sábado, 1 de junho de 2013

OS METAMORFISMOS DO HUMANO


     Quiçá, o comportamento humano queira dar o devido acompanhamento ao grotesco evolucionismo, sobremodo o que esteja relacionado ao tecnológico. E, destarte, o ser, pouco a pouco, em cada ramerrão existencial, vai perdendo as suas reais características primitivas, numa degenerescência a toda prova. E, em função disso, a volubilidade de reações comportamentais – internas e externas --, progride em antíteses, numa retrogradação paulatina.
     Inaugurando uma nova moda, o ser assomou, de repente, diante das circunstâncias benéficas, aparatando as glândulas torácicas protraídas, exacerbadamente, numa corroboração cabal de uma experimentada liberdade individual.
     Hodiernamente, a conturbação do ser, por mais que se contenha, é tão grave, gravíssima, que o José da Graça – “o pérola negra”--, sofrera uma abrupta síncope, e, logo depois, ainda aturdido, fora depositar a garoupa pecuniária sobre o sincipúcio proeminente do Orixá de Galeno, que era o seu maior aliado, e, também, preceptor dos fluidos propícios e promanadores de uma corrente espiritual benfazeja.
     Houve por parte do chamado “pérola negra”, adesão do conteúdo examinado pormenorizadamente; mas, de modo cabalístico, ocorrera repulsa do continente que lhe fora ofertado como forma donairosa de dádiva exortativa. E, então, de maneira sobeja, quisera ostentar o simulacro pundonoroso, para ratificar o seu posicionamento de autoridade inexpugnável!
     Perante as inúmeras circunstâncias infensas, os metamorfismos do humano têm se proliferado a cada dia, num total conflito de pusilanimidades, no qual ainda se alvitra a possibilidade de harmonização da cizânia, também deflagrada com ímpetos de sanha infrene!...
     As fisionomias do hoje carream subterfúgios inopinados; e, concomitantemente, exprimem admissão e rejeição! Não sabemos, ao certo, se o enigmático sinal de identificação expressa alacridade ou lancinância, haja vista a intensidade com que dimanam a partir do acaso.
     Jamais ressumbraremos o elucubrático metafísico; pois, ainda, remanesce, em plena latência, a expectativa alvissareira de uma esfíngica glândula protraída, quando ostentava a gradação de lubricidade zênite; ou, então, a resultante peremptória de uma resiliência nunca dantes lobrigada!
     Quem diria que os metamorfismos do humano aduzissem, indiscriminadamente, aos diversos arquétipos de modismos e ondismos!... Realmente, os desideratos lídimos estão sendo ergastulados por via enigmática, antes de se deixarem brotar do intrínseco, pois, ainda, permanecem excruciados psicossomaticamente, de maneira prematura e abrupta.
     O ato de pedir desculpas, após longo tempo de procrastinação, porventura seja um arquétipo de fruição pessoal recrudescente. De fato, as metamorfoses humanas impressionam e chegam a transpor todos os limites de suporte concernentes aos graus de variância e aceitabilidade da própria degenerescência.
     Doutor Cursier, renomado especialista em psicologia do comportamento, recebe em seu consultório, diariamente, muitos clientes que apresentam metamorfoses heteróclitas. Sentem a extrema necessidade de nuances fenotípicas quanto ao aspecto fisionômico, atendendo a tridimensionalidade do dia. Parecem se reinaugurar a cada turno, estabelecendo novos matizes para ambos os meios: interno e externo.
     Julieta, a sua paciente decana, exibe a estrambótica síndrome da épura invertida. Há premonições de soçobro em seu corpo, porquanto recebe a influencia das forças antagônicas, sendo que a centrípeta se dirige para o centro da linha trajetorial; enquanto a centrífuga busca a periferia do plano linear, determinando um antagonismo basilar e imprescindível.
     Laércia enfatiza o amor e o relacionamento em dias hodiernos. Alardeia ser uma temática de retumbância social nesta atualidade abstrusa. Os relacionamentos ressumbram sendas labirínticas! E a senhorinha de vinte e três anos, em pleno fastígio da mocidade, parece albergar, para dentro de si, toda a solidão que há no imenso orbe.
     Schopenhauer definiu o amor como a manifestação de um desejo inconsciente de perpetuar a espécie. Pois, conscientemente, ninguém suportaria carregar o fardo pesado da “vontade de vida”. Para o egrégio filósofo, todas as juras de amor não passam de um artifício natural para garantir a sobrevivência da espécie.
