sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O CARDIOLOGISTA QUE NÃO PASSOU NO TESTE DO ESPECIALISTA


     Dr. Ladislau era a representação da lidimidade simbólica, ostentando, de fato, a presunção pinacular de quem se sente o doutoríssimo, o dono absoluto das verdades científicas no âmbito da cardiologia.
     Seria de bom alvitre que alguém exarasse para ele o seguinte: as titulações e pós-titulações não eximem quaisquer especialistas, mormente no que concerne ao banimento do fatídico.
     O que o cardiologista pode fazer em benefício próprio, assim como de milhares de pacientes, é a profilaxia do infarto. Em que pese as mais mirabolantes tecnologias de detectação das patologias cardiovasculares, e, também, há diversos tipos de infarto que absconditam, às vezes, os pródromos sindrômicos – e que são capazes de redundar em um momento abrupto de descompensação cardíaca fulminante.
     Para o vulgo, -- na generalização de suas ideias --, longe de averiguações mais condizentes, o cardiologista pode ter outro tipo de falência orgânica que o leve à morte, menos a causada por distúrbios cardiovasculares.
     Os ouvidos do Dr. Ladislau ainda guardavam a frase lapidar: “Salva-te a ti mesmo” – é uma prova bíblica, pois somente Jesus Cristo, filho de Deus Pai -- TODO PODEROSO – conseguiu resgatar a alma perante a fragilidade da matéria humana.
     Não há nada seguro debaixo do sol, e, então, não nos esqueçamos de memorizar nos escaninhos do subconsciente, mesmo à sorrelfa, que o cardiologista --- o melhor de todos quanto ao nível de pós-doutoramento ---, pode apresentar o somatório cabal das síndromes que caracterizam clinicamente um cardiopata inato, não importando que esteja na cadeira doutoral de cardiologista, aparatando borla e capelo!...
     O cardiologista Ladislau, ostentando o fastígio de sua carreira, também pode ser surpreendido por um enfarte de natureza fulminante. Nesse momento nefando, os seus clientes cardiopatas podem acudi-lo de imediato, evitando a sua queda no interior do consultório ou da própria clínica onde trabalha. Ademais, far-se-ão presentes no instante do seu inumamento, prestando-lhe comovidamente as postremeiras exéquias.
     Em tese, o cardiologista em tela, sente-se superior a todas as coisas que, possivelmente, estejam a seu redor. Em se tratando do conhecimento, no mais acendrado átimo, respeitado o píncaro das pesquisas recentes sobre cardiologia; --- e ele parece ser o dono absoluto de si mesmo, e, também, senhor carismático das demais verdades pululantes no polêmico âmbito da percuciente erudição científica.
     Dr. Ladislau, o exímio cardiologista, não respeitava os limites humanos, já que a sua embófia transcendia as narrativas priscas. O seu retrato especioso lembrava-nos a imagem de um demiurgo, simbolizando o nome do deus criador, na filosofia platônica. Com o passar dos anos, sem motivos plausíveis, foi se afastando cada vez mais de Deus. Nesse caso, o cardiologista tornou-se arrogante e afoito no que dissera, no que havia feito e no que escrevera. Dessa forma bisonha, as suas palavras coligidas de angústia têm a marca do pseudo-estrugido de uma peremptoriedade delusória quanto ao interminável silêncio sepulcral das eras!... E, em detrimento, tudo parecia estacionar esdruxulamente no meio adstrito e esfíngico da própria persona projetada na soturnidade duma cabal penumbra!...
   O catedrático doutor era cardiologista-clínico, sendo considerado por ele e por um grupo de aficcionistas, e, dessa maneira o mais renomado dos que faziam parte do “Hospital da Beneficência Portuguesa”. Havia, no caso supracitado, um adendo que aparatava o hiperbolismo presuntório, pois sentia-se muito superior ao seu colega – Dr. Bráulio – cardiologista-cirurgião.
     Durante o sono havia sido surpreendido pelo sindrômico atinente ao binômio delírio-alucinatório!... Nesta mesma noite, tivera o vaticínio vislumbrático da possibilidade de estar operando determinadas regiões de um cardio impresso apenas nas folhas de uma cartolina ginasiana!...
     É preciso obtemperar que o Senhor do Universo, que é Deus, o qual está presente nas distinções do trinômio referencial: onipresente, onisciente, onipotente. Então, ila-se que a simplicidade pode evitar o exício abrupto do tal especialista, que se achava além da sua especialidade prioritária e reptativa.
     O especialista, por mais pós-doutoramentos, jamais conseguirá cominar os desígnios de Deus. Para tanto, terá que expiar cautelosamente todas as inequanimidades perpetradas no arrostamento às determinações divinas.
     Não adianta ficar sob o impacto da aflição exacerbada, doutor de borlas e capelos!... O desarraigamento das cousas terrenas, assim como a sua sobrevivência ou morte, decerto, dependerá unicamente da vontade do Creador. Fique em paz, embora exista por parte dos seus familiares o renegamento da intenção desejada neste interregno de lancinante desespero, sobremodo quando em pólos infensos de constante gládio abominável!...
     Reveja, por gentileza, o capítulo 6,25 do evangelho de São Lucas: “Infelizes são vocês, que agora se acham plenamente satisfeitos com os bens deste mundo, porque depois, na eternidade, terão fome dos bens espirituais. Infelizes vocês, que demandam somente os prazeres transitórios do mundo, porque hão de gemer e de chorar, quando perderem a verdadeira felicidade do céu”.
     Será que o cardiologista empafioso sofrerá um súbito infarto? -- Ou, então, após o evento fatídico, – caso consiga sobreviver --, passará a tratar os seus numerosos pacientes cardíacos, sem exceção, com mais simplicidade e atenção, desprezando as bazofias acumuladas ao longo de três decênios?!... Realmente, os mais sofisticados exames ressumbraram que o cardiologista é, também, cardiopata, e que usa a mesma medicação prescrita para os seus pacientes, sobremaneira os que correm o mesmíssimo risco cardiológico.
      Assim sendo, o tempo de recuperação dos pacientes cardíacos estaria registrado no cronômetro telúrico, ao passo que a enigmática exação da eternidade é atemporal, pois o exímio doutor estava a um passo da perenidade, e, desse modo, buscaria meios oratórios para que chegasse ao caminho labiríntico do átimo recôndito, o qual aduziria ao adestramento dos umbrais da perpetuidade espiritual.
     O especialista, que é o próprio cardiologista continua tomando, de modo reiterativo, o mesmo medicamento recente que fora administrado para o seu cliente cardiopata. E, em cabal silêncio, oculta essa lidimidade, pois pratica a autoprofilaxia. Gostaria no entanto, que o cliente cumprisse rigorosamente as determinações impostas. E, mesmo sabendo dos perigos iminentes, atravessaria, com parcimônia, os dédalos proporcionados pelas reações intrínsecas do organismo.
     Talvez, quem sabe, após sucessivas azafamas, buscaria – se possível fosse – meios propícios para converter o ódio, transformando-o num apaziguamento necessário para jugular as imprevisíveis mazelas vitais!...

                                              Wilson Cerveira 

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