sábado, 25 de maio de 2013

A ENIGMÁTICA SOLIDÃO

     Onde se encontra a verdadeira solidão?!... Será que está absconditada nas moléculas de DNA que formam os genes, ou, nesse caso, cronificada, de modo estigmatizante, nos cromossomos, sobremaneira, naqueles que ostentam algum tipo bizarro de anomalia!
      A enigmática solidão, com o passar lancinante do tempo, pode fazer parte integrante das células, dos tecidos e órgãos atinentes ao sistema orgânico. Também, essa megera – de etiologia incognoscível, aparata localizar-se no extrínseco ou no intrínseco, ou, então, em ambos os meios. E, de igual modo, urge estar inserida no isolamento das epidermes em profusão.
     É de bom alvitre exarar que, quando lhe cortam o cordão umbilical, o ser humano, gregário por definição, fica fisicamente sozinho, e assim segue até a morte, -- cujo silêncio absoluto talvez caracterize nosso maior momento de solidão. Mas, agora, me vem à mente a pergunta: o que é solidão? Ausência ou excesso de comunicação? Doença da modernidade ou movimento constante de preservação?
     Assim sendo, sem muitos cabalísticos, a soledade pode se fazer presente nos dédalos dos lábios  em renegamento constante; e, destarte, deflagraria o desiderato incontinenti de ósculos ignescentes...
     Também, sem hesitação, remanescem os arcabouços laterais dos membros superiores e inferiores, -- em plena vacuidade --, onde os abraços são elucubrados, mesmo estando a conviver com a ablação inclemente de músculos, nervos, ossos e peles!
     Zyrmeão vaticinou que a sua mulher – Letícia, jamais permaneceu por mais de dez minutos sozinha: quer dizer, ela nunca está somente consigo, com seus pensamentos, sonhos, preocupações e esperanças. Deveras, a soledade, de modo paradoxal, far-se-á presente nas atitudes de arrenegamento das prosódicas logopéias, onde bocas sem lábios, ou, então, lábios sem boca; sem exceção, começam a prolatar, de modo tácito, um adeus de eterna despedida!...
     Agora, ela, essa terna criatura, provavelmente, esqueceu como alguém vive em sua própria companhia, sem o acompanhamento de outros.
     Letícia enfatiza a existência de “pequenas bugigangas tamanho-bolso enviando e recebendo mensagens”, e, decerto, não sendo as únicas ferramentas das quais a criatura, e outras como ela, precisam para sobreviver à arte de estar só.
     O ato de sentir-se só, sempre sozinho, infringe a condição que demonstra a imensa multidão de solitários. Tanto assim, sem esgueiramentos, os inventores e vendedores de Walkman, a primeira bugiganga móvel que permitiu “ouvir o mundo”.
     Esses sujeitos sabiam que havia milhões de pessoas nas ruas, e que, sem dilucidamentos plausíveis, execravam sua solidão tão dolorosa e horrível; criaturas não apenas privadas de companhia, mas sofrendo com sua ausência.
     A soledade que percorre os espaços preenchidos por multidões, em cabal dessentimento, ostentando, de igual maneira, o fatídico. E, desse modo, perpetuam a descomunal soledade vivida em parceria!...
     Com a chegada da Internet, também esse abismo poderia ser esquecido; ao menos a dor causada por ele poderia ser suavizada. A companhia, perdida e desejada, aparentava ter agora retornado, mesmo que por meio de telas em vez de portas, e em sua nova sofisticação eletrônica, virtual: em uma forma na qual pessoas -- que estavam se arrastando para longe dos tormentos da solidão-- encontraram um aprimoramento considerável na desaparecida variedade face a face e mão a mão. Com a perícia de uma interação face a face, amplamente esquecida, ou nunca aprendida, o que poderia ser um revés da “conexão” virtual foi, dessa maneira, recebido como vantagem.
     De fato, o que o Facebook, o My Space e similares oferecem, atualmente, é o melhor de dois mundos... Ou assim, dão a falaciosa impressão às pessoas, notadamente as que, mesmo ansiando desesperadamente por companhia humana, se sentiam arrefecidas quando se encontravam entre ela.
     Ninguém conseguiu libertar-se dos grilhões, principalmente os que decretam o ato de sentir-se só, se bem que se encontrem especiosamente ladeados por afinidades sentimentais recíprocas.
     Para começar, é preciso não estar sempre sozinho. Um simples minuto – vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana – é o que gastamos para apertar um botão e fazer, reiteradamente, companhia a pessoas solitárias. Nesse mundo on-line ninguém está sempre distante. Todos parecem estar constantemente ao alcance. E mesmo que ela ou ele acidentalmente caiam no sono; deveras, existem outros – em número suficiente – para os quais podemos enviar uma mensagem ou apenas um twitter, fazendo com que aquela ausência temporária passe despercebida.
     Desde os primórdios do orbe, vem-se a demandar a defecção das sendas que aduzem ao zênite da pungência soliloquial! Então, é necessário não impor o ritmo dessa solidão, carcomida megera, que dilacera o enredo do mais lidimo sentimento, ainda existente neste cominador planeta – Terra. Nesse caso, urge não infligir soledade na grande e desnorteante mídia, sobretudo, abrangendo os seguintes meios: via internet, telefones convencionais e celulares de diversos tipos – dos mais simples aos mais requintados.
     Em segundo lugar, é possível contatar outras pessoas, randomicamente escolhidas, sem necessariamente encetar uma comutação, de menor desiderato, que poderia tomar um curso não apreciado. O contato pode ser quebrado ao primeiro sinal de uma direção indesejada; não há risco, portanto, mas também não há necessidade de buscar desculpas, perdões e mentiras; pois, um pequeno movimento de dedos pode ser o bastante. E, assim, você não precisa ter medo de ficar sozinho, nem assumir o risco de ter sido exposto aos desígnios de outras pessoas.
     A tecnologia buscou, através da virtualidade, meios falaciosos para escafeder-se da solidão; e, mesmo assim, antinomicamente, tem recrudescido o número de pessoas solitárias. E, diante de todos esses paradoxos, em quais posições remanescem os sonhos das noites pretéritas e as ilusões dos prístinos?!...
     Vivemos num mundo virtual, que não existe como realidade, mas sim como potência ou faculdade. Este tipo de orbe é possível; suscetível de se realizar; ultra-potencial! E, a despeito do que está ocorrendo, você está menos disposto a comunicar-se com as pessoas reais em proximidade imediata.
     Em que pese os inúmeros aparatos tecnológicos existentes, em dias hodiernos, a efígie humana não consegue libertar-se do claustro da solidão, tanto a que se forma no intrínseco, como também a que se localiza na perfunctoriedade da matéria.
     Como é difícil administrar uma solidão veterana, antes que se elucubre a dimensionalidade de suas imprevisíveis consequências desairosas! E, todos, especiosamente, parecem estar ligados nas redes de comunicação!... Mas, como ilação peremptória, as ilusões soçobram num imane espaço, onde a solidão parece imperar vetorialmente, em todos os sentidos e direções plausíveis!...


