segunda-feira, 7 de julho de 2014

CHANE, A GATA LABIRÍNTICA -- SEGUNDA PARTE

    É de bom alvitre exarar que, com especificidade aos horários de ouvir músicas clássicas famosas, a bichane se posiciona galhardamente na cadeira, ostentando a cabeça, de forma proeminente, localizada no espaço situado no meio que serve de separação às suas duas patas anteriores, dando-nos a especiosa impressão de estar audindo o sequenciar das notas musicais, sobretudo as que se reestruturam harmonicamente, no preciso átimo em que se predispõem, embevecidamente, no interregno seletivo das tessituras!
    Chane confuta o infenso sedutor, de maneira sorrelfa, quando presencia abruptamente o desfilar vertiginoso de um solerte ratinho de botica – de natureza altamente fugitiva, aparatando apenas poucos dias de nascido!...
    O faro de Chane, a cabalística gata, é tão aguçado quanto à sua sensória visual?!... Deveras, busca, ainda, rastros de pessoas da família que passaram alguns dias em nossa casa, nestes dias dedicados aos festejos juninos. À socapa, vai rastreando os pontos trajetoriais de maior incidência, notadamente com relação ao virtual trecho de detectação emergente!
    Caso a gata esfíngica vaticine a presença de alguma coisa estranha; com certeza, arranhará o terço médio da porta do quarto de dormir, esperando que alguém tome as devidas providências de abri-la imediatamente! Amiúde, reiterará todo seu pragmático ritual, reconduzindo os aguçados instintos, convergindo-os em direitura ao ponto cerne, que é o timoneiro basilar de suas tresloucadas artimanhas!
    A bichane, em suas peregrinações diuturnas, vai consecutivas vezes ao “Mirante”, como se obedecesse, de forma exatorial, ao passo cronometrador das circunstâncias inopinadas, sobremodo quando eximidas de quaisquer cerimoniais de cerceamento peremptório!...
     A gata Chane, esfíngica de nascença, deflagra o seu adentramento ao quarto, e dorme, de modo cabalístico, acocorada junto aos pés da dona Gláucya, usufruindo do espaço final da própria cama, que ostenta um insinuante estofo confortável.
    Para conflagrar os minutos de defecção, durante as ausências proporcionadas por nós todos – os proprietários da casa, ela se aloja sobre as mesas – menor ou maior – para que, de tocaia, possa examinar a certa distância (em comprimento e altura) alguns pequenos insetos ruflantes, e que costumam pousar sobre os alimentos e utensílios, estritamente pessoais, mediante as regras estabelecidas para o trinômio: higiene, polidez e etiqueta.
    Num suspirar de percuciente hesitação, imagino-a sempre da mesma maneira que a vi em suas primícias. Realmente, a Chane tem um faro verossimilhante ao Canis familiaris, ostentando, também, um adestramento a toda prova!
     Se alguém adentra à nossa casa, a enigmática Chaninha sofre uma baita metamorfose, chegando a ostentar ares de onça – sua parenta ancestral – e, concomitante, exterioriza o seu asco; e, como meio de protesto, busca um local esconso, no qual é capaz de permanecer longas horas, em estado taciturno, debaixo de quaisquer objetos esdrúxulos, evitando, definitivamente, um possível contato inesperado com a pele dessas excêntricas criaturas!

    E, então, se alguém nesse átimo inopinado, se atreve ao ato de aproximação com a bichane; logo se surpreende com o felídeo!... Arrostadamente, caso isso aconteça, assistiremos a um gládio sem precedentes, uma contenda abrangendo a misteriosa dupla – irracional x racional, numa exibição guerreira, tendo por êmulos os elementos: defesa e ataque, ataque e defesa, num revezamento de equiparada concomitância!...

                                     Wilson Cerveira

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