Os dantescos tamanhos das caixas de som
amedrontam os espaços dos móveis menores, cabendo apenas nas gigantescas
carrocerias dos grandes caminhões aparatando um seriado de pneus altos e de
espessos calibres. O som é tão estentório em sua intensidade acústica, quase
insuportável, que é ouvido no arrabalde inteiro, filtrando para os demais
bairros que se localizam em suas circunvizinhanças. O mistifório gritante faz
calar as vozes mais deblaterativas. Assim sendo, encerram-se todas as
vociferações em uma única direitura inumatória. O próprio telúrico, de modo
especioso, parece tripudiar em todos os sentidos e direções, num
entrecruzamento de ecos, estampidos e estrugidos de natureza vária.
Não se escuta a voz do cantor nem as buzinas
dos carros entupigaitados nas ruas de difícil circulação, tampouco as colisões
entre os automóveis, passageiros dos bancos da parte da frente e de trás, fora
os transeuntes que cortam em diagonal as faixas estabelecedoras de parada,
dando acesso ao deslocamento dos que atravessam no devido ínterim da estugação
dos passos. Tudo ressumbra açodamento, indo da cabeça aos pés, e alterando por
completo o funcionamento extrínseco e intrínseco dos demais sistemas orgânicos.
O imbróglio acústico vai tomando as
dimensões dos espaços por onde se passa, independentemente do nível – baixo ou
alto do terreno, a blateração do estropiado som vai grassando
obliterativamente, como se fosse o postremeiro átimo peremptório de todas as
mixagens produzidas através de todos os meios de percussão. Não se sabe ao
certo diferenciar os instrumentos tocados por grupos diferenciados, uma vez que
a transgressão percutória expunge a identidade dos aparelhos que participam do
impacto turbilhonado em variegadas posições, demandando inusitados ouvidos, com
percepção ou sem condições de absorver e filtrar a descomunal carga acústica,
chegando a incomodar até os que vivem da indiferença de pratos e porções
alimentares representando a quantificação saciatória dos animais mais
sensíveis, independentemente de suas racionalidades.
Adendos relacionados ao volume, rotação,
promiscuidades de batuques e ritmos, formando uma mixagem inextrincável. As
coreografias metamorfoseiam-se devido as consequentes demudações dos dançantes.
O pé direito sobe à altura do sincipúcio, ao passo que o esquerdo se contrai
até o ponto de intersecção da patela, indo tocar na região central de cada um
dos glúteos invertidos! A descomunal dissonância vai crescendo cada vez mais,
chegando a um nível sonoro, de tão abstrusa complexidade, em que se desconhecem
a letra e a música. O imbróglio ultrapassou ao limite estabelecido durante a
execução dos instrumentos acionados para o evento, de natureza esfíngica, sem
nominação correspondente.
Os decibéis transgridem a plausibilidade
do ouvido humano. Os surdos não percebem o grau de degenerescência acústica. O
som é tão forte, insuportável para quem se apropinqua de sua fonte emissora. As
caixas de receptação acústica trepidam como se quisessem ziguezaguear,
promovendo uma estúrdia não presenciada nos pátios dos maiores manicômios do
orbe.
Conquanto não se saiba definir a letra
antagônica e a música, ambas reproduzidas em aparelhos portadores de potências
enigmáticas, provindas de estertores aberrantes, causando surdez em quem se
aproxima de um deles, faltando a devida equivalência. Moucos serão todos
aqueles que participaram da tresloucada mixórdia acústica implantada nestes
dias de modismo psicodélico degenerescente!
A esquipatia ascendeu muito nestes nossos
dias de perturbação mental. Talvez, a maioria dos energúmenos busquem o
ininteligível da promiscuidade sonora, demandando fórmulas abstracionais de
tomar novos rumos quanto à direitura dos possíveis libratórios
harmodesarmônicos; hoje, sendo lobrigados em todos os rincões do labirínticos
orbes giratórios, sendo, nesse caso, imprevisíveis em todas as circunstâncias
vitais vigentes.
A dissonância, com certeza, tem sido um
dos fatores de conivência. Joanderson, teve a má sina de ser vizinho, morando
numa casa contígua a um clube de roqueiros, cabalmente deseducados, que aprovam
com todas letras o “som altíssimo”, fazendo com que as próprias tábuas, tijolos
e tetos trepidem perante a estridência de um eco ensurdecedor, ultrapassando
todos os decibéis de tolerância auditiva.
Wilson Cerveira
Fico a observar como a qualidade da música moderna é inversamente proporcial ao volume que ela ressoa pelas caixas de som descomunais que mantém seus excêntricos adoradores.
ResponderExcluirCarlos H.G. Medeiros