Santas Paulinas era o
heterônimo de Perizeu, o homem que elucubrava o esfíngico, com o escopo de
surdir, proliferativamente, a sua imagem, derivando-a, conforme as
circunstâncias, como se as várias efígies fossem promanadas a partir de um
serial de prismas díspares.
Perizeu, de fato, era de uma polimatia
impressionante! De maneira alumbrática, ergastulava o seu próprio ser,
soçobrando-o no incognoscível. Nesse ínterim dedálico transfigurava-se numa
luridez inumatória e num átimo cabalístico. Em noites de defecção soturna,
lobrigavam-se visões espectrais a emanar eflúvios resultantes de épuras
bacterianas jacentes. O ato de haurir, -- no vórtice cataclísmico--, gretava em
direitura aos múltiplos direcionamentos vetoriais.
Se alguém precisasse de um espírita, o
polímata estaria aprestado, junto à cabeceira do tálamo, evocando os dogmas da
doutrina do ínclito pai do “Espiritismo” – que é o conspícuo – Alan Kardec. Com
as mãos postas sobre o sincipúcio do supliciado, rezava-lhe uma prece de paz
anímica, indicando lenimento panacéico. Caso a pessoa se reanimasse, dar-lhe-ia
um livro contando as prestimosidades consecutadas através dos exercícios das
ciências espíritas.
Em determinada madrugada, ouvira os
gemidos altissonantes de uma vizinha, e, sem tartamudeios, fora atender-lhe
solicitamente na condição de enfermeiro. Para tanto, indumentava-se de modo
ebúrneo, com a finalidade de aplicar-lhe uma injeção por via intramuscular. No
dia seguinte, punha-se na janela lateral da casa, onde habitava há muitos anos,
a qual frontispiciava com a da vizinha – Carlitânia, a fim de perguntar-lhe se
havia melhorado do distúrbio orgânico. E, dispensando sempre novos agrados, só se
ouvia palavras de profunda gratidão, simbolizando o encetamento de uma
inusitada amizade. Dessa maneira, sem maiores interpelativos, o seu grau de
popularidade ia, pouco a pouco, neutralizando as mazelas da antipatia,
sentimento despertado por aqueles que se nutriam, com voracidade, dos fluidos
desairosos da invídia cronificada.
O bruxo do conhecimento rendia-se às
crendices de quaisquer etiologias, sobretudo às abusões mais distanciadas
quanto ao tempo e seus respectivos locais de origem. Tudo o que se preconizava,
por mais falacioso, servia-lhe de exortação. Deferenciava, com acuramento, aos
pormenores dos fatos, rebuscando-os sob a forma de dissecação, sem que faltasse
um único adendo salutar.
O “Santas Paulinas” mexia em tudo. O
sujeito era um lídimo factótum em todas as dimensões das cognosias. O placebo
funcionava muito bem, mesmo dentro de sua inocuidade. Outrossim, pílulas de
farinha surtiam efeitos desejados com relação a várias enfermidades.
Representavam lídimas panacéias, pois curavam aparentemente todos os valetudinários,
independendo dos males que os acometiam. A fórmula era sempre a mesma: farinha
de trigo e alguns excipientes basilares imprescindíveis. E, desse jeito, o
indivíduo, isto é, o tal bruxo da erudição – um veraz mágico – com relação ao
saber tratar com as pessoas, exortando-as em períodos de cabal arrefecimento.
E, destarte, conseguiria o beneplácito dessas criaturas, caso se candidatasse
ao cargo de prefeito da cidade de Alcântara – MA. Os votos multiplicar-se-iam à
medida que essas pílulas tomassem o direcionamento certo, chegando aos
lugarejos mais distantes da sede.
Usava de ardis sofisticados,
transformando-os em plenos atos de dramaturgia impressionante, muito bem
trabalhados. Quem o observasse de modo solícito, perceberia a suscetibilidade
concernente a urdidura de suas inúmeras obras de arte. Os papéis simbolizavam o
afeiçoado grau de afinidade para com as artes visuais, numa ascensão
cabalística de primeiríssima grandeza!...
