terça-feira, 6 de agosto de 2013

A IMANE LATÊNCIA DO SENTIMENTO PROTRAÍDO

    A princípio, o sentimento assoma no vurmo do frêmito. E, em seguida, vai, paulatinamente, percorrendo as ínvias sendas dos arcabouços: anatômico e fisiológico. As reações eferentes tomam novos vetoriais com relação às reações aferentes. Quem se contunde, adrede, é o sujeito que nutre as lancinâncias aferidas a partir da pressuposta colocação oracional – sub-repticiamente prolatada.
    O retraimento da compelência lascivial ocorre em detrimento da homeostase dos sistemas orgânicos. E, então, os pontos de maior nevralgia vão sucumbindo, gradativamente, nos respectivos níveis de suas energias de ativação. Ademais, todos nós temos inscrita no inconsciente uma tragédia que ignoramos e que recuamos com horror, conforme o parecer do psicanalista – Freud. E, assim sendo, como espectadores de uma tragédia grega, além do horror, sentimos o prazer estético que advém da encenação teatral.
    O impacto gerado pelo reprimido exprobra em nome da família, da crença, dos regimentos ou estatutos sociais, perjúrios, falcatruas, impressos documentais estabelecidos em cartórios, tais como: certidões, contratos de casamento e outros adendos preconceituais normativos.
    O ocultismo é a raiz obscura desse tipo heteróclito de sentimento. Na maioria das vezes, ele é refratário no que consiste, em tese, a sua transferência da data. É sempre procrastinado, esperando o postremeiro comenos. E, quando promana – em derradeira instancia – continua a aparatar vida meteórica latencial (de natureza palindrômica ou recidival).
    Por que desarticular os movimentos motores da mandíbula, mesmo tendo consciência da frase omitida durante a formação de uma logopéia, após ter sido cogitada por dilações consecutivas, há muito reiteradas?!...
     -- Qual a razão aparente de não assumir o que fora dito espontaneamente? – Que motivo aduziu a uma possível palinódia, de natureza especiosa, já que não existem normativas estabelecendo as trilhas de um desiderato prístino?!...
    Em se tratando de volitivos, as causas estão distanciadas de seus basilares prismas, pois aparatam falácias de diversas etiologias. De fato, dentro do ocultismo há postergações sucessivas do suscetível, evitando com isso uma probabilística ressumbratória. Caso haja assomamento, decerto, promanará uma retratação inopinada, -- numa tentativa vã --, mas insofismável, e com a finalidade de elucubrar o acirramento lúbrico. E, em demasia, todas as confutações serão exequidas, numa experimentação frustrante de absconditar a madidez dos lábios aflorantes – sem dimensões reais de abrangência das diversas áreas contíguas e grassantes, -- tendo por instrumentos de referência os diferentes vetores contendo direções e sentidos plausíveis.
     Na compelência luxuriosa, o prazer advém do gozo obtido por satisfazer o desejo proibido. Nesse caso, o espectador pode fruir sentado em sua cadeira na plateia, de modo inconsciente, realizando -- através do eleito -- aquilo que lhe parece inexequível. Isto é a ilação do que se denomina de catarse dos desejos inconscientes. Nesse caso, o efeito fatídico é deflagrado no espectador, sobretudo quando experimenta, em apropinquações sincrônicas, -- prazer e dor, gozo e culpa, horror e entusiasmo. Nessa estrutura primitiva do desejo inconsciente: o filho mata o pai para ter acesso à mãe, e é escarmentado com o autocegamento e o exílio.
     Eluriano procedeu, ou foi agido, por todo esse saber do qual não sabe. Esse saber não sabido é o estigma do saber do “Inconsciente”, do qual o sujeito se defende, e essa rutilante defesa é o que se chama de recalque.
    Consoante, -- o pensador --, são três as paixões fundamentais do homem: o amor, o ódio e a ignorância. Eluriano, o energúmeno, é possuído pelos três ou mais! Destarte, o não querer saber é a pior delas e aduz ao sujeito o seu próprio sucumbimento. Ele prossegue e ressumbra que é o próprio triplo equívoco, em suas três dimensões: ao nascer, ao matar e ao casar!...
      Mas, em se tratando da charada da esfinge, o que está em evidência é a questão inerente ao anelo do outro. De onde eu vim? Como vim parar aqui neste mundo? – Eluriano interroga e prossegue exarando o seguinte: Meus pais me quiseram? Desejaram que eu viesse? Acolheram-me? O outro me deseja? Será que meus pais me desejaram? Qual o meu lugar no desejo do outro? Tenho algum lugar nesse ambiente? Afinal, sou filho do Amor, do Acaso ou da Morte?
     O protraimento é uma questão de prolação reticencial do sentimento absconditado no decurso do tempo de espera, sem que seja evolada a fruição desiderata em quaisquer desses átimos abruptos!...
     O provecto Eluriano tivera inúmeros pesadelos, e, num desses momentos de cabal funebridade, encontrou no caminho a “morte”, debruçada, miseravelmente, sob a carcaça apodrecida de um antigo cipreste. Que figura lastimável apresentava, então! Escutando seu pranto, lhe disse: “Megera traiçoeira, que choradeira toda é esta?” Ao erguer sua espectral cachimônia, de modo paulatino, lobriguei a existência de pranto copioso a descer de suas duas órbitas vazias. Seu sorriso desdenhoso de partida, que dizem eterno, me pareceu apenas o esgar grotesco das faces golpeadas pela desgraça! “De súbito, também pressentia que chegava para si o postremeiro suspiro!” “A morte, arrostadamente, consigo mesma!...” Eis ao que meus olhos incrédulos estavam assistindo! Ao lado dela, sob um monte de folhas perecidas, vi negrejar a nesga adunca de sua outrora e tão esperada foice. Que lástima! Agora, ali, estava convertida num pedaço inútil de ferro carcomido, que um juntador de trastes atirou para a carroça, ostentando um sacrílego bocejo de tédio suicida! Quando me voltei para essa megera execrável das gentes, acreditei-a, então, finalmente acabada. Sua face, sempre sadiamente pálida, agora trazia a lividez espectral dos mortos.
     Para que concretizasse a sua plena mortificação, -- Eluriano --, de repente, estava sob o jugo inclemente de uma terrível e insuportável sede. Ele, sem poder dobrar o corpo, abaixou a cabeça para beber um pouco de líquido refrescante, pois a água estava quase na linha de sua boca. Esse precioso produto das reações químicas, contudo, instantaneamente, lhe desceu até os pés, ao menor movimento do pescoço. Depois, tomado por uma fome devastadora, estendeu  o braço para alcançar os deliciosos frutos que pendiam das árvores ao redor. Porém, quando quase tinha um deles nas mãos, um forte vento ergueu a rama para o alto, tornando o fruto inatingível aos seus curtos braços. Deste modo nequicial, Eluriano foi galardoado, alcançando a imortalidade em completa tortura a que fora submetido ao chegar aos labirintos ígneos do inferno!...

                                             Wilson Cerveira

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