Há felinos que se adaptam ao banho de água
morna, ao passo que outros – bastante ariscos, jamais se acostumariam com tais
experimentos térmicos! De antemão, sabemos que os gatos, independentemente de
suas variedades, preferem limpar-se de modo idiossincrásico, usando a própria
língua, e, em seguida, passando-a vagarosamente entre os pelos, recolhendo-os,
de maneira alinhada, nas faces e interfaces corporais.
Os representantes da família Felidae, de
modo generalizado, ostentam solicitudes diversificadas quanto ao grau de
preservação de suas imunidades corporais!... Quando são chamados nominalmente,
atendem aos vocativos dos seus donos, demonstrando certa pontualidade nas horas
que se apropinquam aos seus hábitos alimentares, hídricos, hipnóticos e de
acendramentos.
Os felinos, sobremaneira os gatos,
esquadrinham os ingredientes que compõem suas primazias gustativas. Caso não
haja outra opção de comida; quiçá menos favorável ao paladar, eles aguardam o
átimo inerente ao estado de maior saciedade orgânica. E, então, como realce,
surde o obsoleto aforismo: “o lídimo tempero da comida é a fome”. Assim sendo,
esses animais domésticos acompanham os passos dos seus preceptores, indo e
voltando através de linhas poligonais que descrevem os quatro cantos da casa,
num indicativo recrudescente de requestamento quanto ao local onde se encontra
o prato de comida, abrangendo, com precisão, o limite diametral do espécime
corporal referente.
Chane, a gata labiríntica, prioriza alguns
alimentos, tais como: patê com sabor de peixe, carne branca sem espinha,
sardinha em conserva, couro de frango assado (riquíssimo em colesterol), geléia
com sabor de chocolate – do tipo Danette –, e não aceitando outra essência como
referencial comutativo. Há, também, uma ração de sua primazia, que é a
granulada -- com gosto olfativo de peixe -- aparatando o rótulo da marca –
Whiskas!
Além do mais, a Chane tem preferência
pelo creme-de-leite “Parmalat”. Possivelmente, caso fosse educada desde as suas
primícias alimentares, ad-rogaria cremes e pastas com outros sabores;
porventura, ainda não experimentados pelo paladar humano.
A Bichane, que é o seu heterônimo
dualístico, não busca solércias em momentos peremptórios. Articula, em filtrado silêncio, o tempo de
espera e, concomitantemente, protagoniza o ínterim de adentramento em cena
constituída por uma insólita especificidade. Não há temeridades em seu
comportamento! Transmite a impressão categórica de ter recebido e assimilado os
regulamentos recentes do plausível aparato educacional. Desarma o seu próprio pulo
imprevisto em direção à mesa; principalmente, quando a toalha recobre o
madeirame, deixando-a pronta no que concerne ao recebimento de pratos, ta
lheres, guardanapos e demais apetrechos de guarnecimento para os utensílios de
travessa e seus respectivos anteparos basilares.
Chane, num heteroclitismo a toda prova,
posiciona-se com galhardia, mantendo uma postura retilínea, e ficando,
mais-do-que-perfilada, por algum tempo ao redor da mesa central, -- cercada de
cadeiras por todos os lados –, obiciando-lhe quaisquer inopinados impelimentos!
Permanece à cata do alimento que lhe será oferecido, como se obedecesse ao
ritmar dos compassos, os quais exerceriam em seu organismo os meios propícios
de recepção dos nutrientes necessários à manutenção de sua sobrevivência, tendo
por regulador orquestral o imprescindível reflexo condicionado, que é o maior
maestro de todas as homeostases que se processam nas fisiologias específicas
dos órgãos entronizados quanto ao dinamismo corpóreo!
A educação que Chane, a gata labiríntica,
recebera desde o átimo em que fora parida, permitiu-lhe que houvesse a presença
diuturna de uma indumentária e de seus respectivos anexos, com o propósito de
velar-lhe a epiderme, estendendo as nominativas e específicas vestes a partir
das extremidades das patas até o terço médio da porção superior da cachimônia,
que é a região denominada de sincipúcio.
É surpreendente perlustrar o corpo da
esfíngica Chane. Em cada pata existe uma pequena bota de tecido lanoso a
absconditar uma meia curtíssima cognominada de soquete devido a baixa alcançada
nas lateralidades dos pés. Para cobrir-lhe o dorso desnudo – desde a base do
pescoço até a estremadura inferior, situada nas apropinquações da cauda, --
adaptou-se um colete cilindrado portando inúmeros botões na região do
baixo-ventre. Na divisão anatômica localizada entre a cabeça e o tórax,
inseriu-se uma gravata borboleta de aspecto chamativo quanto à combinação de
cores diferentes nos entrecruzamentos meândricos do próprio tecido, mas
guardando certa proporcionalidade compatível com as tonalidades dos pelos
exibidos pela cabalística bichane. Tudo nela se descortina de modo a oferecer
um criptograma de percuciente enigmatismo. A certa distância, ainda em cabal
penumbra, lobriga-se uma murça a proteger-lhe o cerne sincipucial; e, logo
abaixo, vislumbra-se um óculo de lentes escuras sustentadas por um aro de
plastificação empedernida. Como substrato, forrando-lhe o espaço destinado ao
repouso, existe a metragem correspondente a uma diminuta toalha de feltro com
bordas costuradas e franjadas, -- ostentando algumas fímbrias alternantes,
dando ao conjunto uma qualificação de opulência somática!
Deveras, Chane se acostumara com todas as
peças atinentes ao vestuário pomposo; tanto que, em contrapartida, “mia”
copiosamente, quando se tenta tirar-lhe as peças de roupa que lhe envolvem o
tegumento, numa descrição minuciosa e paramental representativa do que se evoca
ao utilizar a expressão blandiciosa e enfática: “Chane, a gata labiríntica!”.
Wilson Cerveira
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