A interminável Margarida Silva veio de
Pinheiro do Maranhão, no segundo semestre de 1927, com apenas oito anos de
idade, em companhia do seu padrinho de batismo – Marcial Ramalho Marques, meu
avô paterno. E, ao chegar à cidade de Alcântara – MA, foi morar, a principio,
na “Rua de Baixo”, pois meu avô já houvera saído do Mirante, sobradinho
constituído por dois compartimentos superiores, fazendo parte integrante do
próprio sobrado que pertencia ao seu sogro – Antonino da Silva Guimarães,
ambiente em que ficara residindo desde dezembro de 1919, mês e ano,
respectivamente, em que contraíra matrimônio com minha avó paterna – Ana Guimarães Marques.
Margarida Silva, juntamente com meus avós
paternos, passara apenas seis anos nessa casa, acima referida. Outrossim, no
encetamento da década de 1930, meu avô paterno – Marcial – comprara uma pequena
casa, com extenso terreno, sobremodo com relação ao comprimento longitudinal,
situada na “Rua das Mercês”. Logo, sem pestanejar, ordenou aos operários que a
derrubasse completamente, e mandou construir uma nova, portando dimensões de
uma morada inteira, ostentando como coluna vertebral um longo varandão, que bilaterizava
a casa em duas alas: sendo a esquerda (de quem adentrava) que aparatava uma
sala, verossimilhante à anterior, e dois quartos sequenciais – mostrando certa
proporcionalidade quanto às medidas de comprimento e largura. Também, é de bom
alvitre que um dos quartos “o primeiríssimo” (após a sala do lado direito) era
o de nossa família; e, o segundo, mais próximo ao medial da varanda, se
localizava o de Margarida Silva, a bondosa Dadá, cognome que lhe dera desde a
puerícia.
Todos, em nossa casa, ou externamente,
passaram a chamá-la, de modo dissilábico e com prosódia oxítona – Magá –
heterônimo que recebera, inclusive, da senhora minha mãe – Nély Cerveira
Marques; exceto, com relação ao meu avô, preferindo denominá-la pelo nome
legitimo, contido no batistério e na certidão cartorial de nascimento –
Margarida Silva.
E, sem hesitação, prestava os serviços
atinentes a todas as atividades domésticas. Era, realmente, um ícone
cognominado factótum, sendo de grandeza ímpar, pois, ela obedecia todas as
ordens emanadas dos lábios do meu avô guerreiro, cujo nome representava em sua
semântica latina – “marcialis” – o “deus da guerra”, o “deus bélico”.
O velho Marcial, meu avô querido, era,
deveras, farto quanto à aquisição de alimentos. Se, pela manhã, passasse pela
sua “Casa de Comércio”, o vendedor de peixes – de muitas variedades e tamanhos,
não oscilaria em comprar-lhe ao menos três quilos. Caso, no turno vespertino,
vislumbrasse o homem que negociava camarões de cor branca e graúdos, não
hesitaria em vocacioná-lo, imediatamente, a fim de comprar-lhe, no mínimo 2kg
de camarões – da melhor espécie. E, assim sendo, azafamava a minha Dadá,
banindo-lhe as acrimônias do terrível binômio: ócio e tedio. Destarte, sem
alternativa, ia aumentando suas horas de trabalho, quase diariamente, não
importando domingos e feriados.
Margarida Silva era o braço e a perna
direita do meu avô – Marcial, estando sempre disposta para fazer-lhe tudo, a
qualquer momento, sem lamúrias! Ouvia-lhe todos os lamentos e solicitações,
conquanto tivesse de interromper o próprio sono, para chamá-lo às duas horas da
madrugada. A sua voz reverberava no silêncio denso da noite, reiterando a
mesmíssima expressão: meu padrinho, meu padrinho!..., dizia ela, de modo
perseverante, está na hora de abandonar a cadeira de lona, e ir para o
quarto!...
E, três horas depois, às cinco horas em
ponto, ainda estremunhada, regressava ao varandão, indo, sem hesitação, em
direitura à porta do seu quarto, para recidivar o mesmo gesto quanto
soqueamento realizado na aldraba, vocacionando, com altissonância, o que ele
representava para ela – no momento em que exarava o vocábulo: padrinho,
padrinho, padrinho!..., está na hora de acordar, pois a pêndula acabou de
badalar registrando, pontualmente, cinco horas! Naquele átimo, estaria a
providenciar o seu aprontamento, para que ele pudesse sair, no máximo, às
6h:30min, rumando em direção à “Casa de Comércio”, e lá executasse as
atividades inerentes aos seus negócios, atendendo as
necessidades prementes de suas clientelas: real e espectral.
“Quando se deu o meu nascimento,
precisamente no dia vinte e cinco de dezembro de mil novecentos e cinquenta e
três”, Margarida Silva, aquela que eu chamaria de Dadá, ostentava a faixa
etária de trinta e quatro anos. Nesse tempo, reunia boa disposição e energia
suficiente, com o escopo de auxiliar os trabalhos de minha mãe – Nély Cerveira
Marques, notadamente quando saía para prestar, na qualidade de Professora
Normalista, o grandioso serviço magisterial, que é o de ministrar
conhecimentos.
Tudo o que eu dizia: “me dá isto, isso ou
aquilo”, estava sempre pronta para oferecer-me, demonstrando lidimamente uma
generosidade impressionante, que é uma qualidade humana raríssima nestes
agrurosos dias hodiernos.
Também, é inolvidável alvitrar a sua prestabilidade
em grau máximo. Sendo assim, não sabia dizer “não”, caso lhe pedissem algum
favor. Estava sempre preparada para dizer “sim”, satisfazendo as necessidades
dos que careciam de suas prestimosidades.
Haverá sempre a plangência de sua partida para
a eternidade, mesmo estando ao lado do Pai Celestial. Outrossim, o adeus da
perpétua despedida de Margarida Silva, a interminável “Dadá” deu-se no dia dois
de fevereiro de dois mil e quatorze, aos noventa e quatro anos, numa
melancólica manhã de domingo pranteante; e, destarte, sucumbindo sobre nós, que
éramos, reciprocamente, os seus queridos admiradores, o manto cinéreo de um
macambúzio, lancinante e perene carpimento!...
Wilson Cerveira
Sempre que um ente querido se vai, morremos um pouco, pois uma parte de nós se vai com aquele que nos deixou. São lembranças de uma vida que se vão.
ResponderExcluirCarlos H. G. Medeiros
Vidas que vão, vidas que ficam. A natureza humana sempre se renovando e construindo os belos dias.
ResponderExcluirLuís Carvalho.