sexta-feira, 30 de agosto de 2013

SIMULACROS DO MEFISTOFÉLICO


   
Santas Paulinas era o heterônimo de Perizeu, o homem que elucubrava o esfíngico, com o escopo de surdir, proliferativamente, a sua imagem, derivando-a, conforme as circunstâncias, como se as várias efígies fossem promanadas a partir de um serial de prismas díspares.
    Perizeu, de fato, era de uma polimatia impressionante! De maneira alumbrática, ergastulava o seu próprio ser, soçobrando-o no incognoscível. Nesse ínterim dedálico transfigurava-se numa luridez inumatória e num átimo cabalístico. Em noites de defecção soturna, lobrigavam-se visões espectrais a emanar eflúvios resultantes de épuras bacterianas jacentes. O ato de haurir, -- no vórtice cataclísmico--, gretava em direitura aos múltiplos direcionamentos vetoriais.
    Se alguém precisasse de um espírita, o polímata estaria aprestado, junto à cabeceira do tálamo, evocando os dogmas da doutrina do ínclito pai do “Espiritismo” – que é o conspícuo – Alan Kardec. Com as mãos postas sobre o sincipúcio do supliciado, rezava-lhe uma prece de paz anímica, indicando lenimento panacéico. Caso a pessoa se reanimasse, dar-lhe-ia um livro contando as prestimosidades consecutadas através dos exercícios das ciências espíritas.
          Em determinada madrugada, ouvira os gemidos altissonantes de uma vizinha, e, sem tartamudeios, fora atender-lhe solicitamente na condição de enfermeiro. Para tanto, indumentava-se de modo ebúrneo, com a finalidade de aplicar-lhe uma injeção por via intramuscular. No dia seguinte, punha-se na janela lateral da casa, onde habitava há muitos anos, a qual frontispiciava com a da vizinha – Carlitânia, a fim de perguntar-lhe se havia melhorado do distúrbio orgânico. E, dispensando sempre novos agrados, só se ouvia palavras de profunda gratidão, simbolizando o encetamento de uma inusitada amizade. Dessa maneira, sem maiores interpelativos, o seu grau de popularidade ia, pouco a pouco, neutralizando as mazelas da antipatia, sentimento despertado por aqueles que se nutriam, com voracidade, dos fluidos desairosos da invídia cronificada.
     O bruxo do conhecimento rendia-se às crendices de quaisquer etiologias, sobretudo às abusões mais distanciadas quanto ao tempo e seus respectivos locais de origem. Tudo o que se preconizava, por mais falacioso, servia-lhe de exortação. Deferenciava, com acuramento, aos pormenores dos fatos, rebuscando-os sob a forma de dissecação, sem que faltasse um único adendo salutar.
     O “Santas Paulinas” mexia em tudo. O sujeito era um lídimo factótum em todas as dimensões das cognosias. O placebo funcionava muito bem, mesmo dentro de sua inocuidade. Outrossim, pílulas de farinha surtiam efeitos desejados com relação a várias enfermidades. Representavam lídimas panacéias, pois curavam aparentemente todos os valetudinários, independendo dos males que os acometiam. A fórmula era sempre a mesma: farinha de trigo e alguns excipientes basilares imprescindíveis. E, desse jeito, o indivíduo, isto é, o tal bruxo da erudição – um veraz mágico – com relação ao saber tratar com as pessoas, exortando-as em períodos de cabal arrefecimento. E, destarte, conseguiria o beneplácito dessas criaturas, caso se candidatasse ao cargo de prefeito da cidade de Alcântara – MA. Os votos multiplicar-se-iam à medida que essas pílulas tomassem o direcionamento certo, chegando aos lugarejos mais distantes da sede.
    Usava de ardis sofisticados, transformando-os em plenos atos de dramaturgia impressionante, muito bem trabalhados. Quem o observasse de modo solícito, perceberia a suscetibilidade concernente a urdidura de suas inúmeras obras de arte. Os papéis simbolizavam o afeiçoado grau de afinidade para com as artes visuais, numa ascensão cabalística de primeiríssima grandeza!...
