Onde
se encontra a verdadeira solidão?!... Será que está absconditada nas moléculas
de DNA que formam os genes, ou, nesse caso, cronificada, de modo
estigmatizante, nos cromossomos, sobremaneira, naqueles que ostentam algum tipo
bizarro de anomalia!
A enigmática solidão, com o passar
lancinante do tempo, pode fazer parte integrante das células, dos tecidos e
órgãos atinentes ao sistema orgânico. Também, essa megera – de etiologia
incognoscível, aparata localizar-se no extrínseco ou no intrínseco, ou, então,
em ambos os meios. E, de igual modo, urge estar inserida no isolamento das epidermes
em profusão.
É de bom alvitre exarar que, quando lhe
cortam o cordão umbilical, o ser humano, gregário por definição, fica
fisicamente sozinho, e assim segue até a morte, -- cujo silêncio absoluto
talvez caracterize nosso maior momento de solidão. Mas, agora, me vem à mente a
pergunta: o que é solidão? Ausência ou excesso de comunicação? Doença da
modernidade ou movimento constante de preservação?
Assim sendo, sem muitos cabalísticos, a
soledade pode se fazer presente nos dédalos dos lábios em renegamento constante; e, destarte,
deflagraria o desiderato incontinenti de ósculos ignescentes...
Também, sem hesitação, remanescem os
arcabouços laterais dos membros superiores e inferiores, -- em plena vacuidade
--, onde os abraços são elucubrados, mesmo estando a conviver com a ablação
inclemente de músculos, nervos, ossos e peles!
Zyrmeão vaticinou que a sua mulher –
Letícia, jamais permaneceu por mais de dez minutos sozinha: quer dizer, ela
nunca está somente consigo, com seus pensamentos, sonhos, preocupações e
esperanças. Deveras, a soledade, de modo paradoxal, far-se-á presente nas
atitudes de arrenegamento das prosódicas logopéias, onde bocas sem lábios, ou,
então, lábios sem boca; sem exceção, começam a prolatar, de modo tácito, um
adeus de eterna despedida!...
Agora, ela, essa terna criatura,
provavelmente, esqueceu como alguém vive em sua própria companhia, sem o
acompanhamento de outros.
Letícia enfatiza a existência de “pequenas
bugigangas tamanho-bolso enviando e recebendo mensagens”, e, decerto, não sendo
as únicas ferramentas das quais a criatura, e outras como ela, precisam para sobreviver
à arte de estar só.
O ato de sentir-se só, sempre sozinho,
infringe a condição que demonstra a imensa multidão de solitários. Tanto assim,
sem esgueiramentos, os inventores e vendedores de Walkman, a primeira bugiganga
móvel que permitiu “ouvir o mundo”.
Esses sujeitos sabiam que havia milhões de
pessoas nas ruas, e que, sem dilucidamentos plausíveis, execravam sua solidão
tão dolorosa e horrível; criaturas não apenas privadas de companhia, mas
sofrendo com sua ausência.
A soledade que percorre os espaços
preenchidos por multidões, em cabal dessentimento, ostentando, de igual
maneira, o fatídico. E, desse modo, perpetuam a descomunal soledade vivida em
parceria!...
Com a chegada da Internet, também esse
abismo poderia ser esquecido; ao menos a dor causada por ele poderia ser
suavizada. A companhia, perdida e desejada, aparentava ter agora retornado,
mesmo que por meio de telas em vez de portas, e em sua nova sofisticação eletrônica,
virtual: em uma forma na qual pessoas -- que estavam se arrastando para longe
dos tormentos da solidão-- encontraram um aprimoramento considerável na
desaparecida variedade face a face e mão a mão. Com a perícia de uma interação
face a face, amplamente esquecida, ou nunca aprendida, o que poderia ser um
revés da “conexão” virtual foi, dessa maneira, recebido como vantagem.
De fato, o que o Facebook, o My Space e
similares oferecem, atualmente, é o melhor de dois mundos... Ou assim, dão a
falaciosa impressão às pessoas, notadamente as que, mesmo ansiando
desesperadamente por companhia humana, se sentiam arrefecidas quando se
encontravam entre ela.
Ninguém conseguiu libertar-se dos
grilhões, principalmente os que decretam o ato de sentir-se só, se bem que se
encontrem especiosamente ladeados por afinidades sentimentais recíprocas.
