sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A FARSA DO CARDÍACO DEMUDADO


    Laerth, ao chegar aos noventa anos, primaziou a síndrome da hipocondria, opcionando pela escolha da pseudocardiopatia, em detrimento de tantas outras; conquanto saibamos o grau de urgência, que é requerido em função das palindromias paroxísticas de arritmia...
    O nonagenário priorizou esse tipo de disfunção cardiovascular, haja vista vários referenciais significativos. As doenças cardíacas podem ser surpreendentes e fatais em quaisquer faixas etárias, abrangendo, também, o somatorial partitivo – horas, minutos, segundos e frações imperceptíveis contendo o coligimento assinalativo na cronometria determinante à cardiopatologia clarividenciada.
    O cardíaco, ou pseudo-cardíaco, ambos podem recorrer aos seguintes recursos, buscando-os no âmbito da especiosidade. Ei-los: delíquios em ocasiões apropriadas, brado estentóricos de morte – em plena via pública, com resvalo subitâneo, mormente onde havia maior concentração de pessoas. Ele, o pseudo-cardíaco, tinha o hábito de chamar a atenção, e, em seguida, avocar os devidos cuidados, os quais seriam prestados com exclusividade, em se tratando de sua singularíssima pessoa, uma lídima exceção dentre tantos arquétipos!...
    Quando se dirigia à barbearia do Gualberto, em principio, Laerth Azeredo manuscritava um lembrete – expendendo a sua condição de “cardíaco” – do tipo que sofre síncope mental, geralmente uma vez por semana, mostrando que a problemática deveria estar mais relacionada ao sintomatológico da epilepsia. No rodapé do bilhete, procurava exarar a frase macabra: “Caso eu morra no interregno do corte, mande deixar o meu descomunal corpo inerme no seguinte endereço: Rua X, quadra: Y, Casa: KY; e o entregue a “dona Iaiá”, que é a minha mulher, para que ultime o meu inumamento no jazigo da família Azeredo. Isto, a bem da verdade, ele dissera como se fossem as últimas palavras – antes que, de fato, prestasse a merencória cerimônia do adeus da eterna despedida da vida telúrica.
    Esse tal bilhete, mais do que qualquer documento, simbolizava suas credenciais, uma vez que o tinha sempre em número multiplicativo no bolso dianteiro da calça, sobretudo o que se localiza no lado esquerdo. Em princípio, quem o lesse se comoveria diante da periclitância de um inopinado paroxismo iminente. Assim sendo, ia embaindo a si e a todos que, através de pesadelos consecutivos, já o vislumbravam cabalmente encerrado no interior do esquife.
    Quando pressentia que as cópias estavam chegando ao fim, mandava xerocopiá-las de modo suficiente, para que remanescessem sempre em algum repositório, e, de alguma maneira, revogando o vocábulo – “falta”, talvez o mais traumático, em se tratando de quem não o admitisse!... Então, as credenciais vaticinatórias – de modo reiterativo – continuavam imprimindo-lhe no espírito as convalescenças impostas durante o longo período de restabelecimento de suas funções orgânicas, já afetadas progressivamente pela senescência celular.
    Com essa pseudopatocardio, conseguia persuadir os sujeitos pertencentes a diversas castas sociais, e, também, as situações aviltantes que se lhe deparavam rotineiramente, sendo geradas por pessoas que sobreviviam em plena vacuidade social.
    De súbito, para livrar a própria pele, prosternar-se-ia aos pés de facínoras: ladrões, assaltantes à mão armada, sequestradores, assassinos, mutiladores, esfoladores, fraudadores etc, que atravessavam o seu caminho, partindo em um direcionamento arrostado.
    Laerth, também, conseguiu libertar-se de despesas, principalmente quando simulava um desmaio – quase total – no término de um almoço servido em um restaurante de luxo; como também realizado em um casarão antigo, onde se procurava fazer a conjunção do binômio: jantar e dança!
    De igual maneira, Laerth apreciava os galanteios dirigidos às senhorinhas, em pleno aeroporto, -- antes da decolagem, ou, então, após a aterrissagem. Reiteradamente, sentia-se álacre quando emitia madrigais que lhe despertavam os momentos apoteóticos de uma mocidade absconditada no tempo sepulcral!...
    Ele, que pertencia aos bons tempos da família Azeredo, não conseguia banir as imprecações sociais – estigmas priscos, -- que decorrem de centúrias inumadas por uma sociedade que sempre fizera parte intrínseca do que se denomina comumente de espetáculo do constante simulacro.
    Quando projetava o corpo, fazendo-o jazer no substrato, Laerth Azeredo realizava, com proficiência, essa ação tétrica – tal qual a palindrômica sinestesia – coligindo os elementos que caracterizam, de modo coadjuvante, a tenebrosa síndrome da lipotimia: palidez completa, sudorese, gelidez nas extremidades, redução do ritmo cardíaco, pulsações, dispnéias etc, numa atmosfera especiosa de quem se encontra em outra dimensão – sob a condição inerente a um inusitado tipo vital.
    Quem o observasse atentamente, colhia a impressão de que ele --- o egrégio Azeredo --- estaria adentrando, à sorrelfa, no que concerne ao sindrômico que prodromiza a falência múltipla dos órgãos --- num indicativo comprobatório de pré-morte.
     Os assistentes, geralmente, deixavam-se hipnotizar, e, numa premonição perfunctória, mantinham os olhos marejados diante do ataúde. Caso fossem cardiopatas, correriam o sério risco de morrer em função do abalo sofrido com a tristiíssima notícia da inumação do homem que exibia, com perfeccionismo patológico, a farsa do cardíaco demudado. Mas, o que ele apresentava, realmente, em seu quadro sintomatológico --- era um tipo heteróclito de hipocondria --- nunca dantes manifestada, sendo forjada por artifícios aparatosos de um embuçalamento estupefaciente!...

                                              Wilson Cerveira

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