-- Doutor, peço-lhe,
encarecidamente, que não me olhe assim, com este seu olhar de reproche!...
Nesse ínterim, sem que soubesse dilucidar as ideias que estavam sendo
suscitadas no âmbito evagatório, -- o encanador Lorentino, no embuçalamento de
uma lágrima, imaginava o que estaria se passando na mente peripecial do ínclito
Doutor Esmerindo – um exator de compromissos – de máxima grandeza humana!
-- Doutor, eu soube, através da Terezona,
que o senhor é escritor também, isto é, há mais de cinco décadas, e assina
diariamente uma coluna no tradicional “Jornal da Cidade”. Por favor, jamais
publique um artigo contando minhas picardias. Caso contrário, estaria
dispersando as minhas antigas clientelas. E, em um momento de sanha profunda,
numa asfixia a toda prova, ainda dissera o Lorentino, sem a mínima perplexidade,
a frase lapidar: “se o senhor resolvesse ressumbrar minhas astúcias, morreria à
míngua, na ausência absoluta de pão e água”! E, desse modo agruroso, passaria pelos
mesmos excruciamentos que Tântalo sofrera quando chegou aos pontos obiciários e
labirínticos do inferno.
Deveras, o encanador pedia dinheiro em
excesso, com o objetivo de suprir quaisquer falcatruas que, por acaso, não
dessem certo, mormente no átimo da implexa execução da obra de encanação
reparatória. De fato, trazia o material encastoado – de tal sorte --, fazendo
questão de desnudá-lo, à socapa, sobremodo quando estivesse em ponto de
colimação – defronte dos olhos arregalados do cliente. O seu objetivo seria o
de reconduzir os aparatos externos e reimplantá-los no próximo serviço, caso
houvesse necessidade dessa façanha!
Para tentar justificar o seu sofisma, dizia
que o cilindro interno é que estava desgastado. Dessa forma, a impressão
suscitada, a princípio, era a do cabal descartamento das demais peças
acessórias.
Chamei-o uma vez de Tementino em vez de
Lorentino, em virtude da necessidade imperiosa de ser vigiado de perto, durante
os serviços de reparação hidráulica, pelo dono do imóvel, que impedia o seu
livre deslocamento para outro local da casa, pois ressumbraria como
tendeciosidade malévola, o arruinamento abrupto de outra torneira fantasma, ou
cano esfíngico, já que ainda se encontravam em plena integridade funcional
quanto ao uso; e, destarte, demonstrando ser um repositório do material em
análise.
Em dias de frenesi recrudescente, seria
aconselhável o agrilhoamento de um dos membros do temível operário,
precisamente a mão que aparatava desocupação, evitando, dessa maneira, algum
estropiamento criminoso de mais uma torneira que, fortuitamente, estivesse ao
alcance dos seus dedos, ou, então, localizada no ângulo oposto ao diâmetro de
extensão.
O operário danificador era um ladrão
variegado, isto é, multifacetado, pois larapiou uma peça contida em cada
escaninho de velhas oficinas, e, postremeiramente, poliu-as de tal maneira,
fornecendo aos olhos a especiosidade comprobatória de um ouropel. De fato, sem
tartamudeios, a engenharia da trapaça estava arquitetada com todos os requintes
imprescindíveis durante as peripécias executórias de uma imane extorsão.
Realmente, costumava usar de ardis conjugados formando um cipoal losango de
dados combinatórios: -- arranjos, permutações e combinações --, partindo das
mais simples, passando pelas compostas, e direcionando-se ao mistilíneo das
mais complexas resoluções atinentes às análias matemáticas comutativas,
sobretudo as que estão relacionadas aos diversos elementos componentes dos
grupos associativos somatorizados em inferências exativas. E, a partir desse
meteórico átimo, pôde refestelar-se sob os auspícios de ser ele um ludibriador
sacripanta, ostentando também o piramidal espetáculo do simulacro culminante e,
de modo sub-reptício, manifestado nas sociedades construídas pelos mais
controversos sistemas desavindos do hodiernismo desassenhoreante!...
Wilson Cerveira
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