O filoneismo sempre despertou profunda
inquietação, notadamente entre a maioria daquelas criaturas que já se
preocupavam com o inusitado, achando – quase sempre – que era o melhor dos
caminhos a percorrer!...
Admirador da linguagem oral, o filósofo Sócrates,
em seu apogeu elucubrático, considerava que somente o diálogo, a retórica, o
discurso, só a palavra falada estimulava o questionamento e a memória, os
únicos caminhos que conduziam ao conhecimento percuciente, à sapiência.
Timorava quanto ao comportamento dos jovens atenienses, sobremodo com relação
ao prosaísmo, advindo através da escrita e da leitura. E, dessa maneira,
deixariam de exercitar a memória e, como a palavra escrita não fala, perdessem
o habito de questionar. Sua mais conhecida diatribe contra a escrita está em
Fedro, de Platão, seu fiel seguidor. Ali, Sócrates diz que a escrita daria aos
discípulos “não a verdade, mas a aparência de verdade”. O grande filósofo
intuiu que a transição da linguagem oral para a escrita seria uma revolução.
Após dois milênios e meio, estamos à mercê
de outro tipo de transição revolucionária. Da cultura escrita para a digital,
há uma mudança de fundamento como não ocorre há milênios. A forma física que o
texto conseguiu alcançar num papiro de três milênios antes de Cristo ou numa
folha de papel da semana passada não é essencialmente distinta. Nos dois casos,
há disformes dessemelhanças de qualidade e clareza, mas é sempre tinta sobre
uma superfície maleável. Na era digital, numa mirabolância a toda prova, a
metamorfose é radical. Desse transformismo heteróclito, assoma o livro
eletrônico.
Existem centúrias que, depois da argila, do
papiro e do pergaminho, a humanidade transmite conhecimento no papel. Dos
livros manuscritos pelos monges medievais a pagina enviada por fax, era sempre
papel. Lentamente, escrita e leitura passaram a se dar através de telas de
vidro – mais propriamente de cristal liquido, de diodos emissores de luz.
Encetaram a sair livros para leitura em palmtop, ainda nos anos 90, quando já era
possível lê-los no computador e em laptop. Depois, vieram os smartphones. Por
fim, os tablets e os leitores eletrônicos, desses que acabam de chegar ao
mercado brasileiro: Kobo, Kindle, Google Play.
Nesta empedernida era do pós-papel, a
leitura, antes um ato solitário por excelência, está virando outra coisa. E
isso vai ser muito difícil para os misoneistas; pois, ao longo do tempo de
transformismo, esses indivíduos expiarão todas as repulsas da inadaptação e da
inaceitabilidade.
O Kindle, da Amazon, tem um dispositivo que
exibe os trechos do livro sublinhados por outros leitores. Informa até quantos
o fizeram. De fato, no devir, reitera-se que a leitura solitária seja comutada
por um tipo de espairecimento comunitário eletronicamente conectado. É o que se
vocaciona de “leituras sociais”.
Para o âmbito do novidadeirismo, que é uma
variante psicológica agindo como epidemia humana, já existem compêndios que
despertam a atenção, por trazerem trilha sonora, vídeos, fotografias e demais
parafernálias do mundo da eletronificação.
No continente europeu, deparar-nos-emos com
livros, sobremodo os de aventura, os quais ostentam auditivamente – gritos,
trovões, ventos uivantes – à medida que o leitor avança nas páginas.
O que mais contrista, de modo especifico, é
que até os segredos da leitura, antes indevassáveis na mente do leitor, agora
estão sendo desvendados. Igualmente, Amazon, Apple e Google espiam o leitor a
qualquer hora. Sabem quantas páginas foram lidas, o tempo consumido, os títulos
preferidos. Temos, por exemplo, a Barnes & Noble, a maior cadeia de
livrarias dos Estados Unidos, analisando dados colhidos pelo seu leitor
eletrônico, o Nook, descobriu que livros de não ficção são lidos de modo
intermitente. Os romances, não. Leitores de policiais são mais rápidos que os
de ficção literária. São informações, decerto, impensáveis no mundo do papel,
que desbravam hábitos de leitura e vão abastecer as editoras para atender ao
gosto do público.
Destarte, é muito complexo atender a todos
esses pré-requisitos de uma tecnologia avassaladora, sobremodo no momento da
ressumbração, entretanto, com tempo limitado de duração, tendendo para a
exiguidade. Esse tipo de técnica modernilizada não se detém no aspecto da permanência,
mas a grande lida reside na substituição constante.
Realmente, a imagem se exterioriza mostrando
todos os sutis traços dos contornos em relevo. Assim sendo, a tecnologia da
imagem elucubrada, em seu perfeccionismo ascendente, corrobora com o esteta,
dando-lhe condições ideais para o suscitamento alumbrático.
O revestimento externo da imagem – da mais
alta precisão – ressumbra peremptoriamente o factício, produto artificializado,
que é o rebuscamento ímpar do neófito inusitado.
O arcabouço do ícone, em dias hodiernos,
seduz a pujança do olhar escalavrado, porquanto aparata o irreal – no mais
apoteótico cume da delusão virtual – avocando as contundências elucubradas em
cabal vacuidade evagatória.
Quando a concepção visual se direcionar para
o interior da efígie, a tecnologia do hodiernismo pontificará, com todas as
contundências, num ressudamento de pormenores contidos nas diversas latências
da matéria.
Postremeiramente, a imagem da visão
vaticinadora e percuciente, acolhedora de todas as proeminências negativas ou
positivas, somente apresentará valimento, deveras, em tempo ladeado, abrangendo
um futuro próximo.
O que mais aterroriza, após tanto acuramento
artificioso, é que essas pseudo-lindas imagens tecnológicas, sem arremedo, podem
vir a sofrer um estiolamento abrupto, sem que haja meios para evitar os
descomunais catastrofismos, oriundos de uma cibernética tendenciosa, visando
violar os direitos de preservação dos continentes e conteúdos; das pessoas e
cousas desfrutáveis!...
Wilson Cerveira
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