domingo, 23 de junho de 2013

O CASTIGO DA PEÇONHA NO INÓCULO

    Há frases pandas, enfunadas – lídimos relicários – no mais acendrado fastígio (abrangendo o continente e o conteúdo), gerando acepilhadas logopéias, onde o sentimento perflui os vasos de pequeno, médio e grosso calibre, quando neles veiculam sangue venoso e arterial, contendo percentuais significativos de carboxi-hemoglobina e oxi-hemoglobina.
    A rejeição tem a sua etiologia descrita, principalmente quando se trata de um determinado comportamento esquipático, em que, na trajetória, -- mesmo em absoluto silencio sepulcral – pode conter as centelhas de uma vetusta sanha infrene, tendo por colimador imprescindível o extermínio fulminante. E, de fato, a ilação dar-se-á, sem perplexidade, no átimo exatório e determinante da extrema necessidade de vindita com relação ao companheiro infenso!...
   A nau capitânea, por mais redundante, prossegue na expectativa de ressurgimento da madidez do sêmen, como se o corpo de sazonalidade fosse todo um deserto – sem oásis – à espera angustiante de uma chuva bastante postergada.
    O desiderato da reminiscência está à mercê das circunstancias, porquanto emerge do inóculo hermético, com finalidade precípua de remanescer absconditado na peçonha, ou, então, se afasta da virulência, à sorrelfa, para sopitar, desesperadamente, tendo por basicidade a resina renitente do suplício estentórico e interminável.
    É de natureza ambígua esse descomunal escarmento, já que não se sabe, com certeza, a direitura a ser tomada pelo elemento transitório, sobremodo quando demanda – por desprazer desditoso – o seu inferno astral, escolhendo a peçonha objurgatória ou o inóculo, cabalmente, soçobrado.
    Às vezes, por infortúnio da sina, a penitência da peçonha, no inóculo, atinge somente um dos digladiadores atinentes ao desiderato. Ao passo que, sem dilucidações plausíveis, o outro, -- que é o maior causador da tumefação deflagratória dos anexos prepuciais, exime-se da sua conivente imputabilidade.
    Não se concebe a senda real da destinação do fluxo, podendo partir da peçonha para o inóculo, ou, vice-versa, egressando da imersão, para – em direitura – chegar à essência da substancia tóxica. Dessa forma, a morte colapsal do ser está, geralmente, presa a dois ergástulos – um, indicando emersão; o outro, submersão!...
    O cautério da peçonha pode ocorrer na extrinsicidade do contamínio, sendo labirínticas as encruzilhadas das horizontalidades e verticalidades a serem referendadas como pontos basilares de partida ou de chegada. E, nessa hesitação constante, não seremos capazes de localizar, com exatitude, o imprescindível ancoradouro.
    Quem tangencia algum ponto cabalístico existente na trajetória, jamais pode se esquivar dele. A obsessão contumaz passa a comandar todos os impulsos – tanto os externos quanto os internos, determinando um cipoal de amarras inacabáveis.
    É, realmente, algo viscoso e virulento, tomando conta de todas as probabilísticas proporcionais vigentes. Neste caso, não se percebe a dimensão do masmorral. E, quanto ao desiderato de eclodir do ponto em que fora encontrado, redimensiona-se a inusitada paragem das reticências de intersecção curvilínea.
    Não há mistifório pior do que o que fora extralocalizado, tendo por colimador centros fugazes, estabelecendo, em outras condições antagônicas, a reversibilidade dos comportamentos periféricos.
    A perfunctoriedade se faz presente à medida que outros fatores redargúem, expressivamente, o mais alto rigor de profligação, sobretudo em se tratando da impossibilidade de reagir a óbices impertérritos; também, na similitude pinacular atinente a meros átimos fortuitos.
     Deveras, não se continha diante do mastro, onde estava sentada a belíssima-- Espanca, que era a esperança meteórica da lidima presença – dissera, em cabal tacitez, o exímio analista – Saturnino.
    Sem maiores alardeamentos, a soturnidade não permitia que Espanca vislumbrasse a caixa cabalística, que era uma reptação à sua própria existência, pois ressumbraria as raízes amaríssimas do padecimento contristador, banindo-lhe as probabilidades de dormitar em um interregno estabelecido.
