sábado, 17 de maio de 2014

O NECROLÓGIO DE DADÁ

    A interminável Margarida Silva veio de Pinheiro do Maranhão, no segundo semestre de 1927, com apenas oito anos de idade, em companhia do seu padrinho de batismo – Marcial Ramalho Marques, meu avô paterno. E, ao chegar à cidade de Alcântara – MA, foi morar, a principio, na “Rua de Baixo”, pois meu avô já houvera saído do Mirante, sobradinho constituído por dois compartimentos superiores, fazendo parte integrante do próprio sobrado que pertencia ao seu sogro – Antonino da Silva Guimarães, ambiente em que ficara residindo desde dezembro de 1919, mês e ano, respectivamente, em que contraíra matrimônio com minha avó paterna – Ana Guimarães Marques.
    Margarida Silva, juntamente com meus avós paternos, passara apenas seis anos nessa casa, acima referida. Outrossim, no encetamento da década de 1930, meu avô paterno – Marcial – comprara uma pequena casa, com extenso terreno, sobremodo com relação ao comprimento longitudinal, situada na “Rua das Mercês”. Logo, sem pestanejar, ordenou aos operários que a derrubasse completamente, e mandou construir uma nova, portando dimensões de uma morada inteira, ostentando como coluna vertebral um longo varandão, que bilaterizava a casa em duas alas: sendo a esquerda (de quem adentrava) que aparatava uma sala, verossimilhante à anterior, e dois quartos sequenciais – mostrando certa proporcionalidade quanto às medidas de comprimento e largura. Também, é de bom alvitre que um dos quartos “o primeiríssimo” (após a sala do lado direito) era o de nossa família; e, o segundo, mais próximo ao medial da varanda, se localizava o de Margarida Silva, a bondosa Dadá, cognome que lhe dera desde a puerícia.
    Todos, em nossa casa, ou externamente, passaram a chamá-la, de modo dissilábico e com prosódia oxítona – Magá – heterônimo que recebera, inclusive, da senhora minha mãe – Nély Cerveira Marques; exceto, com relação ao meu avô, preferindo denominá-la pelo nome legitimo, contido no batistério e na certidão cartorial de nascimento – Margarida Silva.
    E, sem hesitação, prestava os serviços atinentes a todas as atividades domésticas. Era, realmente, um ícone cognominado factótum, sendo de grandeza ímpar, pois, ela obedecia todas as ordens emanadas dos lábios do meu avô guerreiro, cujo nome representava em sua semântica latina – “marcialis” – o “deus da guerra”, o “deus bélico”.
    O velho Marcial, meu avô querido, era, deveras, farto quanto à aquisição de alimentos. Se, pela manhã, passasse pela sua “Casa de Comércio”, o vendedor de peixes – de muitas variedades e tamanhos, não oscilaria em comprar-lhe ao menos três quilos. Caso, no turno vespertino, vislumbrasse o homem que negociava camarões de cor branca e graúdos, não hesitaria em vocacioná-lo, imediatamente, a fim de comprar-lhe, no mínimo 2kg de camarões – da melhor espécie. E, assim sendo, azafamava a minha Dadá, banindo-lhe as acrimônias do terrível binômio: ócio e tedio. Destarte, sem alternativa, ia aumentando suas horas de trabalho, quase diariamente, não importando domingos e feriados.
     Margarida Silva era o braço e a perna direita do meu avô – Marcial, estando sempre disposta para fazer-lhe tudo, a qualquer momento, sem lamúrias! Ouvia-lhe todos os lamentos e solicitações, conquanto tivesse de interromper o próprio sono, para chamá-lo às duas horas da madrugada. A sua voz reverberava no silêncio denso da noite, reiterando a mesmíssima expressão: meu padrinho, meu padrinho!..., dizia ela, de modo perseverante, está na hora de abandonar a cadeira de lona, e ir para o quarto!...
     E, três horas depois, às cinco horas em ponto, ainda estremunhada, regressava ao varandão, indo, sem hesitação, em direitura à porta do seu quarto, para recidivar o mesmo gesto quanto soqueamento realizado na aldraba, vocacionando, com altissonância, o que ele representava para ela – no momento em que exarava o vocábulo: padrinho, padrinho, padrinho!..., está na hora de acordar, pois a pêndula acabou de badalar registrando, pontualmente, cinco horas! Naquele átimo, estaria a providenciar o seu aprontamento, para que ele pudesse sair, no máximo, às 6h:30min, rumando em direção à “Casa de Comércio”, e lá executasse as atividades inerentes aos seus negócios, atendendo  as  necessidades prementes de suas clientelas: real e espectral.
     “Quando se deu o meu nascimento, precisamente no dia vinte e cinco de dezembro de mil novecentos e cinquenta e três”, Margarida Silva, aquela que eu chamaria de Dadá, ostentava a faixa etária de trinta e quatro anos. Nesse tempo, reunia boa disposição e energia suficiente, com o escopo de auxiliar os trabalhos de minha mãe – Nély Cerveira Marques, notadamente quando saía para prestar, na qualidade de Professora Normalista, o grandioso serviço magisterial, que é o de ministrar conhecimentos.
     Tudo o que eu dizia: “me dá isto, isso ou aquilo”, estava sempre pronta para oferecer-me, demonstrando lidimamente uma generosidade impressionante, que é uma qualidade humana raríssima nestes agrurosos dias hodiernos.
     Também, é inolvidável alvitrar a sua prestabilidade em grau máximo. Sendo assim, não sabia dizer “não”, caso lhe pedissem algum favor. Estava sempre preparada para dizer “sim”, satisfazendo as necessidades dos que careciam de suas prestimosidades.

     Haverá sempre a plangência de sua partida para a eternidade, mesmo estando ao lado do Pai Celestial. Outrossim, o adeus da perpétua despedida de Margarida Silva, a interminável “Dadá” deu-se no dia dois de fevereiro de dois mil e quatorze, aos noventa e quatro anos, numa melancólica manhã de domingo pranteante; e, destarte, sucumbindo sobre nós, que éramos, reciprocamente, os seus queridos admiradores, o manto cinéreo de um macambúzio, lancinante e perene carpimento!...

                                                       Wilson Cerveira 

2 comentários:

  1. Anônimo19/5/14

    Sempre que um ente querido se vai, morremos um pouco, pois uma parte de nós se vai com aquele que nos deixou. São lembranças de uma vida que se vão.

    Carlos H. G. Medeiros

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  2. Anônimo4/8/14

    Vidas que vão, vidas que ficam. A natureza humana sempre se renovando e construindo os belos dias.

    Luís Carvalho.

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