Para começar, é preciso não estar sempre
sozinho. Um simples minuto – vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana
– é o que gastamos para apertar um botão e fazer, reiteradamente, companhia a
pessoas solitárias. Nesse mundo on-line ninguém está sempre distante. Todos
parecem estar constantemente ao alcance. E mesmo que ela ou ele acidentalmente
caiam no sono; deveras, existem outros – em número suficiente – para os quais
podemos enviar uma mensagem ou apenas um twitter, fazendo com que aquela
ausência temporária passe despercebida.
Desde os primórdios do orbe, vem-se a
demandar a defecção das sendas que aduzem ao zênite da pungência soliloquial!
Então, é necessário não impor o ritmo dessa solidão, carcomida megera, que
dilacera o enredo do mais lidimo sentimento, ainda existente neste cominador
planeta – Terra. Nesse caso, urge não infligir soledade na grande e
desnorteante mídia, sobretudo, abrangendo os seguintes meios: via internet,
telefones convencionais e celulares de diversos tipos – dos mais simples aos
mais requintados.
Em segundo lugar, é possível contatar
outras pessoas, randomicamente escolhidas, sem necessariamente encetar uma
comutação, de menor desiderato, que poderia tomar um curso não apreciado. O
contato pode ser quebrado ao primeiro sinal de uma direção indesejada; não há
risco, portanto, mas também não há necessidade de buscar desculpas, perdões e
mentiras; pois, um pequeno movimento de dedos pode ser o bastante. E, assim,
você não precisa ter medo de ficar sozinho, nem assumir o risco de ter sido
exposto aos desígnios de outras pessoas.
A tecnologia buscou, através da
virtualidade, meios falaciosos para escafeder-se da solidão; e, mesmo assim,
antinomicamente, tem recrudescido o número de pessoas solitárias. E, diante de
todos esses paradoxos, em quais posições remanescem os sonhos das noites
pretéritas e as ilusões dos prístinos?!...
Vivemos num mundo virtual, que não existe
como realidade, mas sim como potência ou faculdade. Este tipo de orbe é
possível; suscetível de se realizar; ultra-potencial! E, a despeito do que está
ocorrendo, você está menos disposto a comunicar-se com as pessoas reais em
proximidade imediata.
Em que pese os inúmeros aparatos
tecnológicos existentes, em dias hodiernos, a efígie humana não consegue
libertar-se do claustro da solidão, tanto a que se forma no intrínseco, como
também a que se localiza na perfunctoriedade da matéria.
Como é difícil administrar uma solidão
veterana, antes que se elucubre a dimensionalidade de suas imprevisíveis
consequências desairosas! E, todos, especiosamente, parecem estar ligados nas
redes de comunicação!... Mas, como ilação peremptória, as ilusões soçobram num
imane espaço, onde a solidão parece imperar vetorialmente, em todos os sentidos
e direções plausíveis!...
Wilson Cerveira
Todos nós precisamos de instantes de solidão.Entranhar-se nela é que é perigoso e doentio. É sabido que o homem é um ser social.
ResponderExcluirCaro Professor,
ResponderExcluirCom o avanço da sociedade moderna e o crescimento frenético das novas tecnologias, surge a falsa impressão de que os indivíduos não estão maios sozinhos, no entanto, sabe-se que o mesmo tem a companhia de uma máquina e de pessoas que na maioria das vezes desconhece; não sendo conhecedor de fato dos seus “amigos” é impossível estabelecer relações profundas, tato, cheiro, sons, fazem parte de um conjunto de requisitos que nos auxiliam no processo de conhecer o outro. Surge então a solidão, aquela massacrante, nesse caso, com uma nova “vestimenta”, onde o indivíduo não esta sozinho e ao mesmo tempo não tem a companhia de ninguém. Não sou inimiga da solidão, ao contrário, sou até defensora, desde que seja para nobres causas, como por exemplo, a auto avaliação, o auto conhecimento, para a reflexão de sentimentos, reavaliação de atitudes e comportamento. Sou inimiga da solidão forçada, onde as pessoas configuram-se como ilhas, fazendo analogia ao sentido etimológico da palavra, neste caso, substitui-se água por pessoas, e indivíduos solitários como porções de terra, cercadas de pessoas por todos os lados. Esse tipo de solidão, onde eu substituo o real pelo virtual pode ser extremamente prejudicial, uma vez que, enfraquece relações e as vezes as destroem sem deixar vestígios como se em momento algum tivessem existido.
Louvável seu artigo, traz a reflexões que levariam a discussões profundas sobre a temática abordada.
Claudiane.