Calístenes
encontrou-me em meio à penumbra, quando eu tentava localizar um número em plena
expunção quanto ao formato, estando no ângulo superior dos umbrais da casa onde
residira a dona Carolina, cuja filha tinha o nome de Dulcinéia – segundo o
protótipo registro efetuado na pia batismal. Esta criatura acepcionava o hausto
cândido de todas as namoradas, notadamente quando estavam em cantoria de
alacridades! Sim, esta casa situava-se na Rua de São Pantaleão, logo após o
tracejamento do eixo cartesiano que dá acesso ao conhecido “Beco do Burgo”. O
tempo emoldurou o catastrofismo da falência humana e material!
Dona Carolina, a senhora sua mãe, já
estudava por três décadas consecutivas as eternas ausências existentes na
insólita geologia do campo santo. Dulcinéia, matrona da casa dos cinqüenta
anos, guardara consigo apenas o sorriso da perpétua meninice. Mesmo tendo
acesso aos mais requintados meios tecnológicos, não conseguia deter a sanha das
gelhas proliferantes, produtos resultantes da flacidez recrudescente das
células epidérmicas.
O moço, do antigo Ateneu Teixeira Mendes,
buscava um regresso obsecrando aos
pródromos cativantes de sua adolescência fenecida. Mesmo assim, nunca a
esqueceu um só momento. Contemplava-a todos os dias como guardião dos seus
sonhos, sobremodo com relação aos devaneios ocorrentes naquela ensancha de vida
primaveril!
Em princípio, tentava reiterar os mesmos
desideratos originais, como se estivesse vestido de passado, de um pretérito
que nunca deixara morrer, depois de um longo interregno de quatro décadas. Isso
tudo faz parte integrante de um inconformismo de perda irreparável, numa
premonição que pressagiava os exícios de um pretérito-mais-que-perfeito, em toda
sua extensão, a jazer inclemente na lápide álgida do tempo inexorável.
O filólogo Calístenes tinha por escopo
consultar um especialista da mais alta categoria, capaz de dirimir os enredos
dessa questão. De fato, essa imperiosa necessidade, de regressar ao decantado
passado, não era elucidada por nem um desses estudiosos da metempsicose.
-- Dr. Rubilota, caso possível, diga-me o
real motivo apresentado pelo Calístenes, quando sonha em regressar ao pórtico
localizado na lateralidade do vetusto Edifício Cayçara
-- Lister, assim sendo, posso responder-te
da seguinte maneira: nem sempre o pretérito é preservado em nossa mente como
relíquia indelével. Há, entretanto, pessoas que o guardam com acurada
solicitude, numa demonstração inequívoca e ressumbratória, expressando a
exponencialidade do inestimável valor sentimental.
Ninguém pode precisar a perda de tudo o
que servira de registro para um tempo reminiscencial, em que a mocidade fulgura
em píncaros jamais vislumbrados. Se não houvesse uma determinada precatação,
poderíamos ter a sensação de excídio fatal, redundando em descomunal vacuidade
estigmatizante.
-- Calístenes, o garanhão dos tempos de
colégio, almejaria posicionar-se no mesmo local, ainda referido, e,
possivelmente, tentaria, em outra ensancha, reiterar as ações perpetradas
naquele período de vida aventureira.
Em
tempo algum, teria o regalo da restauração, porquanto aquelas fisionomias já
estavam a sofrer o encarquilhamento da ação praticada pelo execrável tempo
deletério. Nesse comenos, precisaria recorrer aos elucubramentos tangíveis e
pertinentes a própria pele, encetando um tipo de carraspana ou reproche
salutar.
-- Disse-lhe que não se expusesse ao átimo
nostálgico, segundo preconizara Lister; pois, sofreria muito mais – em cabal
lancinância - caso não obtivesse as reações preconcebidas, com a finalidade de
apaziguamento reiterativo e constante do ígneo psicológico, sobremodo quando se
encontra em cizânia cumulativa!
Esses fantasmas viviam em sua mente, na
visceralidade do seu psicológico. Nesta manhã, após o decurso de quarenta e
três anos, Calístenes ostentava o desiderato onírico de reencontrar, nas
fisionomias do hoje, os perfis fenótipos das criaturas que lhe foram amorosas
no ontem. Isto tudo, sem maiores perplexidades, visava a compensação do que
fora dilacerado ao longo dos tempos de vivencia, experimentação e sofrência!
Logo, sem tergiversações, o malogro do
fado suscitou a inópia dos comenos. E, para má sorte do sonhador, ninguém
observou a sua presença! Todas as mulheres que passavam, sendo, umas mais
jovens; outras mais sazonalizadas, mas todas exibiam a crise da rejeição –
quase aguda -- ao estado de provectude avassaladora; embora a esperança
remanescente fosse a postremeira promessa de vidas, ainda, em estado de materialidade!
No final da tarde, somatorizou-se uma
lista de decepções em série, constituindo alhures o fantasmagórico álbum das
desilusões. De fato, esse estado caracterizado pelo sindrômico –
delírio-alucinatório, e que conseguia o onímodo no ato de abranger todas as
fisiologias orgânicas homeostáticas.
Ao ser traído pelos infensos nefandos, não
se deixou apostemar pelas mazelas geradas pelas disfunções das figuras
impregnadas em ambientes de fornicações tripudiantes!... Algures, dava a impressão de estar ansiando
por metas mais definitivas, anteriormente pré-estabelecidas, quanto ao
acepilhamento das atividades espirituais. Finalmente, deu-nos um susto, quando
nos disse o seguinte: neste interregno temporal, em que permaneci por longas
horas, tal qual fizera no passado, foi só para decepcioná-lo de vez, já que não
foi cortejado por nenhuma mulher, independentemente de quaisquer faixas
etárias. Destarte, expiou a probabilidade do suicídio, caso não houvesse a
intercessão imediata da Divina Providência na vida do sexagenário Calístenes.
Wilson Cerveira
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