terça-feira, 8 de setembro de 2015

MIXÓRDIA ACÚSTICA

     Os dantescos tamanhos das caixas de som amedrontam os espaços dos móveis menores, cabendo apenas nas gigantescas carrocerias dos grandes caminhões aparatando um seriado de pneus altos e de espessos calibres. O som é tão estentório em sua intensidade acústica, quase insuportável, que é ouvido no arrabalde inteiro, filtrando para os demais bairros que se localizam em suas circunvizinhanças. O mistifório gritante faz calar as vozes mais deblaterativas. Assim sendo, encerram-se todas as vociferações em uma única direitura inumatória. O próprio telúrico, de modo especioso, parece tripudiar em todos os sentidos e direções, num entrecruzamento de ecos, estampidos e estrugidos de natureza vária.
     Não se escuta a voz do cantor nem as buzinas dos carros entupigaitados nas ruas de difícil circulação, tampouco as colisões entre os automóveis, passageiros dos bancos da parte da frente e de trás, fora os transeuntes que cortam em diagonal as faixas estabelecedoras de parada, dando acesso ao deslocamento dos que atravessam no devido ínterim da estugação dos passos. Tudo ressumbra açodamento, indo da cabeça aos pés, e alterando por completo o funcionamento extrínseco e intrínseco dos demais sistemas orgânicos.
     O imbróglio acústico vai tomando as dimensões dos espaços por onde se passa, independentemente do nível – baixo ou alto do terreno, a blateração do estropiado som vai grassando obliterativamente, como se fosse o postremeiro átimo peremptório de todas as mixagens produzidas através de todos os meios de percussão. Não se sabe ao certo diferenciar os instrumentos tocados por grupos diferenciados, uma vez que a transgressão percutória expunge a identidade dos aparelhos que participam do impacto turbilhonado em variegadas posições, demandando inusitados ouvidos, com percepção ou sem condições de absorver e filtrar a descomunal carga acústica, chegando a incomodar até os que vivem da indiferença de pratos e porções alimentares representando a quantificação saciatória dos animais mais sensíveis, independentemente de suas racionalidades.
     Adendos relacionados ao volume, rotação, promiscuidades de batuques e ritmos, formando uma mixagem inextrincável. As coreografias metamorfoseiam-se devido as consequentes demudações dos dançantes. O pé direito sobe à altura do sincipúcio, ao passo que o esquerdo se contrai até o ponto de intersecção da patela, indo tocar na região central de cada um dos glúteos invertidos! A descomunal dissonância vai crescendo cada vez mais, chegando a um nível sonoro, de tão abstrusa complexidade, em que se desconhecem a letra e a música. O imbróglio ultrapassou ao limite estabelecido durante a execução dos instrumentos acionados para o evento, de natureza esfíngica, sem nominação correspondente.
     Os decibéis transgridem a plausibilidade do ouvido humano. Os surdos não percebem o grau de degenerescência acústica. O som é tão forte, insuportável para quem se apropinqua de sua fonte emissora. As caixas de receptação acústica trepidam como se quisessem ziguezaguear, promovendo uma estúrdia não presenciada nos pátios dos maiores manicômios do orbe.
     Conquanto não se saiba definir a letra antagônica e a música, ambas reproduzidas em aparelhos portadores de potências enigmáticas, provindas de estertores aberrantes, causando surdez em quem se aproxima de um deles, faltando a devida equivalência. Moucos serão todos aqueles que participaram da tresloucada mixórdia acústica implantada nestes dias de modismo psicodélico degenerescente!
     A esquipatia ascendeu muito nestes nossos dias de perturbação mental. Talvez, a maioria dos energúmenos busquem o ininteligível da promiscuidade sonora, demandando fórmulas abstracionais de tomar novos rumos quanto à direitura dos possíveis libratórios harmodesarmônicos; hoje, sendo lobrigados em todos os rincões do labirínticos orbes giratórios, sendo, nesse caso, imprevisíveis em todas as circunstâncias vitais vigentes.

     A dissonância, com certeza, tem sido um dos fatores de conivência. Joanderson, teve a má sina de ser vizinho, morando numa casa contígua a um clube de roqueiros, cabalmente deseducados, que aprovam com todas letras o “som altíssimo”, fazendo com que as próprias tábuas, tijolos e tetos trepidem perante a estridência de um eco ensurdecedor, ultrapassando todos os decibéis de tolerância auditiva.

                                    Wilson Cerveira

Um comentário:

  1. Anônimo17/9/15

    Fico a observar como a qualidade da música moderna é inversamente proporcial ao volume que ela ressoa pelas caixas de som descomunais que mantém seus excêntricos adoradores.
    Carlos H.G. Medeiros

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