Genivaldo devaneara,
desde a fase pueril, com a possibilidade de celebrar o seu septuagésimo
natalício, e, concomitantemente, o período concernente aos trinta e cinco anos
de vida funcional. E, logo que adentrou ao mercado de trabalho, em que pese a
coarctação da pecúnia que lhe fora imposta, conseguira com muito sacrifício
amealhar uma reserva condizente ao ato de adquirir o imprescindível. Em
princípio, sem maiores hesitações, agradaria a todos os convidados igualmente,
sem as preferenciais exceções.
Recostado no espaldar da cadeira de vime, o
motorista sempre sonhava com aquele momento apoteótico e repleto de epinícios
inimagináveis. Porém, não sabia o que a ferrenha destinação, à socapa, ia,
pouco a pouco, lhe desfechando de modo inopinadamente nefasto.
De maneira despercebida, começou a
apresentar certa predileção obsessiva pela garoupa, isto é, a nota de cem
reais. A princípio, dava uma pseudo-impressão de que estivesse a demonstrar
reações fóbicas com relação às pequenas distâncias. Tanto assim, ele se
esgueirava das pessoas que residiam em áreas circunvizinhas ao “Posto Leste de
Táxi”, onde trabalhava há mais de vinte anos.
De fato, o lesto Genivaldo, sem titubear,
desvencilhou-se dos intrusos que vinham, sorrateiramente, obiciando-lhe as
sendas multivariegadas – já atendentes à imperviabilidade de percursos
forjados. Desde então, passava a divagar, com espaços maiores e distâncias
quilométricas, o que seria a concretude dessa grande utopia!...
O motorista – Genivaldo – também apresentava
primazias no que concernia ao uso exacerbado das grandezas cinéticas:
velocidade e aceleração. Há muito que se sentia dono do volante, não medindo os
riscos que corria em situações em que experimentava uma ultrapassagem perigosa.
Não media esforços nem prudências, quando dispunha dos auxílios simultâneos da
embreagem e do acelerador, ambos sob os domínios dos seus pés, numa atitude
cabalística de comprovada insensatez. Deveras, ele delirava com a aceleração –
como se estivesse num estado percuciente de patologia a toda prova; e, mesmo
assim, posicionando-se como vanguardista, superando todos os concorrentes de
uma desvairada corrida automotobilística.
Nesses últimos anos, obsedou-se pelas
corridas equivalentes a cem reais. De fato, detestava pequenas distâncias, que,
aparentemente, simbolizavam parâmetros infensos quanto aos possíveis
indicadores: velocidade, aceleração e estipêndio.
Recentemente, fez reiterar o sonho que
tivera na infância – o de comemorar concomitantemente: setenta anos de vida
física, e trinta e cinco, exercendo a função de motorista, sendo legalmente
habilitada para a tarefa escolhida por ele próprio – no desumano mercado de
trabalho.
Quinze dias antes de seu aniversario –
único que pretendera festejar – fora chamado por três bandidos, no “Próprio
posto Leste de Táxi”, onde trabalhava por tempo indeterminado durante as vinte
e quatro horas, para que os levasse em direção ao Olho d’Água. Sendo assim, não
vacilou em aceitar a proposta, mesmo sendo de modo incauto. Ao chegar ao local
– amplamente deserto – fora recepcionado, de modo criminoso, por mais três bandidos
que estavam reconditados nas sarças ao derredor, perfazendo o número de seis
escroques.
Não tiveram tempo suficiente de esforlar-lhe
a pele, já que a flagelação deixara-o hospitalizado durante um período de, aproximadamente,
trinta dias na UTI do Hospital São Domingos, no setor especializado em reparos
de epiderme, conforme as técnicas aplicadas pela cirurgia plástica.
A família do Genivaldo, após exaustivo
trabalho e dispêndio financeiro, tinha por objetivo a confecção dos convites
apergaminhados. De repente, após a distribuição de mais de trezentos invites,
-- a tristeza preconizada em detrimento do fatídico --, tomou conta do espaço
destinado à atmosfera febricitante do hipotético evento malogrado.
Ao receber alta do hospital, providenciou,
com premência, uma assistência psicológica, pois os estigmas traumáticos eram
percucientes, atingindo-lhe de permeio os pontos nevrálgicos do psicossomático.
A equipe médica formada de: psiquiatra, psicólogo,
psicopedagogo, farmacêuticos, enfermeiros etc, recebeu-o com aprazimento na
primeira sala do corredor da ala esquerda. Ele contou para os profissionais o
que ocorrera com a sua pessoa naquele dia, em que buscava, em cabal contumácia,
atender ao seu ego, pois estaria mais uma vez diante da cédula de sua preferência
obsessiva – a de cem reais.
Em seguida, o psiquiatra – Teotônio, sem
maiores perplexidades, fez questão de submetê-lo ao teste das demais notas pecuniárias,
obedecendo a ordem decrescente. Dessa forma, apresentou-lhe, de começo, a
garoupa (... e ele sorriu); em seguida, a onça (momento em que perdeu e expressão
sorridente); no instante do mico-leão-dourado, (a sisudez tomou-lhe conta do
rosto em pergaminho); quando chegou a vez da arara (sentiu a ocorrência inopinada
de uma demudação plena); por último, no átimo da imagem da tartaruga-marinha (ele
entortou, de modo enfesado, o lado esquerdo da face e uma parte lateral do lábio
correspondente, dando a especiosidade de uma colapsal trombose). E foi assim,
desse modo horripilante, que a sina traçou-lhe a vereda macabra, alijando de sua
mente, -- para sempre --, o tresvario da comemoração atinente à visionária data
de programação festiva!...
Wilson Cerveira
Mais um texto talhado com pitadas de realidade cotidiana. Um grande abraço Wilson.
ResponderExcluirCarlos Henriques Guimarães Medeiros