sábado, 29 de dezembro de 2012

A TRAVESSIA E OS SÍMBOLOS NATALINOS -- PARTE III


   Elucubreis que, em 1959, numa tarde de sexta-feira do mês de março, houve na cidade de Alcântara do Maranhão, um segundo tufão, e, desta feita, como se fosse o rosnar repentino de loba faminta, tentando aniquilar, com a sua voracidade incontrolada, tudo o que conseguisse encontrar pela frente, até o pedestal de Nossa Senhora de Fátima, feito de concreto armado, estando situado no centro do “Largo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo”. A coroa da santa, banhada a ouro, fora um presente dado pela senhora minha mãe – Nély Cerveira Marques --, para a escolhida mãe de Jesus Cristo, a santíssima Virgem Maria, que continuará sendo a sua maior devoção, rendendo-lhe sempre a mais justa de todas as homenagens, após ter sido curada de uma polineurite, que a deixou paraplégica por vários meses, após o meu nascimento.
   Novos telhados foram siderados, e algumas casas remanesceram em cabal excídio, depois de sofrerem o maior de todos os escombros, até então vislumbrados por um seleto grupo de uma sociedade, que também se tornou conivente com a ação destes proliferantes descalabros.
   Não olvideis que, em março de 1962, meia centúria prístina, ocorrera uma descomunal descarga de raios, que encetara por um seriado de relâmpagos, que foram devidamente observados por mim, desde o prostremeiro crepúsculo. O firmamento parecia piscar de instante a instante, de modo recrudescente. A partir de 19h ouviam-se os prelúdios de sutis estrugidos longínquos, advindos de um seriado prolongado de trovões à distância. Pouco a pouco, esses médios estampidos foram se aproximando cada vez mais!...
   A retumbância passou a ter um caráter de especioso medo, em detrimento do incisivo carmim atmosférico. O firmamento parecia traçar, geometricamente, as radiografias verossimilhantes, que se faziam descortinar, através de descargas elétricas consecutivas e interpenetrantes. Então, queirais entender que na exação de 20h30min, período em que a minha mãe, e, também professora primária, lutava para ensinar-me o método mais prático de como fazer uma conta de multiplicar cujo multiplicador apresenta três algarismos. Antes que a explicação chegasse ao seu final, fomos pegos de surpresa pelo ribombar estentório do trovão, uma vez que o raio já havia atravessado velozmente o espaço atmosférico. E, nesse caso, todas as alternativas estavam vencidas, e o único jeito era o de recolhermo-nos para debaixo da mesa.
   No dia seguinte, tivemos como comprovância a certeza de que a fagulha atmosférica caíra, lateralmente, em diagonal, na parede da casa contigua, cindindo-a externa e internamente, um pouco acima da linha onde estava cravado o anteparo do antigo rádio-mesa, objeto de grandiosíssima utilidade, pois retransmitia programas e novelas, mantendo os seus ouvintes bem informados.
   Foi a única vez que meu avô paterno – Marcial Ramalho Marques, apavorado diante do acontecimento atmosférico sinistro, resolveu fechar, com celeridade as portas da “Casa de Comércio”, e chegar mais cedo à casa residencial, pontualmente, isto é: às 9h:15min. Ao passo que, melhor dizendo, seu horário habitual pertencia ao interregno entre 22h: 30min às 23 horas. Depois dessa estarrecedora ocorrência nefasta, não lhe restaria outra providência, a fim de que pudesse sentir o refocilamento de uma solução apaziguadora.
   No dia seguinte, a Dona Lídia Gusmão, a mesma que ajudou a minha parteira Faustina, mostrou-nos a parede fendida em sentido diagonal, e nos disse, confidencialmente, o medo de morte que sentira naquele átimo onde vislumbrara um fogo abrupto tentando se alastrar velozmente. Até o presente instante, confesso-vos que guardo na memória, após 50 anos, aquela ressonância tonitroante, assim como o lampejo de uma enorme cratera de fogo exterminador.
   Saibais que, através do postremeiro reminiscente, a travessia deixou estigmas excruciantes, muito antes que adentrássemos ao barco – “São João da Barra” – do mestre Apolinário. Os sucedâneos vinham alternadamente se reiterando como se fossem provas cabais da própria existência lancinante. Os dias rubros, amealhados sob a luz de um sol canicular fenecente, vinham a desferir o rosicler macambúzio de todas as horas inumadas de profunda tristeza.
   Tomeis conhecimento prematuro que, numa manhã de agosto de 1964, posicionei-me no peitoril da janela do “Mirante”, e pude presenciar à retirada dos presos da “Penitenciária de Alcântara”. Foram recambiados para São Luís. Alguns já haviam perpetrado crimes hediondos; outros, no entanto, ainda planejavam praticar um maior número de assassinatos, porquanto suas penas não lhes valeram nenhum tipo de aprendizagem salutar, principalmente no que concernia ao estado degenerativo contido nas especiosas etiquetas.
   Peremptoriamente, no dia 30 de novembro de 1966, o vento batia com sibilação ímpar, açoitando a proa do barco, sempre buscando as imanes indiferenças reinantes em quaisquer partidas.
   Finalmente, tínhamos que repor os símbolos dos natais do prisco: a árvore-de-natal, o presépio do “Menino Jesus”, as cores, as músicas, os brinquedos etc.
   Havíamos sepultado, até então, todas as faixas etárias vitais: a puerícia, a puberdade, a adolescência, a maturidade, a mocidade plena, a pré-nescência (que é uma profunda visionária deste coma irredutível).
   Deixeis que eu me mantenha neste lugar ermo, no qual ainda reminiscencio os natais pretéritos, apoteotizados de onirismo alumbratório!...
   Não obicieis a minha visão, e façais com que eu enxergue, com clarividência, os símbolos natalinos dos natais somatorizados, passando pelas dimensões prolativas do hesterno, do hodierno e do crástino.

                                                  Wilson Cerveira

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