sábado, 15 de junho de 2013

SENTIMENTO PASSIONAL

    Donde promana “Éolo”, com a sanha aterrorizante?!... Vem de longínquas plagas, varrendo mares e continentes! Ninguém é capaz de ressumbrar a etiologia desse sentimento voraz – de caráter passional. Não há como expender justificativas plausíveis, posto que estejamos perante desideratos inexpugnáveis!...
    Conquanto busquemos a etimologia vocabular do radical “pathus”, em sua essência basilar, significando doença; e, no caso do ego, um transtorno psicológico labiríntico e de natureza enigmática. Não existem meios de conter o seu assomamento abrupto, uma vez que procede como se fosse uma loba faminta, ostentando o fastígio da voracidade infrene.
    Deveras, o sentimento passional não oferece resistência ao protagonista da ação verbal, por mais que apresente um cerne refratário, repleto de numerosas amarras respaldantes. Assim, as cercanias avançam, açodadamente, em direção à nau capitânea, em cabal estado de ignescência lúbrica!...
    Esse tipo bizarro de sentimento – de dificílimo controle – aduz a veredas cabalísticas e suspensas, onde a esfinge redesenha a potencialidade do exequível probabilístico. E, quando a síndrome palindrômica, nesse ínterim, se abate sobre o expugnado, exiciando-o peremptoriamente; é preciso obsecrar a égide da Divina Providência, sobremaneira no que tange ao hediondo despenhadeiro que se apropínqua e se apodera, aos poucos, de sua matéria em combalimento retrogradante.
    O passionalismo, na mais acendrada acepção, sempre fora desbravador em toda sua percuciência perquiridora. É, de fato, um exército psicológico determinista e comprometedor quanto ao ato de arrasar ou ser arrasado, mesmo estando em campo minado, no qual o entrevero infenso – em plena refrega, demande um comportamento nefando – aparatando um gládio pinacular de cabal jugulamento!
    Expender a exação do lídimo desiderato, antes que seja tarde; neste dia, onde, nem tudo o que reluz é ouro; e o fatídico aparate a prova maior da cominuição dos ossos, resultante sinistra de um sentimento passional!...
    E, em plena soturnidade, reassoma a frase pranteal: - Onde estais que não redarguis ao pungente vocativo do teu mestre e analista das variâncias do comportamento humano, -- Dr. Cursier.
    Para que as obliterações fossem contidas, houve uma proposição enigmática. Neste átimo, vamos confabular – em pleno silencio – para avaliar o quanto de ininteligível mantemos sob forma de protraimento, -- dissera o preeminente psicólogo.
    O sentimento – que tem tendência ao patológico – surde, abruptamente, e toma multidirecionalidades no que concerne ao alvo de propelência. E, nesse ínterim, predestina-se o passional em sanha infrene, ora ascendendo o eixo das ordenadas e abscissas, ora retrogradando nos pontos de vórtices invertidos nas trajetórias de ignescências sentimentais patológicas.
    Geralmente, o sentimento passional é um ato de desespero unilateral. De modo indubitável, um dos envolventes, -- o mais obsedado --, dará cabo ao próprio viver atormentado!...
    Perácio e Gertrudes já se conheciam há bastante tempo. Ambos haviam fechado contrato com outros pares, constituindo grupos de análises combinatórias complexas e díspares. De igual maneira, é de bom alvitre exarar que este tipo de sentimento, -- antinômico e heteróclito --, lacera com iracúndia os ditames e os selos de uma convivência social de cunho especioso!
    Perácio, o sofredor inveterado, recebia os fluxos nefastos de uma paixão conflagratória de percuciente repercussão, que, na tentativa de hálito mantenedor, respirava o remanescente oxigênio haurido pelas lobas – em estado vesânico – quando experimentavam a sanha dos mais compulsivos desejos infrenes.
    Gertrudes, após ser ciliciada pelo ex-marido Jerônimo, estava a desvencilhar-se das amarras escarmentosas e demais desilusões, produtos resultantes dos desencontros remanescidos, através de vivências tediosas, e que ocorreram inexplicavelmente em seu primeiro matrimônio.
     O estonteante Perácio, o maior experimentador das farsas humanas, surpreendera-se quando a viu indiferente naquela tarde de sábado, no derradeiro crepúsculo do mês de setembro, quando ele contraíra as raias insanas cruéis da paixão! Tal qual contamínio grassador, não mais conseguia desligar-se mentalmente da senhorinha – Gertrudes. E, a partir daquele instante, não conseguia mais esquecê-la por um segundo, pois a sua imagem estava sempre presente em seu subconsciente estertorado.
