Tenteis
depreender que a maioria dos meus brinquedos era de corda. E, ainda,
reminiscencio os seguintes: um casal de bailarinos – Zeferino e Lidiana, após a
aplicação da corda, saiam corredor adentro, e, às vezes, iam parar na soleira
da cozinha; um verdureiro chamado Lerdônio, também exibia desenvoltura ao
vocacionar os vegetais que conduzia naquela pequena carroceria lúdica; um peão
musical, após ser bombeado por um cilindro de metal, tocava belas composições,
enchendo o varandão de alacridades consecutivas etc.
O meu avô tinha o vezo de adquirir esses
artefatos de corda, sempre os comprando em triplicata, como se, antes da
utilização, vaticinasse o sujeito a perda, a quebra, o estropiamento súbito.
Mas, de qualquer forma, o senhor de cabelos encanecidos acostumou-me mal, pois
eu sentiria alhures a lacuna impreenchível, de tudo o que perdesse no decurso
impiedoso dos anos! Logo, sem pestanejar, o trauma instalar-se-ia,
interminantemente, sob a condição patológica de um obsessivo e percuciente
estigma. De fato, não encontraria comutações com relação a todos os
agraciamentos, já que esses aparatos ressumavam óbices impérvios!
E, antes de abandonar definitivamente a casa
residencial, reexaminei as lembranças imorredouras contidas em todos os
aposentos do casarão antigo, embora tenha as encontrado sob a obumbração de
murmúrios redundantes de uma cabal solidão! Também, dessa mesmíssima maneira,
encontrei os respectivos brinquedos, já dissecados pela ação deletéria do tempo,
jazendo em estado de cominação, no qual as cabeças, braços e pernas se
dispersavam em todos os recintos do vetusto sobradão!
Saibais
que os símbolos natalinos, indispensavelmente, eu os trazia na bagagem de
mudança e na evagatória elucubrática. E, na ânsia de revê-los, descerrei a fita
gomada que envolvia a abertura longitudinal da caixa de papelão. Após alguns
minutos de trabalho, pude lobrigar o Papai-Noel de aljôfar, exatamente o mesmo
que fora comprado para compor a minha primeira árvore-de-natal, armada em
dezembro de 1954.
Presumais que, somente em setembro de 1956,
pude vislumbrar estas relíquias natalinas, notadamente no átimo em que ocorrera
a protótipa cenestesia. E, no ano seguinte, precisamente numa manhã de abril de
1957, na condição de pavidez pueril, pude esconder-me no quarto de dormir do
meu avô paterno, quando percebei o zumbido estrepitoso do tufão, isto é, um
minifuracão a balouçar com rajadas fortíssimas de vento as janelas frontais e
laterais do varandão, como se quisesse arrancá-las de vez. As telhas de muitos
telhados voaram em serial debandado, já que não estavam presas nas pontas por
alguma argamassa de cimento.
Árvores, coqueiros, mangueiras,
sapotilheiras, abacateiros, palmeiras, goiabeiras etc, todas essas plantações
de maior porte sofreram o exício auspiciado pelo altíssimo furor do vento a
varrer ruas e praças, fazendo com que os animais, de modo geral, rodassem,
aleatoriamente, num descompasso a toda prova. Foram trinta minutos de agonia! Na
soturnidade da noite densa, não se percebia a não ser o sibilar violentíssimo
de um vento assobrador. Muitas pessoas ficaram cosidas à parede, com receio de
que o teto desabasse em consequência da ação malévola do tenebroso tufão!...
Wilson Cerveira
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