sábado, 1 de setembro de 2012

AS DEGENERESCÊNCIAS DO MOTORISTA SETENTÃO


  Genivaldo devaneara, desde a fase pueril, com a possibilidade de celebrar o seu septuagésimo natalício, e, concomitantemente, o período concernente aos trinta e cinco anos de vida funcional. E, logo que adentrou ao mercado de trabalho, em que pese a coarctação da pecúnia que lhe fora imposta, conseguira com muito sacrifício amealhar uma reserva condizente ao ato de adquirir o imprescindível. Em princípio, sem maiores hesitações, agradaria a todos os convidados igualmente, sem as preferenciais exceções.
    Recostado no espaldar da cadeira de vime, o motorista sempre sonhava com aquele momento apoteótico e repleto de epinícios inimagináveis. Porém, não sabia o que a ferrenha destinação, à socapa, ia, pouco a pouco, lhe desfechando de modo inopinadamente nefasto.
    De maneira despercebida, começou a apresentar certa predileção obsessiva pela garoupa, isto é, a nota de cem reais. A princípio, dava uma pseudo-impressão de que estivesse a demonstrar reações fóbicas com relação às pequenas distâncias. Tanto assim, ele se esgueirava das pessoas que residiam em áreas circunvizinhas ao “Posto Leste de Táxi”, onde trabalhava há mais de vinte anos.
    De fato, o lesto Genivaldo, sem titubear, desvencilhou-se dos intrusos que vinham, sorrateiramente, obiciando-lhe as sendas multivariegadas – já atendentes à imperviabilidade de percursos forjados. Desde então, passava a divagar, com espaços maiores e distâncias quilométricas, o que seria a concretude dessa grande utopia!...
    O motorista – Genivaldo – também apresentava primazias no que concernia ao uso exacerbado das grandezas cinéticas: velocidade e aceleração. Há muito que se sentia dono do volante, não medindo os riscos que corria em situações em que experimentava uma ultrapassagem perigosa. Não media esforços nem prudências, quando dispunha dos auxílios simultâneos da embreagem e do acelerador, ambos sob os domínios dos seus pés, numa atitude cabalística de comprovada insensatez. Deveras, ele delirava com a aceleração – como se estivesse num estado percuciente de patologia a toda prova; e, mesmo assim, posicionando-se como vanguardista, superando todos os concorrentes de uma desvairada corrida automotobilística.
    Nesses últimos anos, obsedou-se pelas corridas equivalentes a cem reais. De fato, detestava pequenas distâncias, que, aparentemente, simbolizavam parâmetros infensos quanto aos possíveis indicadores: velocidade, aceleração e estipêndio.
    Recentemente, fez reiterar o sonho que tivera na infância – o de comemorar concomitantemente: setenta anos de vida física, e trinta e cinco, exercendo a função de motorista, sendo legalmente habilitada para a tarefa escolhida por ele próprio – no desumano mercado de trabalho.
    Quinze dias antes de seu aniversario – único que pretendera festejar – fora chamado por três bandidos, no “Próprio posto Leste de Táxi”, onde trabalhava por tempo indeterminado durante as vinte e quatro horas, para que os levasse em direção ao Olho d’Água. Sendo assim, não vacilou em aceitar a proposta, mesmo sendo de modo incauto. Ao chegar ao local – amplamente deserto – fora recepcionado, de modo criminoso, por mais três bandidos que estavam reconditados nas sarças ao derredor, perfazendo o número de seis escroques.
    Não tiveram tempo suficiente de esforlar-lhe a pele, já que a flagelação deixara-o hospitalizado durante um período de, aproximadamente, trinta dias na UTI do Hospital São Domingos, no setor especializado em reparos de epiderme, conforme as técnicas aplicadas pela cirurgia plástica.
    A família do Genivaldo, após exaustivo trabalho e dispêndio financeiro, tinha por objetivo a confecção dos convites apergaminhados. De repente, após a distribuição de mais de trezentos invites, -- a tristeza preconizada em detrimento do fatídico --, tomou conta do espaço destinado à atmosfera febricitante do hipotético evento malogrado.
    Ao receber alta do hospital, providenciou, com premência, uma assistência psicológica, pois os estigmas traumáticos eram percucientes, atingindo-lhe de permeio os pontos nevrálgicos do psicossomático.
    A equipe médica formada de: psiquiatra, psicólogo, psicopedagogo, farmacêuticos, enfermeiros etc, recebeu-o com aprazimento na primeira sala do corredor da ala esquerda. Ele contou para os profissionais o que ocorrera com a sua pessoa naquele dia, em que buscava, em cabal contumácia, atender ao seu ego, pois estaria mais uma vez diante da cédula de sua preferência obsessiva – a de cem reais.
    Em seguida, o psiquiatra – Teotônio, sem maiores perplexidades, fez questão de submetê-lo ao teste das demais notas pecuniárias, obedecendo a ordem decrescente. Dessa forma, apresentou-lhe, de começo, a garoupa (... e ele sorriu); em seguida, a onça (momento em que perdeu e expressão sorridente); no instante do mico-leão-dourado, (a sisudez tomou-lhe conta do rosto em pergaminho); quando chegou a vez da arara (sentiu a ocorrência inopinada de uma demudação plena); por último, no átimo da imagem da tartaruga-marinha (ele entortou, de modo enfesado, o lado esquerdo da face e uma parte lateral do lábio correspondente, dando a especiosidade de uma colapsal trombose). E foi assim, desse modo horripilante, que a sina traçou-lhe a vereda macabra, alijando de sua mente, -- para sempre --, o tresvario da comemoração atinente à visionária data de programação festiva!...

                                       Wilson Cerveira

Um comentário:

  1. Anônimo1/9/12

    Mais um texto talhado com pitadas de realidade cotidiana. Um grande abraço Wilson.
    Carlos Henriques Guimarães Medeiros

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