Saibais que sou impertérrito em exarar, com
indelebilidade nostálgica, o quadragésimo sexto ano desta travessia, que
ocorrera no dia 30 de novembro de 1966, -- de Alcântara para São Luís,
realizada pelo barco “São João da Barra” – de cuja propriedade pertencia ao
mestre – Apolinário, um dos marinheiros mais experimentados com relação aos
perigos iminentes de um boqueirão a ostentar um vórtice perdurante.
Compreendais que vinha em companhia de
minha família, e, apresentava como desiderato fundamental a concorrência ao
exame de admissão ao antigo ginásio, e cujo estabelecimento alvo era o vetusto
Colégio Maranhense – dos Irmãos Maristas – situado na Rua Oswaldo Cruz, na
antiga “Quinta do Barão”.
Requesteis a acepção dessa apoteótica
travessia, tendo por referencial basilar o tempo em que fora efetuada,
consoante as sendas da esfíngica destinação. Decerto, tenhais os labirínticos
átimos da candidez mádida, e vereis a demudência dos símbolos lúdicos, na
tentativa onírica de reminiscenciar os aparatos dos lídimos ícones natalinos.
Porventura, entendais que eu ostentava entre
os dedos da mão direita os apetrechos imprescindíveis dos desenhos
peremptórios: compasso, esquadro, transferidor e régua. E, em cabal boqueirão,
nesse caso, façais os mais cabalísticos planos de épura, para que traceis as
bissetrizes e as medianas destas figuras geométricas que palingenesiam as
árvores-de-natal e os presépios do prisco, -- afirmações perpétuas de tudo o
que se averossimilhava com relação às tradicionais festas dos adventos que se
reiteram perenemente.
Compreendais as perdas preciosas que
incidiram sobre minha singularíssima pessoa, antes que me fossem infligidos os
interregnos procelosos do turbulento trecho de mar, onde o vento bate
fortíssimo na proa do barco, dando a especiosa ensancha de querer,
inopinadamente, deixá-lo à deriva.
Deixeis que eu enumere as funebridades que
me consternaram, abrangendo um mistilíneo de puerícia e puberdade. Então,
ei-las: em 27 de maio de 1960, presenciei, de modo enternecido, o trespassamento
de minha avó materna – Maria das Dores Martins Cerveira.
Depois, num compungencial de plangências, em
julho de 1962, tive que assistir ao inumamento do meu avô materno – Pedro Leite
Cerveira. Posteriormente, no ano seguinte, isto é: em 14 de março de 1963,
pereceu o meu avô paterno – Marcial Ramalho Marques, que fora vítima de um
fulminante infarto do miocárdio. Nesse período, era o prefeito da cidade de
Alcântara, exercendo o seu segundo mandato, já que o primeiro dista do ano de
1950.
Tenhais a certeza de que sempre me senti
seguro ao lado do meu avô – Marcial Ramalho Marques. E, destarte, servindo-me
de escudo, decerto, ninguém ousaria tocar-me o dedo. Tanto assim, apreciava-lhe
a imagem varonil, descrevendo-a minuciosamente, sem que houvesse a mínima possibilidade
de olvidamento quanto a morfologia pertinente ao arcabouço orgânico de seus
aparatos de excentricidade comprobatória. De inopino, ei-lo a emergir de um
caprichado terno de brim, num afogadilho de punhos e golas, aparatando uma
atitude de quem se encontrava em estado de penitência prolongada. Na cintura,
ostentava um cinturão apertadíssimo, cuja fivela remetia-o a um eixo de
cilindro, determinando uma incorrência no postremeiro pertuito do tirame de
couro legítimo. Na lateral direita do cós, trazia colado ao corpo – sem dele se
apartar – um baita de um revólver de calibre – 38, do tipo cano longo. E,
diante do devido comenos, num sequencial de fenecimentos, tive que inumar os resquícios
da puerícia e as remanescências da puberdade no próprio telúrico natal, minutos
antes da inesquecível travessia, numa orquestração merencória auspiciada por um tristiíssimo som funéreo!...
Wilson Cerveira
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