    O corpo da senhorinha Gertrudes estava tomado por inúmeras equimoses. Mesmo diante das torturas enfrentadas, o seu corpo exalava arrebatamentos! Não havia como deter as propelências dos sentimentos lancinantes. Deveras, ela egressava de um casamento impactual, que ainda ressumava os lídimos estigmas psicossomáticos. Havia, também, lacerações dos anexos da sua genitália externa. Igualmente, optara erroneamente ao escolher Jerônimo – na qualidade de seu protótipo marido. Realmente, esse sujeito alardeava bastante a desabridez, notadamente nos momentos em que a ginástica copulatória acrobática se fazia necessária. Somente assim, conseguia fruir, em pleno balido, a ereção máxima do phalo incandescente.
    A senhora Gertrudes pronunciara, de maneira tácita, a palavra amor, aleatoriamente, como se ainda estivesse assistindo ao estado de madidez do monte-de-vênus. E, ainda, mantinha o vocábulo amor, em êxtase cabal, como se fora a solução plausível para o amainamento dos mais contundentes sentimentos de deflagração!...
    Perácio, após varias devassas sentimentais, começou a persuadir-se de que era amado, carinhosamente, por Gertrudes. E, assim sendo, não titubeou em comutar São Luís pelo Rio de Janeiro, pois queria acompanhá-la, embora deixasse o seu emprego de engenharia sucumbir no boléu da salsugem. Assim sendo, ao chegar na “Cidade Maravilhosa”, não conseguiu pôr as mãos sobre o ombro da amada – Gertrudes; muito menos andar de mãos dadas, braços entrelaçados, envolvendo-lhe a cintura... Todas as vezes que surgia uma ensancha de aproximação epidérmica, ela procurava se abster das blandícies oferecidas pelo enamorado. Destarte, o ribombástico Perácio, -- o grande apaixonado--, continha o seu clamor desesperado, proveniente de uma paixão ardente, a qual, sem a mínima condição de pulso, excedia a mera probabilidade de contenção. A cada instante, o personagem se via mais afastado da realidade mundana. Dava a impressão de que ele estava ali, naquele restaurante, usufruindo apenas a qualificação de gaiato. Em determinado átimo, ressumbrou um comportamento de quem estava alucinado diante de uma situação psicológica insuportável!
    Infelizmente, Gertrudes não fora educada nem tampouco apresentava inclinações genéticas suficientes, com o escopo de perscrutar, acuradamente, pessoas sensíveis e chegadas ao pranto copioso. Quantas vezes!... Muitas foram as lágrimas derramadas pelo Perácio. Verteu-as, galhardamente, de modo tácito, recolhendo-as no rosário recôndito do seu acendrado sentimentalismo. Talvez, buscasse, de uma forma ou de outra, evasão ao estado aflitivo que o atormentava diuturnamente. Nesse caso, a sua preocupação estava centrada no sentimento passional, o qual o adquirira, de maneira randômica, com propendências ao que se denomina de proibido!...
    Perácio tornou-se o principal alvo do sentimento mais arrasador, e que sempre reinou no orbe, que é a paixão e seus arrebatamentos!... Esse sentimento, de fato, não ostenta limites; pelo contrario, cega todas as possibilidades de saída, uma vez que a obsessão-- por ele gerada-- é grave, gravíssima, em todos os quadrantes elucubráticos vislumbratórios.
     Gertrudes parecia indiferente às atitudes do Perácio, durante a sua estada no Rio de Janeiro. Ela, sem titubear, tomava para si o dessentimento soturno. Ninguém mais o queria, nesse ínterim, já que se sentia combalido ante os percalços que enfrentara ao longo dos anos.
    Para matar-lhe todas as vontades, desfilou em sua frente, de modo desabrido, com o Temístocles. Decerto, fora uma maneira rústica de torturá-lo ainda mais, convidando-o, indiretamente, para o chamado – “voo do suicida” – um soçobro fatal no âmbito do enigma desesperador, perdendo, concomitantemente, o corpo e a alma.
    Deveras, Perácio não esperou por mais tempo, visto que não aguentava mais as acrimônias proporcionadas pela Gertrudes. E, pouco a pouco, ele fora se debilitando, e, ao voltar para o seu apartamento, a ideia fixa de morte o perseguia, deixando-o totalmente transtornado. Um minuto antes da tragédia, lobrigou a presença do seu irmão – Antônio, próximo à janela, e, para surpreendê-lo, de modo estarrecedor, deu o pulo lacratório, impulsionando violentamente o corpo, que se encontrava no vigésimo andar do Edifício Copacabana, em direção ao solo. O impacto foi tão grande, em sua dimensão, que transfixou o joelho na extensão do tórax, aparecendo-lhe nas costas!...


                                               Wilson Cerveira

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