     Em toda a sua obra, a visão de Arthur Schopenhauer (1788-1860) sobre o que seria a sabedoria foge, basicamente, tanto da busca pelo prazer, da afirmação da vontade – supostamente contemplada numa existência inflamada e, normalmente, apenas no discurso livre --, quanto da demanda pela felicidade que dependeria decisivamente de um amor, de um laço com o outro. O interno, uma espécie de autossuficiência, a tranquilidade, e a volta para o ser são as chaves para o filósofo alemão.
     Acerca do livro “O Mundo como Vontade e Representação”, Schopenhauer define o conceito de vontade, fundamental para a compreensão de seu sistema: uma força metafísica que atinge, está presente em todos os seres vivos, rege o mundo e controla o homem, que não é, assim, guiado pela razão. Nessa linha, “nós não queremos uma coisa porque encontramos motivo para ela, encontramos motivo para ela porque a queremos”. O intelecto, em geral, trabalharia para a vontade, seria um escravo dela. Daí, resultaria a dificuldade exorbitante de se possuir considerável domínio sobre si mesmo.
     Em sintonia com todos esses pontos, há de se lembrar que, para o pensador alemão, qualquer desejo, -- não excluído --, seja o de relacionamento efêmero, de satisfazer impulsos imediatamente, ou o da edificação de laços mais duradouros, nasce da falta, e, a partir do momento no qual é concretizado, perde o seu valor.
     Para Schopenhauer, a vida oscila, como pêndulo, da direita para a esquerda, do sofrimento para o aborrecimento: estes são os dois elementos de que ela é feita, em suma. A falta geraria dor e desejo; este, à medida que é alcançado, não satisfaria de modo consistente, duradouro, dando lugar ao tédio, que, para Schopenhauer, é ainda pior para o homem do que o estado de ansiedade e sofrimento da falta, quando se quer algo que não se possui. “E a realização nunca satisfaz; nada é tão fatal para um ideal do que a sua realização”. E, além disso, a paixão satisfeita leva com mais frequência à infelicidade do que à felicidade. Porque suas exigências muitas vezes conflitam tanto com o bem-estar pessoal do interessado, que o prejudicam.
     Se a companhia de um ente querido, de um parceiro, não é direta e expressamente despida de qualquer valor para Schopenhauer, no seu pensamento, enxergamo-nos em um posicionamento totalmente distante – difícil conceber separação, incompatibilidade maiores... – e em incontáveis acepções, oposto aos disseminados, expressos no senso comum, no ramo da autoajuda, no cinema em geral. O amor, não apenas pelo fato de ser visto como uma máscara criada pelo desejo de preservar a espécie, no sentido decantado, na sétima arte, nas ruas. E, destarte, é desmistificado, até por ser colocado nesses espaços, como salvação, como ponte direta para a felicidade, sem a contextualização devida do papel da autossuficiência e de outras complexidades.
     Severiano parece divergir inteiramente com relação ao artigo que aborda as contundências marcantes do comportamento humano, quanto experimenta, de modo mais acentuado, a sensação mantenedora quanto ao hábito de morder a parte lateral da língua, dando a impressão real do sobejamento com referência ao configurismo assumido pelo tamanho.
      Ermiliana foi a cliente, talvez a mais simples, a ad-rogar o infenso nefando, testando, de qualquer forma, a sua capacidade de perdoar as tenebrosas ofensas. E, nesse caso, não soubera exarar – por mais que quisesse – de onde viera descomunal tendência para a indulgência, sobretudo, em se tratando de casos horripilantes, ressumbrando, desse modo, as mais hediondas barbáries.

     É insofismável corroborar que os metamorfismos do humano não podem transcender as cláusulas regentes do enorme sentimento de demanda, que é o amor. E, assim sendo, André Comte-Sponville diz o seguinte: “O amor não é o contrário da solidão. É solidão compartilhada, habitada, iluminada – e, às vezes, ensombrecida – pela solidão do outro. O amor é a solidão sempre; não que toda solidão seja amante, longe disso, mas porque todo amor é solitário. Ninguém pode amar em nosso lugar, nem em nós, nem como nós”.

                                     Wilson Cerveira

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