terça-feira, 6 de agosto de 2013

A INOPINADA REGENERAÇÃO DE UM TAL SICÁRIO

     Setembrino Zaracuzzo, sem que vaticinasse o seu fadário, fora o nome que recebera na pia batismal, conforme certidão de nascimento exarada em cartório. O protótipo vocábulo sugerira o mês em que houvera nascido em uma pequena cidade da Itália.
     O encetamento de suas ações assassinas foi protelado por algum tempo. No hodierno, o prazer mórbido de matar, que é uma sensação patológica e exortativa, visto que é uma ação ressumbrada através de um desiderato maculado por atrocidades praticadas pelo tal sicário!...
     A primogênita pessoa, de caráter generosíssimo, a que ele resolveu exterminar, com requintes de máxima hediondez, foi a de seu patrão e pai adotivo – Nicomedes, engenheiro graduado pela academia militar das “Agulhas Negras”. De fato, fora a mesma persona grata, exatamente a que o resgatou do interior de um dos aparelhos sanitários do “Bar Copacabana”, na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, com indicação de tempo relacionado aos meados do século XX.
     Em princípio, o sujeito de má índole, -- o tal Zaracuzzo --, representava a lídima efígie teratogênica, com capacidade atroz de escalavrar a sua reverenciada mãe, caso a lobrigasse naquela ensancha de ódio infrene. 
     A partir daquele ínterim, em que assassinara cruelmente o homem que lhe protegia e proporcionava somente benfeitorias, poderia trucidar qualquer “ser” que atravessasse o seu impérvio itinerário, não importando o grau de sentimentalismo que unia a ambos, independentemente da existência ou não do parentesco de primeira, segundo, terceira, quarta, quinta, sexta, sétima, oitava, nona, décima escala etc.
     Também, a quantidade de dinheiro a ser recebida pelo protérvio matador profissional, estatuía o tipo de crime a ser perpetrado. O mais oneroso dos delitos seria, provavelmente, o do esfolamento completo, sequenciado pela  dissecação das vísceras e de todos os órgãos – sobremaneira os que seriam cremados e reconditados em terrenos repletos de sarças ígneas.
     O cilício, decerto, representava o castigo de primazia; pois, fazia-o como penitência ao horrendo parricida. Todo o dia ocorria no mínimo uma sessão, para que pudesse expiar os estigmas da nequicidade perpetrada, já que era decorrente de um desvairo súbito e inelucidável. Assim, sem razões plausíveis, eclodiu-lhe, de modo arrostado, a rejeição da imagem do homem generoso – seu conspícuo apaniguador – desde o instante em que o resgatou, quase morto, do desvão do vaso sanitário que antepara as dejeções diuturnas, e, destarte, ostentando, de modo simples, uma condição abjeta de escória!...
     As suas mais esdrúxulas auto-torturas iam recrudescendo com o passar do tempo, porquanto sofrera cominação por parte das leis inequânimes e réprobas, as quais são laboradas pela execrabilidade imanente dos iníquos e asquerosos doutores  da toga macabra.
     Assim, sem apelativos, o facínora Elesbão instituiu por conta própria uma nova lei – a pena de suplício, e, na omissão ominosa, infligiu-lhe, de modo ensimesmático, um escarmento probatório – requestando uma remissão do horrendo crime consecutado no prístino amaríssimo, equivalendo a um interregno imane de meia-centúria  de ratificações infalíveis!
     No seu septuagésimo natalício, em plena senectude, depois de cinco decênios, onde há exacerbação de vários crimes abomináveis, em que o sicário recebe do mandante Elisberto, a mais alvissareira proposta, visando, com exclusividade, o ceifamento de mais uma vida, e, desta feita, tratava-se do diplomata aposentado – dr. Jordeíldo Bargalhos, bastante reputado no extenso âmbito jornalístico. Doutoríssimo, como era cognominado na intimidade amistosa, exercera diversos cargos dignitários. Ademais, como completude intelectual, aparatava ser um polímata de altíssima envergadura.
     Ilou-se de que haveria de expiar, com percuciência acrimoniosa, as filigranas do imane nequicial que exequira contra a pessoa do seu maior amigo, abrangendo todos os tempos vetustos. Assim sendo, não gostaria que o revisse na dimensão incomum de uma esfinge elucubrática, e que seria projetada, de maneira meticulosa, no intrínseco arcabouço espectral de outra persona enigmática!...
     Num alumbramento insólito, resolvera desistir perante o postremeiro compromisso de morte a ser pressagiado, colimando a probabilidade de mais um ato executório!... Quando descortinou a fisionomia da próxima vítima, recolocou, pela primeiríssima vez, a arma na cintura; logo, sem hesitação, não seria ele o temerário, capaz de tirar a vida de uma pessoa que, segundo os seus vaticínios vislumbratórios, ultrapassara a casa dos cem anos, estando na iminência  de morte natural apropinquativa.    
                                       
                                            Wilson Cerveira

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