Dr. Ladislau era a
representação da lidimidade simbólica, ostentando, de fato, a presunção
pinacular de quem se sente o doutoríssimo, o dono absoluto das verdades
científicas no âmbito da cardiologia.
Seria de bom alvitre que alguém exarasse
para ele o seguinte: as titulações e pós-titulações não eximem quaisquer
especialistas, mormente no que concerne ao banimento do fatídico.
O que o cardiologista pode fazer em
benefício próprio, assim como de milhares de pacientes, é a profilaxia do infarto.
Em que pese as mais mirabolantes tecnologias de detectação das patologias
cardiovasculares, e, também, há diversos tipos de infarto que absconditam, às
vezes, os pródromos sindrômicos – e que são capazes de redundar em um momento
abrupto de descompensação cardíaca fulminante.
Para o vulgo, -- na generalização de suas
ideias --, longe de averiguações mais condizentes, o cardiologista pode ter outro
tipo de falência orgânica que o leve à morte, menos a causada por distúrbios
cardiovasculares.
Os ouvidos do Dr. Ladislau ainda guardavam
a frase lapidar: “Salva-te a ti mesmo” – é uma prova bíblica, pois somente
Jesus Cristo, filho de Deus Pai -- TODO PODEROSO – conseguiu resgatar a alma
perante a fragilidade da matéria humana.
Não há nada seguro debaixo do sol, e,
então, não nos esqueçamos de memorizar nos escaninhos do subconsciente, mesmo à
sorrelfa, que o cardiologista --- o melhor de todos quanto ao nível de
pós-doutoramento ---, pode apresentar o somatório cabal das síndromes que
caracterizam clinicamente um cardiopata inato, não importando que esteja na
cadeira doutoral de cardiologista, aparatando borla e capelo!...
O cardiologista Ladislau, ostentando o
fastígio de sua carreira, também pode ser surpreendido por um enfarte de
natureza fulminante. Nesse momento nefando, os seus clientes cardiopatas podem acudi-lo
de imediato, evitando a sua queda no interior do consultório ou da própria clínica
onde trabalha. Ademais, far-se-ão presentes no instante do seu inumamento,
prestando-lhe comovidamente as postremeiras exéquias.
Em tese, o cardiologista em tela, sente-se
superior a todas as coisas que, possivelmente, estejam a seu redor. Em se
tratando do conhecimento, no mais acendrado átimo, respeitado o píncaro das
pesquisas recentes sobre cardiologia; --- e ele parece ser o dono absoluto de
si mesmo, e, também, senhor carismático das demais verdades pululantes no
polêmico âmbito da percuciente erudição científica.
Dr. Ladislau, o exímio cardiologista, não
respeitava os limites humanos, já que a sua embófia transcendia as narrativas
priscas. O seu retrato especioso lembrava-nos a imagem de um demiurgo,
simbolizando o nome do deus criador, na filosofia platônica. Com o passar dos
anos, sem motivos plausíveis, foi se afastando cada vez mais de Deus. Nesse caso,
o cardiologista tornou-se arrogante e afoito no que dissera, no que havia feito
e no que escrevera. Dessa forma bisonha, as suas palavras coligidas de angústia
têm a marca do pseudo-estrugido de uma peremptoriedade delusória quanto ao
interminável silêncio sepulcral das eras!... E, em detrimento, tudo parecia
estacionar esdruxulamente no meio adstrito e esfíngico da própria persona
projetada na soturnidade duma cabal penumbra!...
O catedrático doutor era cardiologista-clínico,
sendo considerado por ele e por um grupo de aficcionistas, e, dessa maneira o
mais renomado dos que faziam parte do “Hospital da Beneficência Portuguesa”. Havia,
no caso supracitado, um adendo que aparatava o hiperbolismo presuntório, pois
sentia-se muito superior ao seu colega – Dr. Bráulio – cardiologista-cirurgião.
Durante o sono havia sido surpreendido
pelo sindrômico atinente ao binômio delírio-alucinatório!... Nesta mesma noite,
tivera o vaticínio vislumbrático da possibilidade de estar operando
determinadas regiões de um cardio impresso apenas nas folhas de uma cartolina
ginasiana!...
É preciso obtemperar que o Senhor do
Universo, que é Deus, o qual está presente nas distinções do trinômio referencial:
onipresente, onisciente, onipotente. Então, ila-se que a simplicidade pode
evitar o exício abrupto do tal especialista, que se achava além da sua especialidade
prioritária e reptativa.
O especialista, por mais
pós-doutoramentos, jamais conseguirá cominar os desígnios de Deus. Para tanto,
terá que expiar cautelosamente todas as inequanimidades perpetradas no arrostamento
às determinações divinas.
Não adianta
ficar sob o impacto da aflição exacerbada, doutor de borlas e capelos!... O
desarraigamento das cousas terrenas, assim como a sua sobrevivência ou morte,
decerto, dependerá unicamente da vontade do Creador. Fique em paz, embora
exista por parte dos seus familiares o renegamento da intenção desejada neste
interregno de lancinante desespero, sobremodo quando em pólos infensos de
constante gládio abominável!...
Reveja, por gentileza, o capítulo 6,25 do
evangelho de São Lucas: “Infelizes são vocês, que agora se acham plenamente
satisfeitos com os bens deste mundo, porque depois, na eternidade, terão fome
dos bens espirituais. Infelizes vocês, que demandam somente os prazeres
transitórios do mundo, porque hão de gemer e de chorar, quando perderem a
verdadeira felicidade do céu”.
Será que o cardiologista empafioso sofrerá
um súbito infarto? -- Ou, então, após o evento fatídico, – caso consiga
sobreviver --, passará a tratar os seus numerosos pacientes cardíacos, sem exceção,
com mais simplicidade e atenção, desprezando as bazofias acumuladas ao longo de
três decênios?!... Realmente, os mais sofisticados exames ressumbraram que o
cardiologista é, também, cardiopata, e que usa a mesma medicação prescrita para
os seus pacientes, sobremaneira os que correm o mesmíssimo risco cardiológico.
Assim
sendo, o tempo de recuperação dos pacientes cardíacos estaria registrado no
cronômetro telúrico, ao passo que a enigmática exação da eternidade é
atemporal, pois o exímio doutor estava a um passo da perenidade, e, desse modo,
buscaria meios oratórios para que chegasse ao caminho labiríntico do átimo recôndito,
o qual aduziria ao adestramento dos umbrais da perpetuidade espiritual.
O especialista, que é o próprio cardiologista
continua tomando, de modo reiterativo, o mesmo medicamento recente que fora
administrado para o seu cliente cardiopata. E, em cabal silêncio, oculta essa
lidimidade, pois pratica a autoprofilaxia. Gostaria no entanto, que o cliente
cumprisse rigorosamente as determinações impostas. E, mesmo sabendo dos perigos
iminentes, atravessaria, com parcimônia, os dédalos proporcionados pelas reações
intrínsecas do organismo.
Talvez, quem sabe, após sucessivas
azafamas, buscaria – se possível fosse – meios propícios para converter o ódio,
transformando-o num apaziguamento necessário para jugular as imprevisíveis mazelas
vitais!...
Wilson Cerveira
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