponderExcluirLuís Carvalho.
Grande narrativa! A Descrição de Nicolau é feita pelo escritor com grande maestria, a qual retrata as habilidades especiais de um personagem, induzindo o leitor a reconhecer que habilidade é sinônimo de talento e inteligência.
ResponderExcluirMissiva ao escritor.
ResponderExcluir"Mas bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem e os vossos ouvidos, porque ouvem."
Mateus 13:16. Caríssimo escritor Wilson Cerveira Marques, és um grande homem e grande escritor, sempre pensando positivo e além do tempo, você trás e sempre trará grandes novidades para o público maranhense , espero que o Brasil um dia conheça esse grande escritor maranhense.