sexta-feira, 24 de maio de 2013

A PALINGENESIA É A RESSUMBRAÇÃO DO ETERNO RETORNO


Calístenes encontrou-me em meio à penumbra, quando eu tentava localizar um número em plena expunção quanto ao formato, estando no ângulo superior dos umbrais da casa onde residira a dona Carolina, cuja filha tinha o nome de Dulcinéia – segundo o protótipo registro efetuado na pia batismal. Esta criatura acepcionava o hausto cândido de todas as namoradas, notadamente quando estavam em cantoria de alacridades! Sim, esta casa situava-se na Rua de São Pantaleão, logo após o tracejamento do eixo cartesiano que dá acesso ao conhecido “Beco do Burgo”. O tempo emoldurou o catastrofismo da falência humana e material!
     Dona Carolina, a senhora sua mãe, já estudava por três décadas consecutivas as eternas ausências existentes na insólita geologia do campo santo. Dulcinéia, matrona da casa dos cinqüenta anos, guardara consigo apenas o sorriso da perpétua meninice. Mesmo tendo acesso aos mais requintados meios tecnológicos, não conseguia deter a sanha das gelhas proliferantes, produtos resultantes da flacidez recrudescente das células epidérmicas.
     O moço, do antigo Ateneu Teixeira Mendes, buscava  um regresso obsecrando aos pródromos cativantes de sua adolescência fenecida. Mesmo assim, nunca a esqueceu um só momento. Contemplava-a todos os dias como guardião dos seus sonhos, sobremodo com relação aos devaneios ocorrentes naquela ensancha de vida primaveril!
     Em princípio, tentava reiterar os mesmos desideratos originais, como se estivesse vestido de passado, de um pretérito que nunca deixara morrer, depois de um longo interregno de quatro décadas. Isso tudo faz parte integrante de um inconformismo de perda irreparável, numa premonição que pressagiava os exícios de um pretérito-mais-que-perfeito, em toda sua extensão, a jazer inclemente na lápide álgida do tempo inexorável.
     O filólogo Calístenes tinha por escopo consultar um especialista da mais alta categoria, capaz de dirimir os enredos dessa questão. De fato, essa imperiosa necessidade, de regressar ao decantado passado, não era elucidada por nem um desses estudiosos da metempsicose.
     -- Dr. Rubilota, caso possível, diga-me o real motivo apresentado pelo Calístenes, quando sonha em regressar ao pórtico localizado na lateralidade do vetusto Edifício Cayçara
     -- Lister, assim sendo, posso responder-te da seguinte maneira: nem sempre o pretérito é preservado em nossa mente como relíquia indelével. Há, entretanto, pessoas que o guardam com acurada solicitude, numa demonstração inequívoca e ressumbratória, expressando a exponencialidade do inestimável valor sentimental.
     Ninguém pode precisar a perda de tudo o que servira de registro para um tempo reminiscencial, em que a mocidade fulgura em píncaros jamais vislumbrados. Se não houvesse uma determinada precatação, poderíamos ter a sensação de excídio fatal, redundando em descomunal vacuidade estigmatizante.
     -- Calístenes, o garanhão dos tempos de colégio, almejaria posicionar-se no mesmo local, ainda referido, e, possivelmente, tentaria, em outra ensancha, reiterar as ações perpetradas naquele período de vida aventureira.
     Em tempo algum, teria o regalo da restauração, porquanto aquelas fisionomias já estavam a sofrer o encarquilhamento da ação praticada pelo execrável tempo deletério. Nesse comenos, precisaria recorrer aos elucubramentos tangíveis e pertinentes a própria pele, encetando um tipo de carraspana ou reproche salutar.
    -- Disse-lhe que não se expusesse ao átimo nostálgico, segundo preconizara Lister; pois, sofreria muito mais – em cabal lancinância - caso não obtivesse as reações preconcebidas, com a finalidade de apaziguamento reiterativo e constante do ígneo psicológico, sobremodo quando se encontra em cizânia cumulativa!
     Esses fantasmas viviam em sua mente, na visceralidade do seu psicológico. Nesta manhã, após o decurso de quarenta e três anos, Calístenes ostentava o desiderato onírico de reencontrar, nas fisionomias do hoje, os perfis fenótipos das criaturas que lhe foram amorosas no ontem. Isto tudo, sem maiores perplexidades, visava a compensação do que fora dilacerado ao longo dos tempos de vivencia, experimentação e sofrência!
     Logo, sem tergiversações, o malogro do fado suscitou a inópia dos comenos. E, para má sorte do sonhador, ninguém observou a sua presença! Todas as mulheres que passavam, sendo, umas mais jovens; outras mais sazonalizadas, mas todas exibiam a crise da rejeição – quase aguda -- ao estado de provectude avassaladora; embora a esperança remanescente fosse a postremeira promessa de vidas, ainda, em estado de materialidade!
     No final da tarde, somatorizou-se uma lista de decepções em série, constituindo alhures o fantasmagórico álbum das desilusões. De fato, esse estado caracterizado pelo sindrômico – delírio-alucinatório, e que conseguia o onímodo no ato de abranger todas as fisiologias orgânicas homeostáticas.
     Ao ser traído pelos infensos nefandos, não se deixou apostemar pelas mazelas geradas pelas disfunções das figuras impregnadas em ambientes de fornicações tripudiantes!...  Algures, dava a impressão de estar ansiando por metas mais definitivas, anteriormente pré-estabelecidas, quanto ao acepilhamento das atividades espirituais. Finalmente, deu-nos um susto, quando nos disse o seguinte: neste interregno temporal, em que permaneci por longas horas, tal qual fizera no passado, foi só para decepcioná-lo de vez, já que não foi cortejado por nenhuma mulher, independentemente de quaisquer faixas etárias. Destarte, expiou a probabilidade do suicídio, caso não houvesse a intercessão imediata da Divina Providência na vida do sexagenário Calístenes.

                                     Wilson Cerveira

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