Laerth, ao chegar aos
noventa anos, primaziou a síndrome da hipocondria, opcionando pela escolha da
pseudocardiopatia, em detrimento de tantas outras; conquanto saibamos o grau de
urgência, que é requerido em função das palindromias paroxísticas de
arritmia...
O nonagenário priorizou esse tipo de disfunção
cardiovascular, haja vista vários referenciais significativos. As doenças cardíacas
podem ser surpreendentes e fatais em quaisquer faixas etárias, abrangendo,
também, o somatorial partitivo – horas, minutos, segundos e frações imperceptíveis
contendo o coligimento assinalativo na cronometria determinante à
cardiopatologia clarividenciada.
O cardíaco, ou pseudo-cardíaco, ambos podem
recorrer aos seguintes recursos, buscando-os no âmbito da especiosidade. Ei-los:
delíquios em ocasiões apropriadas, brado estentóricos de morte – em plena via pública,
com resvalo subitâneo, mormente onde havia maior concentração de pessoas. Ele, o
pseudo-cardíaco, tinha o hábito de chamar a atenção, e, em seguida, avocar os
devidos cuidados, os quais seriam prestados com exclusividade, em se tratando
de sua singularíssima pessoa, uma lídima exceção dentre tantos arquétipos!...
Quando se dirigia à barbearia do Gualberto,
em principio, Laerth Azeredo manuscritava um lembrete – expendendo a sua
condição de “cardíaco” – do tipo que sofre síncope mental, geralmente uma vez
por semana, mostrando que a problemática deveria estar mais relacionada ao sintomatológico
da epilepsia. No rodapé do bilhete, procurava exarar a frase macabra: “Caso eu
morra no interregno do corte, mande deixar o meu descomunal corpo inerme no
seguinte endereço: Rua X, quadra: Y, Casa: KY; e o entregue a “dona Iaiá”, que
é a minha mulher, para que ultime o meu inumamento no jazigo da família Azeredo.
Isto, a bem da verdade, ele dissera como se fossem as últimas palavras – antes que,
de fato, prestasse a merencória cerimônia do adeus da eterna despedida da vida telúrica.
Esse tal bilhete, mais do que qualquer documento,
simbolizava suas credenciais, uma vez que o tinha sempre em número
multiplicativo no bolso dianteiro da calça, sobretudo o que se localiza no lado
esquerdo. Em princípio, quem o lesse se comoveria diante da periclitância de um
inopinado paroxismo iminente. Assim sendo, ia embaindo a si e a todos que, através
de pesadelos consecutivos, já o vislumbravam cabalmente encerrado no interior do
esquife.
Quando pressentia que as cópias estavam
chegando ao fim, mandava xerocopiá-las de modo suficiente, para que remanescessem
sempre em algum repositório, e, de alguma maneira, revogando o vocábulo – “falta”,
talvez o mais traumático, em se tratando de quem não o admitisse!... Então, as
credenciais vaticinatórias – de modo reiterativo – continuavam imprimindo-lhe
no espírito as convalescenças impostas durante o longo período de
restabelecimento de suas funções orgânicas, já afetadas progressivamente pela
senescência celular.
Com essa pseudopatocardio, conseguia
persuadir os sujeitos pertencentes a diversas castas sociais, e, também, as
situações aviltantes que se lhe deparavam rotineiramente, sendo geradas por
pessoas que sobreviviam em plena vacuidade social.
De súbito, para livrar a própria pele,
prosternar-se-ia aos pés de facínoras: ladrões, assaltantes à mão armada, sequestradores,
assassinos, mutiladores, esfoladores, fraudadores etc, que atravessavam o seu
caminho, partindo em um direcionamento arrostado.
Laerth, também, conseguiu libertar-se de
despesas, principalmente quando simulava um desmaio – quase total – no término
de um almoço servido em um restaurante de luxo; como também realizado em um
casarão antigo, onde se procurava fazer a conjunção do binômio: jantar e dança!
De igual maneira, Laerth apreciava os galanteios
dirigidos às senhorinhas, em pleno aeroporto, -- antes da decolagem, ou, então,
após a aterrissagem. Reiteradamente, sentia-se álacre quando emitia madrigais
que lhe despertavam os momentos apoteóticos de uma mocidade absconditada no
tempo sepulcral!...
Ele, que pertencia aos bons tempos da família
Azeredo, não conseguia banir as imprecações sociais – estigmas priscos, -- que
decorrem de centúrias inumadas por uma sociedade que sempre fizera parte intrínseca
do que se denomina comumente de espetáculo do constante simulacro.
Quando projetava o corpo, fazendo-o jazer
no substrato, Laerth Azeredo realizava, com proficiência, essa ação tétrica –
tal qual a palindrômica sinestesia – coligindo os elementos que caracterizam,
de modo coadjuvante, a tenebrosa síndrome da lipotimia: palidez completa,
sudorese, gelidez nas extremidades, redução do ritmo cardíaco, pulsações, dispnéias
etc, numa atmosfera especiosa de quem se encontra em outra dimensão – sob a condição
inerente a um inusitado tipo vital.
Quem o observasse atentamente, colhia a
impressão de que ele --- o egrégio Azeredo --- estaria adentrando, à sorrelfa,
no que concerne ao sindrômico que prodromiza a falência múltipla dos órgãos ---
num indicativo comprobatório de pré-morte.
Os assistentes, geralmente, deixavam-se
hipnotizar, e, numa premonição perfunctória, mantinham os olhos marejados diante
do ataúde. Caso fossem cardiopatas, correriam o sério risco de morrer em função
do abalo sofrido com a tristiíssima notícia da inumação do homem que exibia,
com perfeccionismo patológico, a farsa do cardíaco demudado. Mas, o que ele
apresentava, realmente, em seu quadro sintomatológico --- era um tipo
heteróclito de hipocondria --- nunca dantes manifestada, sendo forjada por
artifícios aparatosos de um embuçalamento estupefaciente!...
Wilson Cerveira
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