A princípio, o
sentimento assoma no vurmo do frêmito. E, em seguida, vai, paulatinamente,
percorrendo as ínvias sendas dos arcabouços: anatômico e fisiológico. As
reações eferentes tomam novos vetoriais com relação às reações aferentes. Quem
se contunde, adrede, é o sujeito que nutre as lancinâncias aferidas a partir da
pressuposta colocação oracional – sub-repticiamente prolatada.
O retraimento da compelência lascivial
ocorre em detrimento da homeostase dos sistemas orgânicos. E, então, os pontos
de maior nevralgia vão sucumbindo, gradativamente, nos respectivos níveis de
suas energias de ativação. Ademais, todos nós temos inscrita no inconsciente
uma tragédia que ignoramos e que recuamos com horror, conforme o parecer do
psicanalista – Freud. E, assim sendo, como espectadores de uma tragédia grega,
além do horror, sentimos o prazer estético que advém da encenação teatral.
O impacto gerado pelo reprimido exprobra em
nome da família, da crença, dos regimentos ou estatutos sociais, perjúrios,
falcatruas, impressos documentais estabelecidos em cartórios, tais como: certidões,
contratos de casamento e outros adendos preconceituais normativos.
O ocultismo é a raiz obscura desse tipo
heteróclito de sentimento. Na maioria das vezes, ele é refratário no que
consiste, em tese, a sua transferência da data. É sempre procrastinado,
esperando o postremeiro comenos. E, quando promana – em derradeira instancia –
continua a aparatar vida meteórica latencial (de natureza palindrômica ou
recidival).
Por que desarticular os movimentos motores
da mandíbula, mesmo tendo consciência da frase omitida durante a formação de
uma logopéia, após ter sido cogitada por dilações consecutivas, há muito
reiteradas?!...
-- Qual a razão aparente de não assumir o
que fora dito espontaneamente? – Que motivo aduziu a uma possível palinódia, de
natureza especiosa, já que não existem normativas estabelecendo as trilhas de
um desiderato prístino?!...
Em se
tratando de volitivos, as causas estão distanciadas de seus basilares prismas,
pois aparatam falácias de diversas etiologias. De fato, dentro do ocultismo há
postergações sucessivas do suscetível, evitando com isso uma probabilística
ressumbratória. Caso haja assomamento, decerto, promanará uma retratação
inopinada, -- numa tentativa vã --, mas insofismável, e com a finalidade de elucubrar
o acirramento lúbrico. E, em demasia, todas as confutações serão exequidas,
numa experimentação frustrante de absconditar a madidez dos lábios aflorantes –
sem dimensões reais de abrangência das diversas áreas contíguas e grassantes,
-- tendo por instrumentos de referência os diferentes vetores contendo direções
e sentidos plausíveis.
Na compelência luxuriosa, o prazer advém
do gozo obtido por satisfazer o desejo proibido. Nesse caso, o espectador pode
fruir sentado em sua cadeira na plateia, de modo inconsciente, realizando --
através do eleito -- aquilo que lhe parece inexequível. Isto é a ilação do que
se denomina de catarse dos desejos inconscientes. Nesse caso, o efeito fatídico
é deflagrado no espectador, sobretudo quando experimenta, em apropinquações
sincrônicas, -- prazer e dor, gozo e culpa, horror e entusiasmo. Nessa
estrutura primitiva do desejo inconsciente: o filho mata o pai para ter acesso
à mãe, e é escarmentado com o autocegamento e o exílio.
Eluriano procedeu, ou foi agido, por todo
esse saber do qual não sabe. Esse saber não sabido é o estigma do saber do
“Inconsciente”, do qual o sujeito se defende, e essa rutilante defesa é o que
se chama de recalque.
Consoante, -- o pensador --, são três as
paixões fundamentais do homem: o amor, o ódio e a ignorância. Eluriano, o
energúmeno, é possuído pelos três ou mais! Destarte, o não querer saber é a
pior delas e aduz ao sujeito o seu próprio sucumbimento. Ele prossegue e
ressumbra que é o próprio triplo equívoco, em suas três dimensões: ao nascer,
ao matar e ao casar!...
Mas, em se tratando da charada da
esfinge, o que está em evidência é a questão inerente ao anelo do outro. De
onde eu vim? Como vim parar aqui neste mundo? – Eluriano interroga e prossegue
exarando o seguinte: Meus pais me quiseram? Desejaram que eu viesse?
Acolheram-me? O outro me deseja? Será que meus pais me desejaram? Qual o meu
lugar no desejo do outro? Tenho algum lugar nesse ambiente? Afinal, sou filho
do Amor, do Acaso ou da Morte?
O protraimento é uma questão de prolação
reticencial do sentimento absconditado no decurso do tempo de espera, sem que
seja evolada a fruição desiderata em quaisquer desses átimos abruptos!...
O provecto Eluriano tivera inúmeros
pesadelos, e, num desses momentos de cabal funebridade, encontrou no caminho a
“morte”, debruçada, miseravelmente, sob a carcaça apodrecida de um antigo
cipreste. Que figura lastimável apresentava, então! Escutando seu pranto, lhe
disse: “Megera traiçoeira, que choradeira toda é esta?” Ao erguer sua espectral
cachimônia, de modo paulatino, lobriguei a existência de pranto copioso a
descer de suas duas órbitas vazias. Seu sorriso desdenhoso de partida, que
dizem eterno, me pareceu apenas o esgar grotesco das faces golpeadas pela
desgraça! “De súbito, também pressentia que chegava para si o postremeiro
suspiro!” “A morte, arrostadamente, consigo mesma!...” Eis ao que meus olhos
incrédulos estavam assistindo! Ao lado dela, sob um monte de folhas perecidas,
vi negrejar a nesga adunca de sua outrora e tão esperada foice. Que lástima!
Agora, ali, estava convertida num pedaço inútil de ferro carcomido, que um
juntador de trastes atirou para a carroça, ostentando um sacrílego bocejo de
tédio suicida! Quando me voltei para essa megera execrável das gentes,
acreditei-a, então, finalmente acabada. Sua face, sempre sadiamente pálida,
agora trazia a lividez espectral dos mortos.
Para que concretizasse a sua plena
mortificação, -- Eluriano --, de repente, estava sob o jugo inclemente de uma
terrível e insuportável sede. Ele, sem poder dobrar o corpo, abaixou a cabeça
para beber um pouco de líquido refrescante, pois a água estava quase na linha
de sua boca. Esse precioso produto das reações químicas, contudo,
instantaneamente, lhe desceu até os pés, ao menor movimento do pescoço. Depois,
tomado por uma fome devastadora, estendeu o braço para alcançar os deliciosos frutos
que pendiam das árvores ao redor. Porém, quando quase tinha um deles nas mãos,
um forte vento ergueu a rama para o alto, tornando o fruto inatingível aos seus
curtos braços. Deste modo nequicial, Eluriano foi galardoado, alcançando a
imortalidade em completa tortura a que fora submetido ao chegar aos labirintos
ígneos do inferno!...
Wilson Cerveira
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