sábado, 8 de setembro de 2012

O OPERÁRIO DANIFICADOR


   -- Doutor, peço-lhe, encarecidamente, que não me olhe assim, com este seu olhar de reproche!... Nesse ínterim, sem que soubesse dilucidar as ideias que estavam sendo suscitadas no âmbito evagatório, -- o encanador Lorentino, no embuçalamento de uma lágrima, imaginava o que estaria se passando na mente peripecial do ínclito Doutor Esmerindo – um exator de compromissos – de máxima grandeza humana!
   -- Doutor, eu soube, através da Terezona, que o senhor é escritor também, isto é, há mais de cinco décadas, e assina diariamente uma coluna no tradicional “Jornal da Cidade”. Por favor, jamais publique um artigo contando minhas picardias. Caso contrário, estaria dispersando as minhas antigas clientelas. E, em um momento de sanha profunda, numa asfixia a toda prova, ainda dissera o Lorentino, sem a mínima perplexidade, a frase lapidar: “se o senhor resolvesse ressumbrar minhas astúcias, morreria à míngua, na ausência absoluta de pão e água”! E, desse modo agruroso, passaria pelos mesmos excruciamentos que Tântalo sofrera quando chegou aos pontos obiciários e labirínticos do inferno.
   Deveras, o encanador pedia dinheiro em excesso, com o objetivo de suprir quaisquer falcatruas que, por acaso, não dessem certo, mormente no átimo da implexa execução da obra de encanação reparatória. De fato, trazia o material encastoado – de tal sorte --, fazendo questão de desnudá-lo, à socapa, sobremodo quando estivesse em ponto de colimação – defronte dos olhos arregalados do cliente. O seu objetivo seria o de reconduzir os aparatos externos e reimplantá-los no próximo serviço, caso houvesse necessidade dessa façanha!
   Para tentar justificar o seu sofisma, dizia que o cilindro interno é que estava desgastado. Dessa forma, a impressão suscitada, a princípio, era a do cabal descartamento das demais peças acessórias.
   Chamei-o uma vez de Tementino em vez de Lorentino, em virtude da necessidade imperiosa de ser vigiado de perto, durante os serviços de reparação hidráulica, pelo dono do imóvel, que impedia o seu livre deslocamento para outro local da casa, pois ressumbraria como tendeciosidade malévola, o arruinamento abrupto de outra torneira fantasma, ou cano esfíngico, já que ainda se encontravam em plena integridade funcional quanto ao uso; e, destarte, demonstrando ser um repositório do material em análise.
    Em dias de frenesi recrudescente, seria aconselhável o agrilhoamento de um dos membros do temível operário, precisamente a mão que aparatava desocupação, evitando, dessa maneira, algum estropiamento criminoso de mais uma torneira que, fortuitamente, estivesse ao alcance dos seus dedos, ou, então, localizada no ângulo oposto ao diâmetro de extensão.
     O operário danificador era um ladrão variegado, isto é, multifacetado, pois larapiou uma peça contida em cada escaninho de velhas oficinas, e, postremeiramente, poliu-as de tal maneira, fornecendo aos olhos a especiosidade comprobatória de um ouropel. De fato, sem tartamudeios, a engenharia da trapaça estava arquitetada com todos os requintes imprescindíveis durante as peripécias executórias de uma imane extorsão. Realmente, costumava usar de ardis conjugados formando um cipoal losango de dados combinatórios: -- arranjos, permutações e combinações --, partindo das mais simples, passando pelas compostas, e direcionando-se ao mistilíneo das mais complexas resoluções atinentes às análias matemáticas comutativas, sobretudo as que estão relacionadas aos diversos elementos componentes dos grupos associativos somatorizados em inferências exativas. E, a partir desse meteórico átimo, pôde refestelar-se sob os auspícios de ser ele um ludibriador sacripanta, ostentando também o piramidal espetáculo do simulacro culminante e, de modo sub-reptício, manifestado nas sociedades construídas pelos mais controversos sistemas desavindos do hodiernismo desassenhoreante!...

                        Wilson Cerveira

Nenhum comentário:

Postar um comentário