                                               Wilson Cerveira

2 comentários:

  1. José Araújo26/5/13

    Todos nós precisamos de instantes de solidão.Entranhar-se nela é que é perigoso e doentio. É sabido que o homem é um ser social.

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  2. Claudiane5/8/13

    Caro Professor,
    Com o avanço da sociedade moderna e o crescimento frenético das novas tecnologias, surge a falsa impressão de que os indivíduos não estão maios sozinhos, no entanto, sabe-se que o mesmo tem a companhia de uma máquina e de pessoas que na maioria das vezes desconhece; não sendo conhecedor de fato dos seus “amigos” é impossível estabelecer relações profundas, tato, cheiro, sons, fazem parte de um conjunto de requisitos que nos auxiliam no processo de conhecer o outro. Surge então a solidão, aquela massacrante, nesse caso, com uma nova “vestimenta”, onde o indivíduo não esta sozinho e ao mesmo tempo não tem a companhia de ninguém. Não sou inimiga da solidão, ao contrário, sou até defensora, desde que seja para nobres causas, como por exemplo, a auto avaliação, o auto conhecimento, para a reflexão de sentimentos, reavaliação de atitudes e comportamento. Sou inimiga da solidão forçada, onde as pessoas configuram-se como ilhas, fazendo analogia ao sentido etimológico da palavra, neste caso, substitui-se água por pessoas, e indivíduos solitários como porções de terra, cercadas de pessoas por todos os lados. Esse tipo de solidão, onde eu substituo o real pelo virtual pode ser extremamente prejudicial, uma vez que, enfraquece relações e as vezes as destroem sem deixar vestígios como se em momento algum tivessem existido.
    Louvável seu artigo, traz a reflexões que levariam a discussões profundas sobre a temática abordada.
    Claudiane.

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