Zirzeão, recebera duas concessões: uma
carta de alforria e um indulto; pois fora escravo e prisioneiro – num
somatorial líbrado --, ostentando sempre uma resistência aos excruciamentos
expiados durante um interregno de, aproximadamente, meia centúria. Decerto,
passara por vários holocaustos – numa propugnação de padecimentos comutativos.
Aprendera, em companhia do Santas Paulinas, a representar muito bem, não
perdendo pontos para dramaturgos famosos. A dedicação diuturna fazia-o cada vez
mais perfeccionista quanto aos exercícios de carpimento e plangenciação.
Simulacrava um delíquio derradeiro, dando a impressão de ser o postremeiro
recurso telúrico, antes que houvesse a fúnebre manifestação das épulas
bacterianas em processo açodado de deliquescência avassaladora.
O estupendo Zirzeão sentia o esqueleto na
mais requintada ratificação, denotando o peso dos anos no estentor de
confrangência. Os exercícios teriam que aparatar recrudescimento constante,
sendo ainda ligados à propriedade de imanência – uma constância intrínseca e
alto arraigamento material!...
Perizeu, esquipaticamente, parece ter
dimanado das cinzas infectantes, já que, de maneira postremeira, demonstrava
certo grau de exaustão. Fazia exercícios para reforçar a capacidade
respiratória em pleno estado de exaustoramento. A musculatura e os nervos ainda
respondiam com regularidade as singrações vigentes em todos os quadrantes
corporais.
Quem o visse a ensaiar no pátio do
manicômio ficaria com a ideia de que, possivelmente, houvera acontecido um
instante de inopinamento a toda prova de justiça mirabolante!
Perizeu chorava e deblaterava com harmonia,
e, a partir desse ínterim, passamos a perquiri-lo de perto, na auscultação
ressumbratória do seu talento fulgurante.
Santas Paulinas, que era o apelido de
Perizeu, sobressaia muito mais quanto à divulgação exequida nos meios de
ascendência publicitária. Dominava as malignidades do próprio Satanás, no
momento em que exequia os rituais de magia negra. Locupletava o salão de velas
pretas, antes que adentrasse ao ataque de catalepsia. Apresentava um ataúde, e,
envolto ao corpo, um círculo labiríntico de um lúgubre silêncio sepulcral... Ao
redor do esquife, sob o anteparo do catafalco, se faziam presentes as
carpideiras, os sinos de dobres fúnebres e o planger merencório dos saxofones
valsificantes!
Perizeu, também, acumulava, -- tal qual
Merlim (personagem volúvel e proteiforme, encarnação avant la lettre de
uma fantasmagoria barroca que procura
aprender, no impossível presente da escrita, a passagem e a anamorfose das
coisas e dos seres --, equivale a escrever sobre um objeto sempre em fuga,
sobre um não-objeto que condena inevitavelmente a análise – presa num diabólico
jogo de espelhos – a defrontar-se com um impasse. Merlim revela-se então como
um significante flutuante à dimensão do próprio desejo, inesgotável por
excelência, e cujo objeto se retira precisamente no momento em que pensamos, à
semelhança de Tântalo, estar prestes a capturá-lo), os papéis de adivinho,
profeta, mágico ou homem selvagem, o bruxo desmultiplicava as suas funções
narrativas e simbólicas escapando, numa perturbante ambiguidade, a uma
classificação tipológica que teríamos de esboçar em vão. Todavia, foi inegável
que é na sua qualidade de mágico que passou à posteridade, sendo também
enquanto tal que detém os poderes mais inquietantes. Liberto da temporalidade e
do peso da gravidade, desloca-se sem qualquer dificuldade no espaço e torna o
tempo imutável ou absolutamente reversível assumindo indiferentemente o rosto
de uma criança, de um velho, de um jovem criado, de um valetudinário, de um horrível
pastor ou de um ceifador.
Perizeu, situado nos limiares entre a gnose
a ficção, entre a teatralidade lúdica de um sujeito que se compraz ao assistir,
em cabal melancolia, ao espetáculo de si mesmo, e, de igual modo, a dimensão de
um saber oculto por detrás do invólucro da palavra e do corpo, Perizeu, -
análogo a Merlim, não podia deixar de aparecer como uma personagem extremamente
dúbia aos olhos da Igreja e do público.
Wilson Cerveira
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