sábado, 31 de março de 2012

O DOUTORÍSSIMO E SEUS APARATOS -- PARTE II


     Dr. Dilermano tinha por hábito, desde a mocidade, dormir a partir de 19h até 00h. Meia-noite em ponto, o doutoríssimo despertava, ainda bastante estremunhado, com objetivo de estudar e pesquisar vários compêndios atrelados aos díspares âmbitos da cognoscibilidade. Fazia, também, incursões no campo da Matemática e da Física, malgrado tivesse por formação específica a ciência médica.
     O doutoríssimo incorporava os elementos gráficos como se estivesse polemizando com eles, numa coalescência marcante quanto ao binômio: aprendiz e conteúdo. Empolgava-se diante das equações não-integralizáveis. Parecia querer, a todo custo, encontrar solução para o insolucionável. O entusiasmo ascendente e a enorme força de vontade aduziram-no a vencer os vários óbices encontrados nos livros, envolvendo diferenciais e integrais, experimentadas em estágio avançado do conhecimento das ciências exatas.
    O polímata dividia o seu tempo de perquirição erudita, dispondo de sessenta minutos para cada disciplina. Sentia-se, após trinta anos de graduação, o indivíduo necessitado quanto à aprendizagem de novos conhecimentos científicos, mesmo sendo, apenas, no parafraseamento teórico; pois, não havia mais tempo suficiente para montar os inusitados e labirínticos experimentos práticos, os quais requerem insumos caríssimos e instrumentos de elevada complexidade e abastado capital aquisitório.
    No encetamento do dilúculo, precisamente às cinco horas, tomava banho, ou, então, fazia ablução dos cabelos que lhe cobriam o sincipúcio e as regiões laterais da cachimônia. Nesse interregno bem proporcionalizado, não se esquecia dos elementos que deveriam ser inseridos em sua indumentária rotineira. A primeira peça que vestia era a ceroula, e, logo após, introduzia o colan, incorporando-o através dos membros inferiores, para que o acomodasse no ângulo distal de ambas as coxas, no preciso recôncavo inguinal, dando sustentação ao aparato genitálico.
   A terceira peça do vestuário constava de dois pares de meia grossa, um metido no outro, para proteger-lhe a sola dos pés contra a umidade, notadamente nos dias de chuva intensa. Em sequencia, calçava um sapato de couro com sola de borracha. Por último, recobria-o inteiramente, por meio da introdução de um par de galochas. Assim sendo, proteger-se-ia contra a umidade, e, também uma possível virose gripal.
  O conflito existente no ato de vestir-se bem equipado, capa sobre capa, requeria o prosseguimento dos demais componentes do guarda-roupa. Logo, sem dilação, seria apetrechado por uma calça de linho branco, desses linhos em que o amarfanhamento preconiza a lidimidade do produto em voga. Assim, lutaria para manter a calça à altura do cós, deixando-o menos tenso, já que resolvera reaprender o que estava em latência parcial. A calça era feita sob medida pelo alfaiate, deixando alguma outra ensancha nas fimbrias, visando, desse modo, quaisquer eventualismos. Pedia ao costureiro que fizesse bolsos internos nas calças, principalmente no espaço de fazenda que recobria a parte superior da região pubiana; assim também, para complementação, mandou confeccionar bolsos longitudinais nas laterais internas do tecido que revestia as coxas e pernas.
  Doutor Dilermano, astuto no ato de dispor os objetos, saberia localizá-los nos respectivos vãos saculiformes da fazenda, consoante a necessidade premente do uso. No caso da lanterna, situá-la-ia, de modo privilegiado, na lateral da calça correspondente à mão destra. Enquanto o rádio de pilha, próprio para a utilização de notícias, colocá-lo-ia no nível mais abaixo, pois a retirada desse objeto não necessitaria de tamanho açodamento por parte do precatado médico, que também era um pesquisador estrênuo no âmbito generalizado do conhecimento humano, com especificidade o científico.    

                                              Wilson Cerveira

6 comentários:

  1. Parabéns pelo texto, gostaria que você escrevesse sobre a educação brasileira...
    Abraço!

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  2. Anônimo1/4/12

    Todo esse aparato, morando em no Maranhão? Quando de um aperto fisiológico, como se atava?

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  3. Anônimo2/4/12

    Boa tarde caro Wilson.
    Meu caro é impressão minha ou a principal característica deste personagem é o metodicismo?
    Grande amplexo.
    Erinaldo

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    1. A DIRETRIZ FAZ PARTE INTEGRANTE DO SISTEMA EDUCACIONAL EXATIVO DO PERSONAGEM EM TELA. WILSON CERVEIRA

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  4. Anônimo3/4/12

    A discrição nos mostra que o personagem ora citado é super métodico, talvez um tanto meticuloso.Toda essa postura , determinadas atitudes,demonstram resquicios de situações
    que o incomodaram na infância.Quando adulto eis o reflexo
    que aflorou permanentemente.

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