    No interior dessa caixa esfíngica, havia a umbria fenotípica de outra criatura – a própria Cabala, que era a sua maior concorrente. Sim, era uma linda mulher (trazendo um tipo fatal de manobra secreta) e quase tão bela quanto a mais venusta das deusas. Seus olhos eram azuis como o mais límpido céu e de sua boca vermelha e úmida partia um hálito fresco e perfumado. Sua pele era macia como o mais bonito dos veludos, e, recobrindo-a por inteiro, havia ainda uma delicada penugem, que lembrava em tudo a maciez da casca do pêssego. Seus membros, por sua vez, eram delicadamente proporcionados, tendo sido exilada deles à força, em proveito da graça. À frente do peito da deslumbrante criatura, lobrigavam-se dois pomos, os quais ostentavam leveza – ao toque, ao mesmo tempo macios e firmes, coroando-os ainda, num requinte de perfeição, com duas delicadas protuberâncias, que recordavam duas pequenas cerejas.
    Suas curvas eram perfeitas. De cada flanco do corpo desciam duas linhas curvas voltadas para dentro, expandindo-se somente à altura da cintura para dar lugar a um estonteante panorama, tendo ao centro um triângulo hermético, que guardava dentro de si todos os segredos da vida e de sua procriação.
    Amiúde, a extasiante Cabala hesitou se abria ou não a fantástica caixa. Mas, depois, depositando o precioso objeto ao lado do travesseiro, adormeceu percucientemente. E, então, sonhou que dentro dela saíam, como por mágica, cavalos alados da cor do mar e aves luminosas de diversos tons esmeraldinos. Dos bicos prateados das gigantescas aves, com certeza, originava-se uma canção de magnífica beleza, que a enterneceu até o âmago mais profundo da alma. Homens e mulheres amplexavam-se desnudos, em pleno ar, ao som desta cantiga inebriante, misturando-se àquelas criaturas -- de tal modo, que pareciam ter asas como elas.
    Despertando com aquele devaneio mirífico, Cabala estendeu a mão imediatamente para o seu presente. Não podendo mais conter o seu desejo, ergueu a tampa numa volúpia insana de curiosidade que lhe pôs na espinha um arrepio gelado.
     Nem bem ergueu um pouquinho a tampa dourada, Cabala sentiu-a ser arrebatada das mãos, caindo ao chão, longe da cama. Assustada, ainda assim, manteve o objeto preso entre as mãos. Então, ela viu escafeder de dentro da caixa algo a principio sem forma. Parecia que todos os ventos do mundo se escapavam desordenadamente dali, na pressa da fuga. Incontinenti, um deles tomou a forma de uma caveira volátil, parecendo toda feita de cristal e de vento. Tomando uma dimensão estarrecedora, o escanifrado anatômico apropinquou seu rosto rútilo da face da pobre moça, que fremia de medo. Podia sentir na fisionomia o bafo mortalmente gelado que passava por entre os dentes de gelo, completamente arreganhados, do horrendo esqueleto.   
    Por alguns instantes, aquele espectro macabro a examinou com suas órbitas vazias, esquadrinhando-a sempre com seu bizarro sorriso de vidro. Depois seus maxilares bateram reiteradas vezes, um de encontro ao outro, aumentando cada vez mais o ritmo a um ponto tal que ela somente podia lobrigar aquelas fileiras diáfanas de dentes, martelando-se uns aos outros,  e parecendo inelutável que se fariam em pedaços diante de seus olhos atônitos.
     Algo parecido a uma gargalhada escapava por entre os rápidos intervalos das batidas dos maxilares, que ela não sabia precisar se era uma risada de escárnio ou um lamento de dor. E, destarte, Cabala estava prestes a desmaiar, quando o esqueleto foi se tornando gasoso outra vez, transformando-se num grande e gélido vapor que fugiu pela janela do quarto, perdendo-se no mundo.
    Depois surgiram vários rostos deformados, cobertos de pústulas, que se erguiam da caixa como se fossem o retrato horrendo da enfermidade sinistra. Depois de assoprarem sobre seu rosto o bafo doentio das febres renitentes, arremessaram-se também pela janela atrás das primeiras, finalmente libertas. Dentre os fantasmas que escaparam da caixa cabalística, Cabala teve o desgosto de ver personificados todos os vícios que viriam a acometer no futuro a alma humana.

                                                         Wilson Cerveira



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