terça-feira, 15 de julho de 2014

CHANE, A GATA LABIRÍNTICA -- TERCEIRA PARTE

     Há felinos que se adaptam ao banho de água morna, ao passo que outros – bastante ariscos, jamais se acostumariam com tais experimentos térmicos! De antemão, sabemos que os gatos, independentemente de suas variedades, preferem limpar-se de modo idiossincrásico, usando a própria língua, e, em seguida, passando-a vagarosamente entre os pelos, recolhendo-os, de maneira alinhada, nas faces e interfaces corporais.
     Os representantes da família Felidae, de modo generalizado, ostentam solicitudes diversificadas quanto ao grau de preservação de suas imunidades corporais!... Quando são chamados nominalmente, atendem aos vocativos dos seus donos, demonstrando certa pontualidade nas horas que se apropinquam aos seus hábitos alimentares, hídricos, hipnóticos e de acendramentos.
      Os felinos, sobremaneira os gatos, esquadrinham os ingredientes que compõem suas primazias gustativas. Caso não haja outra opção de comida; quiçá menos favorável ao paladar, eles aguardam o átimo inerente ao estado de maior saciedade orgânica. E, então, como realce, surde o obsoleto aforismo: “o lídimo tempero da comida é a fome”. Assim sendo, esses animais domésticos acompanham os passos dos seus preceptores, indo e voltando através de linhas poligonais que descrevem os quatro cantos da casa, num indicativo recrudescente de requestamento quanto ao local onde se encontra o prato de comida, abrangendo, com precisão, o limite diametral do espécime corporal referente.
     Chane, a gata labiríntica, prioriza alguns alimentos, tais como: patê com sabor de peixe, carne branca sem espinha, sardinha em conserva, couro de frango assado (riquíssimo em colesterol), geléia com sabor de chocolate – do tipo Danette –, e não aceitando outra essência como referencial comutativo. Há, também, uma ração de sua primazia, que é a granulada -- com gosto olfativo de peixe -- aparatando o rótulo da marca – Whiskas!
      Além do mais, a Chane tem preferência pelo creme-de-leite “Parmalat”. Possivelmente, caso fosse educada desde as suas primícias alimentares, ad-rogaria cremes e pastas com outros sabores; porventura, ainda não experimentados pelo paladar humano.
     A Bichane, que é o seu heterônimo dualístico, não busca solércias em momentos peremptórios.  Articula, em filtrado silêncio, o tempo de espera e, concomitantemente, protagoniza o ínterim de adentramento em cena constituída por uma insólita especificidade. Não há temeridades em seu comportamento! Transmite a impressão categórica de ter recebido e assimilado os regulamentos recentes do plausível aparato educacional. Desarma o seu próprio pulo imprevisto em direção à mesa; principalmente, quando a toalha recobre o madeirame, deixando-a pronta no que concerne ao recebimento de pratos, ta lheres, guardanapos e demais apetrechos de guarnecimento para os utensílios de travessa e seus respectivos anteparos basilares.
    Chane, num heteroclitismo a toda prova, posiciona-se com galhardia, mantendo uma postura retilínea, e ficando, mais-do-que-perfilada, por algum tempo ao redor da mesa central, -- cercada de cadeiras por todos os lados –, obiciando-lhe quaisquer inopinados impelimentos! Permanece à cata do alimento que lhe será oferecido, como se obedecesse ao ritmar dos compassos, os quais exerceriam em seu organismo os meios propícios de recepção dos nutrientes necessários à manutenção de sua sobrevivência, tendo por regulador orquestral o imprescindível reflexo condicionado, que é o maior maestro de todas as homeostases que se processam nas fisiologias específicas dos órgãos entronizados quanto ao dinamismo corpóreo!
     A educação que Chane, a gata labiríntica, recebera desde o átimo em que fora parida, permitiu-lhe que houvesse a presença diuturna de uma indumentária e de seus respectivos anexos, com o propósito de velar-lhe a epiderme, estendendo as nominativas e específicas vestes a partir das extremidades das patas até o terço médio da porção superior da cachimônia, que é a região denominada de sincipúcio.
     É surpreendente perlustrar o corpo da esfíngica Chane. Em cada pata existe uma pequena bota de tecido lanoso a absconditar uma meia curtíssima cognominada de soquete devido a baixa alcançada nas lateralidades dos pés. Para cobrir-lhe o dorso desnudo – desde a base do pescoço até a estremadura inferior, situada nas apropinquações da cauda, -- adaptou-se um colete cilindrado portando inúmeros botões na região do baixo-ventre. Na divisão anatômica localizada entre a cabeça e o tórax, inseriu-se uma gravata borboleta de aspecto chamativo quanto à combinação de cores diferentes nos entrecruzamentos meândricos do próprio tecido, mas guardando certa proporcionalidade compatível com as tonalidades dos pelos exibidos pela cabalística bichane. Tudo nela se descortina de modo a oferecer um criptograma de percuciente enigmatismo. A certa distância, ainda em cabal penumbra, lobriga-se uma murça a proteger-lhe o cerne sincipucial; e, logo abaixo, vislumbra-se um óculo de lentes escuras sustentadas por um aro de plastificação empedernida. Como substrato, forrando-lhe o espaço destinado ao repouso, existe a metragem correspondente a uma diminuta toalha de feltro com bordas costuradas e franjadas, -- ostentando algumas fímbrias alternantes, dando ao conjunto uma qualificação de opulência somática!

     Deveras, Chane se acostumara com todas as peças atinentes ao vestuário pomposo; tanto que, em contrapartida, “mia” copiosamente, quando se tenta tirar-lhe as peças de roupa que lhe envolvem o tegumento, numa descrição minuciosa e paramental representativa do que se evoca ao utilizar a expressão blandiciosa e enfática: “Chane, a gata labiríntica!”.

                                       Wilson Cerveira

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