    Zirzeão, recebera duas concessões: uma carta de alforria e um indulto; pois fora escravo e prisioneiro – num somatorial líbrado --, ostentando sempre uma resistência aos excruciamentos expiados durante um interregno de, aproximadamente, meia centúria. Decerto, passara por vários holocaustos – numa propugnação de padecimentos comutativos. Aprendera, em companhia do Santas Paulinas, a representar muito bem, não perdendo pontos para dramaturgos famosos. A dedicação diuturna fazia-o cada vez mais perfeccionista quanto aos exercícios de carpimento e plangenciação. Simulacrava um delíquio derradeiro, dando a impressão de ser o postremeiro recurso telúrico, antes que houvesse a fúnebre manifestação das épulas bacterianas em processo açodado de deliquescência avassaladora.
    O estupendo Zirzeão sentia o esqueleto na mais requintada ratificação, denotando o peso dos anos no estentor de confrangência. Os exercícios teriam que aparatar recrudescimento constante, sendo ainda ligados à propriedade de imanência – uma constância intrínseca e alto arraigamento material!...
    Perizeu, esquipaticamente, parece ter dimanado das cinzas infectantes, já que, de maneira postremeira, demonstrava certo grau de exaustão. Fazia exercícios para reforçar a capacidade respiratória em pleno estado de exaustoramento. A musculatura e os nervos ainda respondiam com regularidade as singrações vigentes em todos os quadrantes corporais.
    Quem o visse a ensaiar no pátio do manicômio ficaria com a ideia de que, possivelmente, houvera acontecido um instante de inopinamento a toda prova de justiça mirabolante!
    Perizeu chorava e deblaterava com harmonia, e, a partir desse ínterim, passamos a perquiri-lo de perto, na auscultação ressumbratória do seu talento fulgurante.
    Santas Paulinas, que era o apelido de Perizeu, sobressaia muito mais quanto à divulgação exequida nos meios de ascendência publicitária. Dominava as malignidades do próprio Satanás, no momento em que exequia os rituais de magia negra. Locupletava o salão de velas pretas, antes que adentrasse ao ataque de catalepsia. Apresentava um ataúde, e, envolto ao corpo, um círculo labiríntico de um lúgubre silêncio sepulcral... Ao redor do esquife, sob o anteparo do catafalco, se faziam presentes as carpideiras, os sinos de dobres fúnebres e o planger merencório dos saxofones valsificantes!
    Perizeu, também, acumulava, -- tal qual Merlim (personagem volúvel e proteiforme, encarnação avant la lettre de uma  fantasmagoria barroca que procura aprender, no impossível presente da escrita, a passagem e a anamorfose das coisas e dos seres --, equivale a escrever sobre um objeto sempre em fuga, sobre um não-objeto que condena inevitavelmente a análise – presa num diabólico jogo de espelhos – a defrontar-se com um impasse. Merlim revela-se então como um significante flutuante à dimensão do próprio desejo, inesgotável por excelência, e cujo objeto se retira precisamente no momento em que pensamos, à semelhança de Tântalo, estar prestes a capturá-lo), os papéis de adivinho, profeta, mágico ou homem selvagem, o bruxo desmultiplicava as suas funções narrativas e simbólicas escapando, numa perturbante ambiguidade, a uma classificação tipológica que teríamos de esboçar em vão. Todavia, foi inegável que é na sua qualidade de mágico que passou à posteridade, sendo também enquanto tal que detém os poderes mais inquietantes. Liberto da temporalidade e do peso da gravidade, desloca-se sem qualquer dificuldade no espaço e torna o tempo imutável ou absolutamente reversível assumindo indiferentemente o rosto de uma criança, de um velho, de um jovem criado, de um valetudinário, de um horrível pastor ou de um ceifador.

    Perizeu, situado nos limiares entre a gnose a ficção, entre a teatralidade lúdica de um sujeito que se compraz ao assistir, em cabal melancolia, ao espetáculo de si mesmo, e, de igual modo, a dimensão de um saber oculto por detrás do invólucro da palavra e do corpo, Perizeu, - análogo a Merlim, não podia deixar de aparecer como uma personagem extremamente dúbia aos olhos da Igreja e do público.  

                                            Wilson Cerveira 

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