sábado, 29 de dezembro de 2012

A TRAVESSIA E OS SÍMBOLOS NATALINOS -- PARTE II


   Tenteis depreender que a maioria dos meus brinquedos era de corda. E, ainda, reminiscencio os seguintes: um casal de bailarinos – Zeferino e Lidiana, após a aplicação da corda, saiam corredor adentro, e, às vezes, iam parar na soleira da cozinha; um verdureiro chamado Lerdônio, também exibia desenvoltura ao vocacionar os vegetais que conduzia naquela pequena carroceria lúdica; um peão musical, após ser bombeado por um cilindro de metal, tocava belas composições, enchendo o varandão de alacridades consecutivas etc.
   O meu avô tinha o vezo de adquirir esses artefatos de corda, sempre os comprando em triplicata, como se, antes da utilização, vaticinasse o sujeito a perda, a quebra, o estropiamento súbito. Mas, de qualquer forma, o senhor de cabelos encanecidos acostumou-me mal, pois eu sentiria alhures a lacuna impreenchível, de tudo o que perdesse no decurso impiedoso dos anos! Logo, sem pestanejar, o trauma instalar-se-ia, interminantemente, sob a condição patológica de um obsessivo e percuciente estigma. De fato, não encontraria comutações com relação a todos os agraciamentos, já que esses aparatos ressumavam óbices impérvios!
   E, antes de abandonar definitivamente a casa residencial, reexaminei as lembranças imorredouras contidas em todos os aposentos do casarão antigo, embora tenha as encontrado sob a obumbração de murmúrios redundantes de uma cabal solidão! Também, dessa mesmíssima maneira, encontrei os respectivos brinquedos, já dissecados pela ação deletéria do tempo, jazendo em estado de cominação, no qual as cabeças, braços e pernas se dispersavam em todos os recintos do vetusto sobradão!
    Saibais que os símbolos natalinos, indispensavelmente, eu os trazia na bagagem de mudança e na evagatória elucubrática. E, na ânsia de revê-los, descerrei a fita gomada que envolvia a abertura longitudinal da caixa de papelão. Após alguns minutos de trabalho, pude lobrigar o Papai-Noel de aljôfar, exatamente o mesmo que fora comprado para compor a minha primeira árvore-de-natal, armada em dezembro de 1954.
   Presumais que, somente em setembro de 1956, pude vislumbrar estas relíquias natalinas, notadamente no átimo em que ocorrera a protótipa cenestesia. E, no ano seguinte, precisamente numa manhã de abril de 1957, na condição de pavidez pueril, pude esconder-me no quarto de dormir do meu avô paterno, quando percebei o zumbido estrepitoso do tufão, isto é, um minifuracão a balouçar com rajadas fortíssimas de vento as janelas frontais e laterais do varandão, como se quisesse arrancá-las de vez. As telhas de muitos telhados voaram em serial debandado, já que não estavam presas nas pontas por alguma argamassa de cimento.
   Árvores, coqueiros, mangueiras, sapotilheiras, abacateiros, palmeiras, goiabeiras etc, todas essas plantações de maior porte sofreram o exício auspiciado pelo altíssimo furor do vento a varrer ruas e praças, fazendo com que os animais, de modo geral, rodassem, aleatoriamente, num descompasso a toda prova. Foram trinta minutos de agonia! Na soturnidade da noite densa, não se percebia a não ser o sibilar violentíssimo de um vento assobrador. Muitas pessoas ficaram cosidas à parede, com receio de que o teto desabasse em consequência da ação malévola do tenebroso tufão!...

                                                   Wilson Cerveira

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